Passamos a avaliar, agora, as respostas específicas que Tomás dá aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor cita três passagens de origem filosófica em que parece haver menção a características trinitárias de Deus; Aristóteles e sua menção ao número “três” na obra “Sobre o Céu e o Mundo”, uma menção de Agostinho ao “verbo na obra dos platônicos” e uma citação de Hermes Trimegisto, na qual ele menciona uma “mônada que gerou a mônada”, que seria, segundo o argumento, uma alusão à geração do Filho e à processão do Espírito. Assim, o argumento conclui que não somente é possível chegar a um conhecimento trinitário apenas pela razão, como efetivamente certos filósofos o teriam alcançado, antes ou fora da fé cristã.
Mas São Tomás dirá que os filósofos não chegaram a qualquer conhecimento natural do mistério trinitário, nem este conhecimento jamais se apresentou à razão humana fora da Revelação cristã. Na verdade, São Tomás insiste que isto deve ser mesmo assim, e que a própria Bíblia o estatui, quando São paulo diz, na Primeira Carta aos Coríntios (2,6): “(…) falamos da sabedoria, mas não da sabedoria deste mundo, nem da sabedoria dos poderosos deste mundo, que estão sendo anulados”. São Tomás cita, então, a própria Glosa Interlinear da Bíblia, que diz expressamente que este versículo faz referência direta aos filósofos. São Tomás expressamente diz que a filosofia jamais chegou ao mistério trinitário das pessoas divinas; admite, apenas, que os filósofos tenham chegado, independentemente da Revelação, a alguns dos atributos apropriados pelas Pessoas, como o poder (do Pai), a sabedoria (do Filho) e a bondade (do Espírito Santo), sem, no entanto, havê-las associado às respectivas pessoas.
E passa a avaliar cada trecho filosófico citado na objeção.
Quanto a Aristóteles, diz São Tomás, não se deve entender a menção que ele faz ao número três como algum tipo de intuição sobre a Trindade revelada, mas apenas como menção ao fato de que os antigos consideravam o número três como portador de alguma perfeição interna, e o utilizavam, em razão disso, em sacrifícios e orações. Seria o registro de um uso, digamos, muito mais “numerológico” (no sentido mágico) do que alguma intuição alcançada por mero exercício da razão, da realidade da Trindade.
Quanto à menção que os platônicos fazem ao “logos” ou “verbo” em seus escritos, e que Santo Agostinho menciona nas “Confissões”, eles não se referem ao “verbo” como “pessoa gerada em Deus”, mas como a razão de todas as coisas, que expressam as ideias no nosso mundo concreto. Se, para nós, o “verbo” é o Filho, pelo qual deus criou todas as coisas, para os platônicos havia um reino das ideias, transcendente, vinculado ao Bem absoluto, que seria a culminação do seu sistema, e um “demiurgo” que criou efetivamente as coisas a partir das razões transcendentes, mas que não se constituía em Deus com o supremo; seria uma outra substância, inferior àquela. E é neste sentido, diz São Tomás, que se diz que os platônicos erraram “no terceiro sinal”: eles não chegaram a admitir uma terceira substância separada que viesse a corresponder ao Espírito Santo. Assim, diz São Tomás, não há, no pensamento deles, nenhuma noção, ainda que intuitivamente obtida, da Trindade, senão uma ideia de uma hierarquia de poderes celestes, diferentes substancialmente, que acabaram por influenciar heresias cristãs não trinitárias, como a de Ário e a de Orígenes, que foram (equivocadamente) influenciados pelos platônicos neste particular. Andaram longe, portanto, de adquirir algum “conhecimento racionalista” da Trindade Santa.
Quanto ao trecho citado pelo argumento, com referência ao pensamento de Trimegisto, ele se refere à forma como o mundo emanou de Deus, e não à processão trinitária, diz São Tomás. Muito longe, portanto, de ser uma intuição racional sobre a Trindade.
O segundo argumento diz que, uma vez que a Trindade é a verdade de Deus, não devem faltar argumentos, não só prováveis mas também necessários, inclusive a partir da própria bondade infinita de Deus, ou na partilha como fonte de felicidade, ou ainda na analogia que Santo Agostinho faz entre a realidade da Trindade e as nossas realidades psicológica da memória, do conhecimento e da vontade. Destes elementos, diz o argumento, poder-se-ia deduzir, apenas com a razão, a existência da Trindade.
São Tomás dá uma aula de metodologia, para responder a esta objeção. Ele explica que há duas maneiras de “dar razões” do que se conhece; a primeira é aquela pela qual se conhece o fundamento teórico de algum aspecto da realidade, de modo que, conhecido o fundamento, o próprio aspecto que se busca explicar resta conhecido também. Ele dá o exemplo do movimento uniforme do céu, conforme a ciência astronômica que ele conheceu em sua época. Hoje, diríamos que as leis dos campos eletromagnéticos são uma explicação deste tipo; conhecendo-as, conheço o próprio fenômeno que quero explicar. Não são deste gênero as razões que tenho para entender a Trindade.
