Na primeira parte deste artigo, o problema foi colocado: como podemos usar a palavra “só” para nos referirmos a pessoas divinas, quando estivermos tratando de atributos comuns? É um problema, como vimos, relevante, não somente por causa da fé trinitária, quanto pelo fato de que, em muitos documentos teológicos, litúrgicos e patrísticos, este uso nem sempre segue o rigor que deveria. Assim, se conhecermos bem toda a profundidade da questão, não somete seremos capazes de ler bem estas fontes, como seremos capazes de esclarecer eventuais dúvidas daqueles que estão fora da fé.
Passemos a examinar a resposta sintetizadora de São Tomás. Ele vai partir de um exemplo, o que sempre torna tudo mais fácil. Ele nos propõe analisar a frase “só o Pai é Deus”, na qual a palavra “só” (partícula excludente) está atribuída a uma das pessoas divinas quanto a um atributo comum, a divindade. É uma proposição que atende, portanto, às condições do debate que foi proposto.
Esta proposição “só o Pai é Deus”, diz São Tomás, pode ser compreendida de muitas maneiras:
1. O Pai é Deus sozinho. Neste caso, diz São Tomás, a proposição é falsa. Não se pode afirmar uma divindade solitária do Pai; neste caso, diz São Tomás, a palavra “só” tem valor categoremático, porque afirma a solidão do Pai, e a expressão não pode ser admitida.
2. Só o Pai é Deus pode ser compreendida no sentido de que o Pai, como suposto, é Deus sem necessitar do acréscimo do Filho e do Espírito Santo para sê-lo. Ou, nas palavras de São Tomás, trata-se de excluir da sua forma, quer dizer, da sua paternidade, qualquer outro sujeito. Compreendemos, aqui, portanto, que o Pai é Deus todo, em si e por si mesmo; ou, na reformulação de São Tomás: “é Deus aquele com quem nenhum outro é Pai”. Sim, porque o Filho não é o Pai, e o espírito não é o Pai, e o Pai é Deus plenamente. Nas palavras de Santo Agostinho, citadas aqui por São Tomás, “quando dizemos ‘o Pai só’, não queremos dizer que ele é separado do Filho ou do Espírito Santo, mas que estes não são Pai junto com ele’”. Assim, diz São Tomás, há um sentido no qual a proposição é verdadeira; é aquele sentido que pode ser reformulado assim: “aquele que sozinho é Pai, é Deus”. Ele reconhece, no entanto, que esta não é a forma corriqueira de entender esta proposição. Mas é a forma pela qual devemos compreendê-la, para que seja verdadeira.
Para fechar sua explicação, São Tomás faz uma distinção que é muito clara no latim, embora menos clara no português. Trata-se da distinção de três gêneros, o masculino, o feminino e o neutro, corrente no latim, inexistente no português. Em português temos apenas dois gêneros, de modo que sempre usamos um dos dois gêneros determinados para significar indeterminadamente. Dou um exemplo: se quero me referir aos estudantes de uma escola em que haja rapazes e garotas, uso o gênero masculino “os estudantes”. Mas se quero me referir a eles como sujeitos das suas próprias determinações, uso o gênero feminino: “as pessoas”. No latim, o gênero neutro serve exatamente para este uso indeterminado. Há uma tendência, hoje, entre os mais jovens, de reintroduzir este gênero neutro na língua portuguesa, usando o sinal de arroba (@) para a referência indeterminada a um grupo de homens e mulheres, e eles escrevem, por exemplo, “amig@s”, para referirem-se a um grupo indeterminado de amigos em que haja pessoas de ambos os sexos. Existe, aqui, uma confusão entre gramática e biologia que não debateremos agora, mas o certo é que excluir no gênero neutro, no latim, implica dizer que tratamos de duas coisas completamente diferentes, enquanto excluir no gênero masculino ou feminino implica distinguir, mas não necessariamente separar; se digo “este” ou “esta” para me referir a um rapaz e uma moça, não os retiro da humanidade comum, mas, distinguindo suas individualidades, reafirmo-a. Mas se digo “isto” ou “aquilo”, para diferenciar dois supostos, refiro-me a coisas que não são simplesmente distintas, mas realmente diferentes.
É isto que vai concluir o raciocínio de São Tomás, agora: ele diz que a partícula exclusiva (só) impede algum outro de unir-se ao mesmo predicado. Se ela está sendo usada no sentido determinado (no sentido de “só este”), então ela gera uma proposição falsa. Se compreendermos a proposição “só o Pai é Deus” no sentido de que “só este, o Pai, é Deus”, então excluímos o Filho e o espírito da divindade, e isto não pode ser. Mas se ela está sendo usada no sentido indeterminado (no sentido de “só isto”) então ela é verdadeira, porque ela exclui da divindade somente as outras coisas, aquilo que é diferente do Pai, e não simplesmente aquilo que dele é distinto, como o Filho e o Espírito Santo. Porque eles também são “isto”, isto é, Divinos essencialmente junto com o Pai, o que mais nada pode ser senão apenas eles três. Mas eles não são “este”, quer dizer, não são o Pai.
