Eis uma questão que envolve e pressupõe algum conhecimento da lógica e da gramática tal como São Tomás as conheceu, e por isto nos parece áspera e difícil de enfrentar. No entanto, ela trata de algo que é importantíssimo na nossa fé: o monoteísmo trinitário e o sentido com que usamos a palavra “só” (solus) com relação a Deus. (É preciso compreender adequadamente o sentido de “solus“, como “só” no sentido de exclusivo, próprio, único). Como podemos imaginar que Deus seja só (solus), quando multiplicam-se nele as relações e a proximidade pela santificação das criaturas, compreendida como o estabelecimento de amizade eterna com o próprio Deus? Por outro lado, como poderíamos continuar nos afirmando monoteístas e acreditando numa transcendência tão, digamos, animada e povoada? É isto que está em debate agora.

A hipótese controvertida que São Tomás propõe agora como provocação diz exatamente que a palavra “solus“, uma vez que representa uma ideia de exclusividade, de isolamento, não poderia ser aplicada a Deus, quanto à sua essência mesma. Ou seja, jamais poderíamos afirmar que Deus é essencialmente só. E ele coleciona três argumentos objetores em defesa desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento cita Aristóteles (ou simplesmente “o Filósofo“, como São Tomás o chama), que afirma: “só é quem não está com outro“. Mas Deus tem, ao redor de si, os santos Anjos e a Igreja Triunfante. Então não poderíamos dizer que Deus é essencialmente solus.

No segundo argumento, o pressuposto é que tudo aquilo que afirmamos da essência divina, deveríamos poder afirmar de qualquer uma das pessoas divinas, já que cada uma delas é simultaneamente e por essência Deus todo. Assim, se dizemos que Deus é essencialmente bom ou essencialmente sábio, podemos tanto dizer que o Pai é essencialmente bom e sábio, ou mesmo que a Trindade é essencialmente boa e sábia. Mas será que poderíamos dizer que, se Deus é essencialmente só (solus), o Pai é essencialmente solus? Neste ponto, o argumento cita Santo Agostinho, que diz: “devemos examinar a sentença que afirma que o Pai não é verdadeiro Deus solum“. Assim, o argumento conclui que não se pode dizer que Deus não é essencialmente só.

O terceiro argumento afirma que quando unimos a palavra “solus” à essência divina, ela pode representar um predicado pessoal ou um predicado essencial. Mas, diz o argumento, não pode ser um predicado pessoal, porque se alguém disser “só Deus é Pai” estará falando uma falsidade: existem pais que não são Deus, como os pais humanos. Por outro lado, se for um predicado essencial, também seria falsa, porque o que se diz da essência divina deve poder ser dito das Pessoas; mas se disséssemos “só Deus é criador” não poderíamos dizer “só o Pai é criador”, porque o Filho também cria. Assim, o argumento conclui que não se pode aplicar a palavra “solus” a Deus.

O argumento sed contra cita as Escrituras (1 Tm 1, 17): “Ao Rei dos séculos, Deus único, invisível e imortal, honra e glória pelos séculos dos séculos! Amém.”

Para compreender adequadamente a resposta sintetizadora de São Tomás, iniciemos entendendo bem o que são, na lógica escolástica, os termos chamados de categoremáticos ou sincategoremáticos. Termos sincategoremáticos são aqueles elementos linguísticos que não têm significado próprio, ou seja, os que só adquirem significado quando associados a um termo categoremático. São as conjunções, disjunções, preposições, quantificadores, etc. Os categoremáticos, por sua vez, têm significado próprio, e podem ser substantivos, adjetivos, etc. Mas estamos nos adiantando com relação a São Tomás.

Ele começa dizendo que a palavra “só” pode ser usada de modo categoremático ou sincategoremático. E explica que os termos categoremáticos atribuem uma realidade a um sujeito de modo absoluto. Assim, se digo que Fulano é branco, o termo “branco” aqui é categoremático. Portanto, não podemos aplicar a Deus, essencialmente, a palavra “só” no sentido categoremático, porque Deus não é isolado, solitário e sozinho no sentido de único existente de modo absoluto.

Há, porém, os termos sincategoremáticos, que apenas estabelecem uma relação entre o sujeito e o predicado, sem terem, em si mesmos, valor absoluto. É o caso das palavras “todo” e “nenhum”. Também é o caso de “só”, neste uso que agora discutimos.

De fato, quando predico algum atributo a alguém, acompanhado de “só”, excluo, diz São Tomás, qualquer outro “suposto” (pensemos em “suposto” como sinônimo de “sujeito“) da união com o predicado. Assim, se digo que Sócrates escreve só, isto não significa que ele seja um solitário que escreve; significa, na verdade, que ele é, sozinho, o sujeito do ato de escrever, e mais ninguém. Ele é, propriamente, o sujeito isolado da atividade de escrever. Mesmo que ele esteja num enorme salão com milhares de outras pessoas.

É assim, diz São Tomás, que posso predicar a palavra “só” de Deus, essencialmente. Quando digo, por exemplo, que só Deus é bom, quero dizer que Deus é o sujeito exclusivo da bondade, ela lhe pertence propriamente. Nego, ademais, que pudesse haver alguma “ideia de bondade” para além de Deus, com a qual compará-lo para julgá-lo bom; nego que ele dependa de qualquer outra coisa ou condição para ser bom. Ele é bom de uma bondade originária, fundante, autônoma e independentemente de qualquer outro ser ou condição. Isto não significa que algo além de Deus não possa ser bom; mas será bom somente num sentido analógico, derivado, participado, referente a Deus. Ninguém “só” é bom, a não ser Deus. Ou, como no exemplo que o próprio São Tomás nos dá: dizer que “só Deus é eterno” significa que nada mais pode ser eterno sem referir-se, sem depender inteiramente da eternidade divina. Esta, porém, em Deus, confunde-se com sua essência mesma e existe ali originariamente.

