Só quem tem uma profunda relação de amor com alguém sabe como é difícil considerar a pessoa amada como um “outro“. A unidade é própria do amor. Aquilo que dói no amado dói em quem ama, e aquilo que o alegra, alegra também o que ama. Mas, por outro lado, a alteridade é necessária para que se estabeleça uma relação verdadeira, já que a relação de alguém consigo mesmo é uma mera relação de razão. Não saber enxergar a alteridade é não saber amar. Mas absolutizar a alteridade é contraditório – o absoluto é o antônimo de relação. Tudo o que é relacional, por definição, é relativo.
É exatamente para debater esta dialética da alteridade no relativo do amor que São Tomás propõe agora uma hipótese controvertida inicial de que o Filho não é “outro” relativamente ao Pai.
São quatro os argumentos objetores colecionados inicialmente.
O primeiro argumento afirma que a própria noção de “outro” implica uma diversidade substancial. Assim, se afirmássemos que o Filho é outro com relação ao Pai estaríamos dizendo que eles são substancialmente diversos, diz o argumento. E cita Santo Agostinho, no trecho em que afirma que “dizer que as Pessoas são três não implica admitir diversidade entre elas“. Assim, o argumento conclui que o Filho não é “outro” com relação ao Pai.
O segundo argumento objetor vai na mesma linha. Ele afirma que todos os seres que são “outros” entre si são diferentes entre si de alguma maneira. Por isto, prossegue o argumento, se o Filho for “outro” com relação ao Pai, então ele é um ser diferente do pai. Segundo o argumento, isto contraria os ensinamentos de Santo Ambrósio, que afirmou: “o Pai e o Filho são unos pela divindade… não há entre eles diferença de substância ou qualquer outra diversidade”.
O terceiro argumento parte da ideia de que a noção de “outro” (alius) faz surgir a ideia de “alheio” (alienum, em latim), que implica a ideia de estranheza, alienação, falta de correspondência. Mas, segue o argumento, o Filho não pode ser chamado de “alheio” ao Pai; o argumento cita aqui Santo Hilário, afirmando que “nas pessoas divinas nada é diverso, nada é alheio (alienum), nada é separável”. Disto o argumento conclui que o Filho não pode ser considerado “outro” com relação ao Pai.
O quarto argumento objetor parte da existência, na língua latina, das palavras “alius” (que significa “um outro”) e “aliud” (que significa “outra coisa”). E diz que ambos os termos são sinônimos – diferem apenas no gênero, que no latim divide-se em “masculino”, “feminino” e “neutro”. Assim, dizer que o Filho é outro (alius), diz o argumento, é afirmar que ele é “outra coisa” que não o pai, ou seja, significa afirmar que a sua existência mesma é outra com relação ao pai. E isto, segundo o argumento, é impossível. Assim, diz o argumento, não se pode dizer que o Filho é outro, com relação ao Pai.
O argumento sed contra cita Agostinho, que diz: “Una é a essência do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Em tal essência, não é que o Pai seja uma coisa, o Filho seja outra coisa e outra ainda o Espírito Santo; mas a personalidade do Pai é outra com relação à personalidade do Filho e a do Espírito Santo”.
São Tomás passa a oferecer a sua resposta sintetizadora. E começa como que se justificando: a discussão aqui em tela é importante, apesar de parecer uma mera discussão de palavras. É que exatamente o uso equivocado das palavras leva ao erro teológico é à heresia, diz São Jerônimo, citado aqui por Tomás. E São Jerônimo é, de fato, uma boa autoridade para ser citado aqui, porque é o tradutor da Bíblia para o latim, e, portanto, sabe do necessário cuidado com as palavras. Ele cita ainda Santo Agostinho, estudioso profundo da Trindade e da linguagem teológica que se refere a ela, e que adverte que os erros sobre a Trindade são os erros mais perigosos, o estudo da Trindade é o mais trabalhoso, mas a descoberta é a mais frutuosa.” E, a partir de guias tão autorizados, São Tomás passa a lembrar as duas balizas que o guiam, e que devem nos guiar sempre, porque são os erros extremos sobre a Trindade, que devemos evitar; 1) O erro de Ário, que afirmou que, na Trindade, há três pessoas que são três substâncias diferentes, e 2) O erro de Sabélio, para quem, havendo apenas uma substância em Deus, haveria apenas uma pessoa, que se manifestaria de três modos diferentes. São Tomás quer, portanto, manter-nos longe de ambos os extremos, pelo cuidado com a linguagem.