Para entender melhor, vamos ao exemplo: se vejo uma moça estudando, em frente a um grupo de pessoas que estão tagarelando, e afirmo “só esta estuda”, uso a expressão de modo determinado, e excluo da ação de estudar todos os tagarelas. Mas se a vejo aquela moça estudando, ao lado do seu cão e do seu gato, e afirmo: “só isto estuda”, quero dizer que só os humanos podem estudar, mas os gatos e cães não. Não excluo, portanto, os outros humanos. É neste sentido, penso, (adaptando a gramática latina para o nosso uso coloquial do português), que devemos entender a proposição “só o Pai é Deus”; como “isto”, e não como “este”.
Agora São Tomás passa a responder às objeções iniciais.
A primeira objeção cita João 17, 3, em que Jesus, o Filho, se dirige ao Pai chamando-o de “único (solum) Deus verdadeiro”, para afirmar que este uso da partícula “só” é incondicionalmente apropriado. São Tomás responde que, neste uso, Jesus atribui o “só” à Trindade, que é o único Deus verdadeiro, citando, em seu favor, Santo Agostinho. Mas complementa dizendo que, ainda que se entenda da pessoa do Pai, ele não está excluindo aí as outras Pessoas da Trindade, que são Deus com o Pai (ver a discussão, acima, sobre “estes” e “isto”), mas apenas as outras coisas, que não o são.
A segunda objeção faz uma outra citação bíblica (Mt 11, 27) em que Jesus afirma que “ninguém conhece o Filho senão só o Pai”; o argumento diz que “conhecer-se” é um atributo comum da Trindade, mas que o “só” é usado pelas Escrituras para fazer referência a uma só Pessoa Divina, demonstrando, diz o argumento, que este uso é incondicionalmente adequado.
São Tomás dá mais uma aula de exegese, aqui. Ele nos ensina que Jesus não exclui do conhecimento recíproco do Pai e do Filho, aqui, a pessoa do Espírito Santo, que compartilha com eles a mesma essência. Ele exclui as demais naturezas racionais, que não participam da divindade, como os anjos e os seres humanos. De fato, diz São Tomás, é preciso entender direitinho o que a palavra “ninguém” significa, nesta passagem. Se ela significasse simplesmente “nenhum ser humano”, não seria necessário fazer uma exceção, como Jesus faz aqui, para a pessoa do Pai, porque o Pai não é um ser humano. É claro, portanto, da própria exceção que Jesus faz, que a palavra “ninguém”, aqui, aplica-se às criaturas racionais, não ao próprio Deus, e portanto não exclui, na Trindade, as outras pessoas.
A terceira objeção faz um resgate do raciocínio lógico quanto à aplicação de um atributo do sujeito à parte do sujeito (só Sócrates é branco, logo sua mão é branca), ou ao universal (só Sócrates é branco, logo há homens brancos) para defender que se pode usar incondicionalmente a palavra “só” a uma das pessoas divinas, quanto aos seus atributos comuns.
Mas, embora a argumentação seja tentadora, São Tomás não perderá a oportunidade de demonstrar que ela não se aplica a Deus. A relação entre as pessoas da Trindade não é uma relação entre o todo e a parte (como no caso de Sócrates e a mão), nem entre o indivíduo e seu conceito, como entre Sócrates e a humanidade. Assim, este argumento não guarda analogia com a discussão que estamos fazendo, diz São Tomás, e não pode ser aplicado à Trindade. Isto é uma correção necessária, e que impede visões errôneas, por analogias falsas, da economia trinitária.
Por fim, o argumento litúrgico: cita-se a oração do Glória, em que rezamos: “só vós o Altíssimo, Jesus Cristo”, como um argumento para o uso indiscriminado da palavra “só”. São Tomás responde que a oração do Glória foi mal citada, aqui; ela prossegue, dizendo: “Com o Espírito Santo, na glória de Deus Pai”. E, portanto, não pode ter uma frase solta pinçada para servir de argumento aqui.
Portanto, lembremos da advertência de São Tomás: cada vez que encontrarmos alguma proposição deste tipo (que usa a palavra “só” para referir-se a um atributo comum predicado a uma das pessoas), seja nos textos teológicos ou patrísticos autênticos, seja no Magistério da Igreja, ou mesmo em alguma oração ou texto litúrgico, devemos sempre dar-lhe uma interpretação conforme a fé, de maneira adequadamente respeitosa e piedosa.
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