São Tomás passa a responder às objeções iniciais. A primeira objeção cita Aristóteles (que define “só” como “aquele que não está com outro“) e diz que, una vez que os Santos Anjos e os bem-aventurados estão com Deus, não se pode dizer que ele é só.

Isto, quanto aos fatos, é verdade. O reino do céu é sempre descrito por Jesus como um grande banquete, e num banquete há sempre muitos reunidos na alegria. Mas não é neste uso da palavra “só” que estamos tratando. Por dois motivos. O primeiro tem a ver com a própria natureza da solidão. São Tomás diz que estar associado a seres de natureza diversa não exclui a solidão. De fato, diz São Tomás, posso estar sozinho num belo jardim com plantas e animaizinhos, mas eles não são capazes de me tirar da solidão. Assim, não é pela companhia dos Santos e dos Anjos que Deus não está só. Ele não está só, nem essencialmente, nem quanto a nenhum dos seus atributos, porque é trinitário. E, acrescentaríamos, é por não ser solitário que Deus é amor, é por não ser solitário que ele cria e principalmente (para nós) é por não ser solitário que ele nos salva.

Da resposta de São Tomás podemos ver a importância da santificação dos anjos e dos santos, como “participação na natureza divina” que nos é concedida sem qualquer direito ou mérito de nossa parte, mas por puro amor de Deus, que, por essência, não é e nem quer ser solitário.

A segunda objeção diz que tudo o que se diz de Deus essencialmente deve poder ser dito de cada pessoa. Portanto, se disséssemos de Deus que só ele é Deus, isto seria inadequado, porque teríamos que dizer que “só o Pai é Deus“, e o mesmo para as outras pessoas divinas.

São Tomás diz que há aqui um erro linguístico a ser corrigido; é a diferença entre afirmar, por exemplo, que “Sócrates corre sozinho”, caso em que não há ninguém com ele, ou afirmar que “Sócrates só corre”, significando que ele não está fazendo outra coisa além de correr.

Assim, eu posso dizer perfeitamente que “só Deus é Deus”, e posso aplicar isto às pessoas, desde que tenha atenção com meu jeito de elaborar a sentença. Se eu digo que só o Pai é Deus (ou só o Filho ou só o Espírito), estou elaborando erroneamente a sentença, e expressando uma falsidade. Mas se digo que o Pai é Deus que é o único Deus (solus Deus), ou o Filho ou o Espírito, ou mesmo se digo que a Trindade é Deus que é Deus só, falo a verdade, e falo adequadamente. O Pai não pode ser dito “Deus” naquele sentido da frase “Sócrates corre sozinho”, mas pode ser dito Deus naquele outro sentido da frase “Sócrates só corre”. É assim, portanto – e com todos os cuidados devidos quando falamos analogicamente, que devemos entender a afirmação de Santo Agostinho trazida pelo argumento objetor.

O terceiro e último argumento objetor parte da ideia de que, ao predicar “só” (solus) de Deus, ou faço 1) uma predicação essencial, ou 2) uma predicação pessoal. Nos dois casos, diz o argumento, haveria inconveniência, porque, se predico “só” como pessoal, eu teria que afirmar, por exemplo, que “só Deus é pai”, o que não é verdade, porque há criaturas que são pais. Por outro lado, se predico “só” essencialmente, também posso construir uma afirmação falsa, porque tudo o que digo da essência divina devo dizer das pessoas. Assim, se eu afirmasse “só Deus cria” eu teria que afirmar “só o pai cria”, o que é falso, porque também o Filho e o Espírito Santo participam da criação.

São Tomás responderá que de qualquer das duas maneiras se pode predicar “só” a Deus, observadas, é claro, as restrições que ele colocou ao longo de todo o artigo. Por exemplo, diz Tomás, a proposição “Só Deus é Pai” é verdadeira no sentido de que o Pai, pessoa divina, não é uma criatura, mas Deus mesmo. Se ela afirmasse que a relação de paternidade existe somente em Deus, seria falsa se fosse compreendida como negando qualquer analogia entre a paternidade criatural e a paternidade divina, mas seria verdadeira se negasse a univocidade entre estas relações. De fato, há a relação de paternidade entre as criaturas, mas não é unívoca à relação de paternidade em Deus – é apenas análoga. Com estes cuidados, portanto, a predicação pode ser feita, mesmo se compreendida de modo pessoal.

Quanto à atribuição essencial, São Tomás nos dará uma solução que parece contradizer aquela já dada na resposta à questão 2, na qual ele afirma que de fato se pode predicar de cada pessoa o que se predica da essência, inclusive a palavra “só”, desde que se tenha o cuidado de fazê-lo analiticamente (“Deus é único”, o Pai é “Deus que é o único Deus”). Aqui ele faz uma restrição estritamente lógica: se digo “só Deus cria”, estou declarando exclusividade da posição de “criador” para Deus. Mas não posso tirar, como consequência, esta mesma exclusividade para nenhum sujeito (suposto) divino. E ele dá o exemplo: se eu disser que “ser um animal racional mortal” é exclusivo dos seres humanos, não posso concluir que esta condição é exclusiva de um sujeito humano qualquer, porque isto seria uma falácia. Assim, os atributos essenciais que são predicados com exclusividade a Deus podem ser predicados de cada pessoa (suposto) com o cuidado de que, quando predicados das pessoas, não o são com exclusividade. É uma abordagem lógica complementar à abordagem teológica da resposta anterior.

E, como lição, descobrimos que Deus sozinho é fonte, é fundamento, mas não é solidão. Nem egoísmo.