A segunda forma de explicar pelas causas, diz Tomás, é quando me deparo com algum fenômeno que me interpela, e procuramos explicá-lo. Pode-se inclusive desenvolver mesmo uma matemática para explicar o fenômeno, mas sempre pode haver uma outra explicação, igualmente plausível, para ele. Era o caso, diz São Tomás, o modelo ptolomaico de explicação das órbitas dos planetas. Desenvolveu-se toda uma matemática de epiciclos e de movimentos excêntricos, que era capaz de prever acuradamente o movimento dos planetas considerando que a terra estava imóvel. Muito antes do desenvolvimento do modelo copernicano e da física newtoniana, no entanto, o próprio São Tomás já advertia que esta explicação não era prova suficiente de que os planetas de fato se movessem como aquele modelo demonstrava; e que poderia haver uma outra explicação igualmente razoável, que desse conta do fenômeno dos movimentos planetários de um modo completamente diferente. E isto veio realmente a acontecer, e o modelo ptolomaico, cuja superação São Tomás predisse como possível, foi de fato superado, sem que houvesse modificação na própria realidade observada.
As razões relativamente à Trindade, diz São Tomás, têm muito mais analogia com este segundo modelo do que com o primeiro. Para explicar as razões da unidade, da bondade, da imaterialidade, da eternidade divinas, podemos muito bem caminhar pela dedução destes atributos a partir das famosas vias de prova da existência divina, apresentadas na questão 2 desta primeira parte. Para que Deus seja aquilo que ele é, dadas a necessidade de que seja motor imóvel, causa sem causa, perfeição absoluta, necessidade dos contingentes e fim de tudo, ele deve apresentar tais atributos. Para ser criador, deve ser onipotente. Para ser o fim de todas as coisas, deve ser perfeitamente bom. Para ser sem causa e imutável, deve ser eterno e imaterial, e assim por diante. Mas no caso da Trindade, há a surpresa de deparar-se com um “fato bruto” da intimidade de Deus, revelado pelo encontro mesmo com Jesus, sua encarnação, morte e ressurreição, tudo fruto gratuito e inesperado da iniciativa divina que é misteriosa. Não há como deduzir este mistério a partir de nenhum raciocínio de inteligência humana.
Assim, as razões apresentadas (como a “partilha” como fonte de felicidade), diz São Tomás, não são aplicáveis a Deus; para que a Trindade fosse uma realidade necessariamente dedutível a partir, por exemplo, da experiência de que a partilha é uma fonte de felicidade, seria necessário admitir que a felicidade, em Deus, fosse capaz de “mais” ou de “menos”, fosse alguma coisa que existisse de forma incompleta num Deus unitário e aumentasse quando Deus viesse a ser Trindade. Mas Deus não é Trinitário por necessidade, senão porque é assim que ele é. Nada em Deus é necessário, tudo é livre e bom em grau máximo, nada se impõe ao seu modo de ser como uma “dedução” a partir de fora.
De igual modo, diz São Tomás, da explicação que Santo Agostinho dá a respeito da Trindade, partindo da psicologia humana, não se poderia deduzir a própria Trindade. A psicologia humana não é unívoca com a imanência divina, nem sequer nosso intelecto é unívoco com o divino. Assim, diz São Tomás, conhecendo a Trindade, podemos usar de analogias e de metáforas para descrevê-la de modo a ser, ainda que muito limitadamente, inteligível em modo humano. Mas das analogias e das metáforas jamais poderíamos fazer o caminho inverso e deduzir a Trindade. Ou, como diz a citação de Santo Agostinho que ele coleciona aqui, “a partir da fé pode-se chegar ao conhecimento humano; mas não há o caminho contrário”.
O terceiro e último argumento questiona que, se a Trindade estivesse acima da capacidade da razão humana, nenhum valor teria que ela fosse revelada; logo, diz o argumento, ela não está acima da capacidade de descoberta autônoma da razão humana.
São Tomás já explicou, na resposta anterior, que uma coisa é a capacidade que tem a razão humana de descobrir alguma realidade a partir de suas forças; outra é a capacidade de, deparando-se com alguma interpelação à sua inteligência, sondar-lhe as razões. Mas a discussão aqui é outra. Por que razão Deus nos revelaria sua intimidade, sua imanência, aquilo que poderia ter permanecido oculto para nós por toda a eternidade, que sequer teríamos desconfiança de que existisse? Ou seja, qual a utilidade desta informação revelada para nós? Que diferença pode nos fazer? Trata-se de mero exibicionismo divino, ou de mera satisfação de curiosidade?
Nada disso, diz Tomás. Há dois motivos pelos quais esta Revelação maravilhosa nos é necessária:
1. Por ela, podemos entender corretamente a criação, compreendendo que a natureza de Deus mesma envolve alteridade, doação e amor. Deus não nos criou porque precisasse de nós, como quer, por exemplo, Hegel, em sua dialética tão violentadora da liberdade divina. Nem nos criou para nos submeter ou nos dominar, como pensam algumas religiões, nem espalhou “faíscas” de si mesmo na matéria, como querem alguns gnosticismos. Ele criou porque ama, transborda de amor e quer nos fazer compartilhar livremente deste amor maravilhoso. Assim, diz Tomás, conhecendo a Trindade, podemos reler mais adequadamente o próprio relato da criação do Livro do Gênesis, e ver ali como se espalha a luz, manifestando o Verbo divino, e como Deus, ao criar a luz (e todas as outras coisas), declara que tudo é “bom”, manifestando a aprovação do Espírito no amor.
2. Mas, além disso, a Revelação Trinitária é ainda mais importante, essencial mesmo, para a nossa salvação – que passa pela encarnação, paixão, morte e ressurreição do Filho e culmina com o dom do Espírito Santo.
Não se trata, pois, de algo gratuito, exibicionista ou dispensável. Esta Revelação é essencial para que saibamos quem somos e para onde vamos. E em grande parte, e apesar dos magistrais esforços de São Tomás, o trabalho de enxergar a Trindade como fundamento primeiro e destino último da nossa fé ainda está muito por fazer.
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