É peculiar da fé cristã crer em Deus uno e trino. E esta fé não se cristalizou senão muitos anos depois da ressurreição de Cristo, séculos até. Mistério central para nós, a Trindade ainda hoje é específica da fé cristã, e ainda hoje dá margem a debates teológicos. O debate proposto por São Tomás aqui, na verdade, envolve os limites entre a razão e a Revelação; trata-se de debater se a simples razão humana é capaz de chegar ao conhecimento de que Deus é Trindade, ou se, para isto, é necessário receber e crer na Revelação cristã, especificamente. O debate proposto é rico e interessante, e envolve a tendência cristã de tentar “legitimar” a Trindade por meio de um esforço que se quer filosófico, mas que continua teológico em sua essência. Este esforço, como São Tomás nos mostrará, não colabora com a fé, nem respeita seu mistério. Uma coisa é demonstrar que a fé não viola a inteligência (isto é sempre um dever do cristão, 1 Pd 3, 15), outra coisa é querer reduzir o mistério para fazê-lo caber ali onde ele não cabe, e expor a fé ao ridículo, banalizando-a. É contra este perigo que São Tomás nos quer prevenir.
A hipótese controvertida será, portanto, a de que é possível vir a saber que Deus é trino simplesmente pela razão, sem a necessidade da própria Revelação. São três os argumentos objetores.
O primeiro argumento objetor afirma que os filósofos vieram a conhecer que há Deus apenas através do uso da razão. E prossegue, resgatando trechos de obras filosóficas que parecem afirmar a existência de uma Trindade em Deus. O primeiro texto citado é o “Do Céu e da Terra”, de Aristóteles, no qual ele diz: “por este número, ou seja, pelo número ternário, glorificamos o Deus único, que ultrapassa as propriedades das coisas criadas”. Coleciona-se também uma citação de Santo Agostinho, que, nas Confissões, diz, a respeito da filosofia de Platão e seus continuadores: “eu li ali (nos livros dos platônicos), não com as mesmas palavras, mas de modo completamente similar, e com muitos e variados argumentos persuasivos, que no princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus”, ao que o argumento acresce que há ainda outros textos que sinalizam a distinção de pessoas, em Deus, já nos filósofos citados pelo santo. O argumento cita ainda a “Glosa Interlinear” da Bíblia, que, comentando o Livro do Êxodo e a Carta aos Romanos, diz que, quando as Escrituras registram que “os magos do Faraó falharam no terceiro sinal”, significa que eles deixaram de reconhecer o Espírito Santo, mas conheceram pelo menos duas Pessoas em Deus. Por fim, o argumento faz uma citação de Hermes Trismegisto (retirada da obra “Livro dos Vinte e Quatro Filósofos”), na qual ele diz: “a Mônada engendrou a Mônada, refletindo em si seu próprio ardor”. O argumento diz que estas palavras parecem declarar a geração do Filho e a processão do Espírito Santo. E, por isto tudo, o argumento conclui que foi possível a estes filósofos, chegar ao conhecimento da Trindade, das Pessoas em Deus, através da pura razão desassistida da Graça.
No segundo argumento, são apresentadas ainda outras citações que parecem indicar que o mistério da Trindade é acessível à razão, sem Revelação. Se, no primeiro argumento, as citações são filosóficas, estas, agora, são teológicas, trazidas de autoridades da fé. A primeira citação é do teólogo Ricardo de São Vítor, que afirma: “creio, sem nenhuma dúvida, que não faltam argumentos, não apenas prováveis, mas necessários, para qualquer explicação sobre a verdade”. Nesta mesma linha, segue o argumento, houve teólogos que defenderam que a infinita bondade de Deus seria uma prova racional de que a existência da Trindade é necessária, aos olhos da razão, porque a infinita bondade, nas processões divinas, comunica-se infinitamente. Houve quem usasse, como argumento, a observação de que a Trindade seria evidente à razão porque a posse perfeita do bem pleno, para a felicidade, só seria possível de modo comunitário. Por fim, o argumento cita mais uma vez o caso de santo Agostinho, Que na sua obra “De Trinitate”, faz uma analogia com a processão da inteligência e da vontade em nosso espírito para explicar as processões das Pessoas Divinas – o que demonstraria que seria possível chegar ao conhecimento da Trindade apenas pela análise de um dado natural, a estrutura espiritual humana. E disto tudo o argumento conclui que a Trindade seria uma verdade ao alcance da simples razão humana.
O terceiro argumento faz um raciocínio a partir de uma má compreensão da relação entre a razão e a Revelação. Seria inútil, diz o argumento, que a Revelação trouxesse para os seres humanos alguma informação que ultrapassasse a capacidade da própria razão – aquilo que ultrapassa a razão não poderia ser compreendido, mesmo se revelado, e portanto não seria assimilável pela inteligência humana. Mas seria absurdo dizer que a Revelação da Trindade é inútil ou inacessível, diz o argumento. Logo, ele conclui que a Trindade é uma realidade que a simples razão humana pode alcançar.
O argumento sed contra cita Santo Hilário, que afirma: “não pretenda o homem, apenas com sua razão, poder chegar ao conhecimento do mistério da Geração Divina”. E cita ainda Santo Ambrósio: “É impossível conhecer o segredo da Geração; A mente falha e a voz cala”. Ora, prossegue o argumento (lembrando a questão 30, artigo 2), que é exatamente pela origem da geração e da processão que se distingue que há a Trindade das Pessoas Divinas. Ora, se a inteligência humana não pode alcançar aquilo cujas razões estão além de sua capacidade, e se as razões da Trindade estão além de sua capacidade, o argumento conclui que a Trindade não pode ser alcançada apenas pela razão humana, independentemente de Revelação.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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