São Tomás propõe aqui a seguinte discussão: podemos usar a “expressão exclusiva” com referência a um “predicado comum” para nos referirmos a um “termo pessoal”?  Este é um daqueles artigos cujo enunciado mesmo já precisa de tradução. O que São Tomás quer dizer quando ele menciona “expressão exclusiva”? O que ele quer dizer com “predicado comum”? O que ele quer dizer “referir-se ao termo pessoal”? Traduzir São Tomás, quando em estou conversando com ele, pode implicar uma simplificação muitas vezes brutal do que ele está debatendo, mas para mim é a maneira que tenho para continuar no debate.

O que ele está dizendo com “expressão” ou “locução exclusiva” é simplesmente o uso da palavra “só”. De fato, esta é uma palavra muito importante para a fé, já que professamos a fé num Deus único – somos monoteístas. Mas este mesmo Deus não é solitário – somos trinitarianos.

Ou seja: podemos usar a palavra “só” quando falarmos dos atributos de Deus (bom, poderoso, etc) relacionando-os a cada uma das Pessoas da Trindade?

No debate gramatical moderno, a palavra “só” é de uma categoria curiosa: ela pode comportar-se como adjetivo ou como advérbio, porque ela pode significar “solitário” ou “sozinho” (caso em que é um adjetivo, porque tem um valor categoremático, como São Tomás nos ensinou no artigo anterior), ou pode significar “somente” ou “apenas”, caso em que é um advérbio, já que modifica o valor de outra palavra ou mesmo de uma locução ou oração. Neste caso, ela tem um valor sincategoremático, ensinou-nos São Tomás. E é com este valor, de advérbio, que podemos aplicá-la a Deus, quanto à sua essência, sem temor – observadas as cautelas ensinadas ali por São Tomás.

Já intuíamos ali, no entanto, que o uso de “só” para referir-se às pessoas divinas não seria simples. Se podemos muito facilmente intuir o uso de “somente” e “apenas” para referir-nos àquilo que, em cada pessoa, refere-se a ela (somente o Pai gera, somente o Filho é gerado, somente o Espírito é espirado), isto não é tão simples quando nos referimos, quanto às pessoas divinas, aos atributos que são comuns.

De fato, se cada Pessoa é Deus todo, (e, portanto, o que falamos da essência divina atribuímos igualmente a cada Pessoa), e se podemos usar a expressão “só” como sincategoremática para a essência e seus atributos, então como poderíamos aplicar a expressão “só” a cada pessoa, quando estivermos tratando dos atributos comuns de Deus, como “bom”, “eterno” ou “criador”? Este é o debate proposto.

É um debate importante, porque, algumas vezes, vemos, na Liturgia, ou em obras piedosas, ou mesmo nos escritos de santos ou de Padres da Igreja, alguém fazendo este uso, para dizer que Jesus é o único Deus, ou que só o Pai é bom. Como devemos entender estas afirmações?

De fato, para provocar o debate, São Tomás propõe a seguinte hipótese controvertida inicial: parece que podemos usar a palavra “só” quando nos referimos às Pessoas divinas, e predicamos delas os atributos comuns de Deus. E ele propõe quatro argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento é retirado do próprio texto bíblico. Trata-se de João 17, 3, em que Jesus se refere ao Pai dizendo: “que conheçam a ti, o Deus único e Verdadeiro”. Ora, “único” aqui tem o sentido de “somente”, ou seja, trata-se de Jesus, o Filho, tratando o Pai como “Deus só”. Então, o argumento conclui que podemos aplicar a expressão “só” a uma pessoa, mesmo quanto a um atributo comum, como é a própria divindade.

O segundo argumento também é um versículo do Evangelho, desta feita de Mateus: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai”. Ora, diz o argumento, é muito claro que conhecer-se, em Deus, é um atributo comum, porque Deus conhece-se todo e plenamente de modo essencial. Mas se as Escrituras podem afirmar que “somente o Pai conhece o Filho”, atribui a uma das pessoas a locução exclusiva relativamente a um atributo comum. Daí o argumento conclui que este uso é adequado.

O terceiro argumento objetor afirma que o uso de uma locução exclusiva (“só”) não exclui aquilo que pertence ao próprio conceito do sujeito da respectiva oração, ou seja, daquilo a que está conceitualmente unido. Se disséssemos “Sócrates é branco”, por exemplo, diz o argumento, eu não poderia construir validamente o seguinte raciocínio:

– Somente Sócrates é branco.

– A mão de Sócrates não é Sócrates.

– Logo, a mão de Sócrates não é branca.

Ou ainda, segundo o argumento, não seria válido argumentar assim:

– Somente Sócrates é branco.

– O ser humano não é Sócrates.

– Logo, o ser humano não é branco.

Se a mão de Sócrates é Sócrates, ela não está excluída da brancura quando se afirma que “somente Sócrates é branco”. Do mesmo modo, diz o argumento, se o próprio universal “ser humano” realiza-se em Sócrates, ele não está excluído da brancura de Sócrates, portanto.

Assim, diz o argumento, uma vez que o Filho participa da noção do pai (são noções relativas, e portanto implicam-se reciprocamente), não haveria problema, pela mesma razão lógica, em utilizar a locução exclusiva “só” a uma das pessoas, relativamente ao atributo comum, como não há problema em utilizá-lo para Sócrates sem excluir sua mão. Se eu disser, segue o argumento, que somente o Pai é Deus, e se eu admito que tanto o Filho como o Espírito Santo estão, por suas próprias noções, compreendidas na pessoa do pai, então, conclui, é válido usar a expressão exclusiva para apenas uma das pessoas, quanto aos atributos comuns.

O quarto argumento diz que a própria Liturgia da Igreja faz este uso, quando canta no Hino do Glória, na celebração eucarística: “Só vós sois o altíssimo, Jesus Cristo”. Assim, este seria um uso adequado, atestado, diz o argumento, pela própria Tradição da Igreja.

O argumento sed contra toma o enunciado “só o Pai é Deus” e passa a analisá-lo. E afirma que ele pode ser analisado subdividindo-o em dois enunciados que explicitam seu sentido real. Ao afirmar “só o Pai é Deus” afirmo o seguinte:

1. O Pai é Deus.

2. Ninguém senão o Pai é Deus.

Mas este último enunciado, diz o argumento, é evidentemente falso, porque o Filho e o Espírito Santo são Deus com o Pai. Assim, diz o argumento, o enunciado “só o Pai é Deus” é falsa.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.