Para não cair no erro de Ário, de imaginar que o Filho e o Espírito Santo sejam substancialmente diferentes do Pai, devemos evitar, diz São Tomás, o uso das palavras “diversidade” e “diferença”, para nos referirmos às pessoas da Trindade quanto à sua relação entre si. A palavra preferida deve ser sempre “distinção”. É certo que (muito mais hoje em dia do que no tempo de São Tomás) imaginar uma distinção sem diferença é algo muito difícil; temos que voltar a conceber o Pai, o Filho e o Espírito Santo como inteiramente relacionais; não há nada na pessoa do Filho que não seja sua relação com a pessoa do Pai, não há nada na pessoa do Espírito Santo que não seja sua espiração do amor paterno-filial. Tudo o que há neles de absoluto é um só e o mesmo Deus.
É certo, diz São Tomás, que encontraremos muitas vezes as palavras “diversidade” e “diferença” aplicadas às pessoas divinas em textos ortodoxos, até mesmo escritos em santidade por homens santos. Nestes casos, devemos entender que houve um uso impreciso, não técnico, destas palavras, e devemos lê-las como expressando apenas a distinção, jamais a diferença ou a diversidade entre as pessoas.
Para evitar erros como o ariano, prossegue São Tomás, deveríamos evitar ainda o uso de palavras como “separação” e “divisão”, que ferem a simplicidade de Deus e dão uma ideia de que as pessoas relacionar-se-iam entre si como o todo se relaciona com as partes (o que é falso, porque cada pessoa é Deus todo), o a palavra “disparidade”, que dá ideia de que as pessoas não seriam iguais entre si. Por fim, São Tomás nos adverte quanto às palavras “estranho” e “divergente”, que também são inaplicáveis à Trindade. Segundo Ambrósio, citado aqui por Tomás, a divindade das pessoas trinitárias é “una e sem divergência [discrepans]”, e segundo Santo Hilário, “nada há de estranho [alienum] ou separável em Deus”.
Quanto a evitar o sabelianismo, diz São Tomás, há igualmente alguns termos que devemos evitar para falar de Deus. Um deles é “singularidade”, que nega a incomunicabilidade das pessoas. Incomunicabilidade, como sabemos, é a propriedade de que um não pode ser jamais o outro, como o Filho não será jamais o Pai e vice-versa. Se falarmos de Deus como “singularidade”, diz Tomás, excluímos esta propriedade pessoal em favor de um modalismo: seremos entendidos como se afirmássemos que Deus, singular que é, pode apresentar-se às vezes como Pai, outras vezes como Filho, outras como espírito santo, sem deixar de ser singular. Isto é falso. Diz Santo Hilário, citado aqui por São Tomás: “é um sacrilégio afirmar que o Pai e o Filho são Deus singular”.
Outra palavra com a qual devemos ter cuidado é “unitário” [unici]; sem dúvida Deus é único, mas ele não é unitário. Dizer unitário, no sentido de restringir o número de pessoas, quanto a Deus Trindade, é inadequado, como mais uma vez ensina Santo Hilário, citado de novo por São Tomás: “De Deus se excluem as noções de singular e de unitário”.
(Neste ponto, São Tomás abre parêntesis para lembrar que de cada pessoa podemos dizer que é singular e unitário – não pode haver vários filhos em Deus, como não há vários pais nem vários espíritos. Cada pessoa divina é singular e unitária, na sua divindade plena. Mas não devemos falar em “Deus unitário” porque a divindade está integralmente e de modo comum em cada um das Pessoas divinas).
