Vimos, no texto anterior, que o problema colocado, aqui, é o da possibilidade de chegar-se ao conhecimento de que Deus é Trindade a partir apenas da razão humana. Vimos os três argumentos objetores, que resgatam discussões filosóficas e mesmo a relação entre a teologia e a filosofia, para defender que este é um conhecimento que se pode alcançar a partir da inteligência humana, independentemente de uma Revelação divina explícita. O argumento sed contra cita dois Padres da Igreja para reafirmar que a Trindade é objeto apenas de Revelação, não de raciocínio filosófico.

Agora São Tomás dará sua resposta sintetizadora, e já a inicia afirmando categoricamente que é impossível chegar, apenas pela força da razão humana, a saber que Deus é Trindade.

São Tomás recorda que discutiu longamente, no início da Suma, as vias pelas quais a razão humana pode chegar ao conhecimento de Deus, em especial nas questões 01, 02 e 12 desta primeira parte. Em todos os casos, diz São Tomás, trata-se de chegar ao conhecimento de que há Deus, partindo do conhecimento das criaturas. De fato, enquanto o conhecimento das criaturas é proporcionado à nossa razão natural, o conhecimento de Deus não o é. Assim, tudo o que nossa razão pode atingir, quanto a Deus, é aquilo que pode ser deduzido do conhecimento das criaturas: das criaturas, como efeito, a inteligência humana pode descobrir que há uma causa, o criador, e deduzir os atributos que seriam adequados a um criador divino. Assim, uma vez que criar é um atributo comum, ou seja, conveniente à unidade divina, e não à distinção das pessoas divinas como tais, então não se pode deduzir, da relação entre a causa divina e os efeitos criaturais, o conhecimento da Trindade. Embora se possa chegar àquilo que, em Deus, lhe convém como Criador (ou seja, à chamada economia da criação), que permite afirmar alguns atributos divinos, tais como a transcendência, a perfeição, a unidade, a bondade infinita, a imaterialidade, a eternidade, no entanto não se pode atingir a própria imanência divina, ou seja, saber o que ele é em si mesmo. É possível, diriam os antigos, saber “que” ele é, mas não saber “o que” ele é.

Assim, diante deste muito bem estabelecido limite da razão, São Tomás adverte que não é uma boa ideia tentar provar as verdades de fé através da razão. Verdades de fé, diz São Tomás, são provadas pelas fontes da Revelação, como as Escrituras, a Tradição e as autoridades que a testemunham – testemunho como o dos padres da Igreja, dos Doutores da fé e do sensus fidei. Mas a Revelação não se impõe a quem não tem fé, enquanto as conquistas da razão podem se impor, no debate. Por isto, São Tomás nos adverte de que somente devemos debater a fé com quem tem fé, ou ao menos está aberto a ela, e aceita as fontes da Revelação – ou ao menos não as rejeita. Com os outros, diz São Tomás, devemos estar prontos a demonstrar que aquilo que a fé ensina não é absurdo, ou seja, que a fé tem logos, razoabilidade, e não contradiz a inteligência humana (1Pd 3, 15). A regra, para o debate, é:

1. Para quem aceita a Revelação, ou, pelo menos, não a rejeita, debatemos as matérias de fé a partir das fontes teológicas.

2. Para quem não compartilha da fé, ou mesmo impugna sua razoabilidade, devemos estar prontos para dar as razões de sua razoabilidade, sem tentar deduzir seus mistérios a partir da razão – evitando cair no ridículo de tentar provar, pela razão, o que só pela fé se pode conhecer, hipótese em que se abre a possibilidade de que a fé seja ridicularizada pelo não-crente. É um desserviço, portanto, a Deus e aos seres humanos, tentar racionalizar o mistério, reduzindo-o.

Colocada, portanto, a resposta sintetizadora, ele passa a responder às objeções iniciais.

Que veremos no próximo texto.