O presente artigo faz uma discussão interessante: como falar da Trindade de um modo humano, ou seja, como “introduzir noções” na discussão sobre a Trindade, atribuindo-as a Deus. De fato, para falar sobre algum aspecto da realidade que conhecemos, recorremos a abstrações, que geram conceitos. Abstrações são noções que se formam quando se retira, de alguma realidade concreta, aquilo que ela tem em comum com todas as realidades que compartilham sua mesma forma. Mas como aplicar esta ideia ao próprio Deus, quer dizer, como se pode imaginar que nós podemos “abstrair” alguma noção a partir do conhecimento que temos de Deus, se Deus não é, a rigor, um indivíduo concreto do qual temos experiência direta, senão alguém que é o próprio ser, na sua simplicidade absoluta? Como aplicar o modo humano de falar sobre aquilo que somente humanamente podemos conhecer, mas cuja realidade ultrapassa, em si mesmo, tudo o que é humano?
Note-se que não estamos falando com algum tipo de interlocutor nominalista, para quem as noções e conceitos são meros construtos humanos para descrever uma realidade que, em si mesma, desconhece universais. Tampouco com algum conceitualista, para quem é a nossa mente que, ao conhecer as similaridades entre as realidades que se dão a nossa inteligência, constrói noções que são, embora humanas, capazes de exprimir de fato a realidade. São Tomás é um realista, que dizer, ele está certo de que os universais realmente existem, quer na nossa mente, como abstrações, quer nas coisas, como forma, quer na mente divina, como fundamento. Mas o problema com o que estamos nos deparando aqui é mais complexo: trata-se de Deus, e para Deus não há universal possível; ele próprio é um universal, embora concreto, existente. No entanto, para os realistas, falar de alguma coisa significa dizer, conceitualmente, aquilo mesmo que a coisa é realmente. Assim, falar de Deus é, de certa forma, tocá-lo. Mas, para falar de Deus, e mais ainda para falar humanamente do mistério da Trindade, nossos esquemas humanos desabam.
É preciso ter paciência com este artigo, e não se afobar com o instrumental complexo que ela emprega. Na sua resposta sintetizadora, São Tomás vai explicá-la didaticamente. Não desistamos de entender o debate antes de acompanhá-lo até o fim.
É por isto, por todos estes problemas envolvendo o modo humano de conhecer e de falar de Deus (que, de certo modo, foi introduzido nas questões 01 e 13 desta primeira parte, que já debatemos anteriormente), que a hipótese controvertida, aqui, sustenta que não deveríamos usar de noções, quando nos referimos a Deus. Trata-se, pois, de discutir como exatamente vamos falar da Trindade, com toda a complexidade da individualização das pessoas divinas, sabendo, por um lado, que a simplicidade de Deus não é abalada pela intimidade trinitária que lhe é própria, por um lado, e, por outro, que não sabemos nos referir a nenhum objeto de nosso conhecimento sem usar de noções.
A hipótese controvertida é apoiada por três argumentos objetores iniciais, que São Tomas passa a enumerar.
O primeiro argumento cita o [pseudo]-Dionísio, e é um argumento com sabor de sola Scriptura; diz Dionísio que não deveríamos nos atrever a falar de Deus mais do que as Escrituras o fazem. Ora, prossegue o argumento, as Escrituras não usam noções para referirem-se a Deus. O argumento, portanto, traz uma importante (e verdadeira) constatação do místico [pseudo]-Dionísio: as Escrituras nunca discorrem sobre Deus, mas estabelecem-nos numa relação com ele. Desta constatação, no entanto, o argumento conclui que não deveríamos usar de noções para falar de Deus.
O segundo argumento afirma que tudo o que podemos falar de Deus só pode se referir ou 1) à unidade da essência ou 2) à Trindade das pessoas. Mas, segue o argumento, nem para falar da essência, nem para falar da Trindade as noções, em sua abstração, são adequadas. De fato, prossegue, não poderíamos criar validamente proposições como “a paternidade cria”, ou “a filiação é sábia”, para nos referirmos à essência divina; nem poderíamos dizer que “a paternidade gera”, ou “a filiação é gerada”, porque quem gera é o Pai e quem é gerado é o Filho, não alguma noção abstrata. Assim, o argumento conclui que não devemos usar de noções quando nos referimos a Deus.
O terceiro argumento é um pouco mais complexo. De fato, pela teoria do conhecimento escolástico, conhecemos as coisas pelos seus princípios, e as coisas da nossa experiência ordinária têm um princípio material e um princípio formal, além, é claro, do princípio eficiente que os origina e do fim a que se destinam. A composição destes princípios, que varia em cada coisa, é capaz de individuá-las e torná-las cognoscíveis. Mas as realidades divinas não são assim, porque são sem princípio, já que não são compostas, mas simples. Neste caso, a sua existência tem que coincidir inteiramente com o conhecimento que têm de si mesmos, porque, nos seres simples, não há princípios de individuação. Em Deus, ser, existir e saber-se coincide totalmente; nos anjos coincide o ser e o saber-se, porque são inteligências que se individuam por conhecerem-se inteiramente. É certo, pois, que, na metafísica escolástica, qualquer ser imaterial deve necessariamente ser inteligente, porque ser imaterialmente é conhecer-se inteiramente.
Disto tudo, de toda esta concepção de conhecimento, o argumento chega à conclusão de que não se deve utilizar de noções para conhecer Deus em sua realidade trinitária, porque noções são abstrações de princípios, e isto é, segundo o argumento, algo completamente incompatível com o modo de ser de Deus.
O argumento sed contra cita São Damasceno; para ele, nós, seres humanos, reconhecemos, na Trindade, a diferença das pessoas através de três propriedades, que são a paternidade, a filiação e a processão. Assim, diz ele, é necessário valer-se de noções para conhecer efetivamente esta economia divina.
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