Por fim, São Tomás nos adverte quanto à palavra “confusi”(no sentido, diríamos hoje, de “misturado” ou “confundido”), porque isto negaria uma ordem, uma clareza na distinção entre as pessoas. A unidade não é uma mistura, e o que não é diferenciado não pode ser múltiplo (Neque confusum est quod unum est, neque multiplex esse potest quod indifferens est), diz Santo Ambrósio, que São Tomás cita aqui.
Por fim, São Tomás nos adverte quanto a dizer que Deus é solitário. Isto é tudo que a Trindade, sendo um eterno jogo de amor, nunca pode ser. A solidão pressupõe um ser ensimesmado que é impensável, para Deus. Mas não há, nele, nenhuma dispersão: cada um está perfeitamente atento ao outro, cada um é pelo outro e nada mais. “Constatemos sempre que Deus não é solitário, nem diverso” (disperso), diz Santo Hilário, que São Tomás não se cansa de citar.
A alteridade, que afirmamos em Deus, diz São Tomás, é uma distinção de suposto; quer dizer, trata-se de partir da relação subsistente como base para a personalidade distinta das pessoas em Deus. É como relacionados, e nada mais do que relacionados, que eles são “outros” entre si, porque cada um é sua própria personalidade sem deixar de ser um só e mesmo Deus. É a perfeição do amor pessoal.
Isto tudo posto, São Tomás passará a responder às objeções iniciais.
O primeiro argumento objetor começa afirmando que “outro” é uma palavra que implica diversidade substancial, pelo que seria inaplicável a Deus. São Tomás responde que a palavra “outro” implica de fato particularização – que, no caso da hipóstase ou pessoa divina, relaciona-se com a individualização decorrente das relações subsistentes. Mas de fato não se pode usá-la no sentido de diversidade substancial, porque, neste caso, estaríamos falando de coisas diferentes, ou seja, de coisas que se diversificam pela essência, o que não é o caso da Trindade. Assim, diz São Tomás, o Filho é outro, mas não é diverso do Pai.
A segunda objeção diz que ser “outro” significa ser diferente, e cita Santo Ambrósio para provar que a noção de “diferente”, por implicar distinção em razão da forma, é inaplicável a Deus. São Tomás concorda; em Deus há apenas uma forma, simples, absoluta e indivisível – e ele cita, em reforço a este argumento, Fl 2, 6a, que diz, sobre Jesus: “embora existindo em forma divina…”. É por isto que não se pode predicar “diferença” das distinções internas entre as Pessoas Divinas. Mas Tomás registra que esta terminologia não é homogênea, como já havia advertido na sua resposta sintetizadora. O Damasceno, diz São Tomás, ensina que as pessoas divinas, constituindo-se pelas relações, distinguem-se em razão de uma propriedade formal (a relação), e portanto haveria, aqui, uma diferença na forma. Mas São Tomás conclui lembrando que, embora o damasceno use impropriamente a palavra “diferença”, devemos entendê-la de modo próprio, como distinção apenas, e não como diferença em sentido estrito.
O terceiro diz que “alheio” e “outro” são sinônimos, e que, portanto, não se pode dizer que o Filho é “outro” porque ele não é alheio ao Pai. São Tomás diz que “alheio”, no sentido de “estranho” e “dessemelhante”, não é sinônimo de “outro”. A alteridade é pressuposto da relação, mas não implica estranheza nem dessemelhança, mas integração de amor. Assim, o Filho, em relação ao Pai, é “outro”, mas não é “alheio”.
Por fim, o último argumento quer dizer que dizer “outro” e dizer “outra coisa” é o mesmo, mudando só o gênero das expressões, e que, uma vez que “outra coisa” pressupõe uma determinação de alteridade essencial, ambas as noções seriam, portanto, inaplicáveis a Deus.
São Tomás dá uma resposta que faz sentido em latim (no qual, como no alemão moderno, existem três gêneros gramaticais, o masculino, o feminino e o neutro), mas talvez não faça muito sentido em português. Ele nos ensina que o gênero neutro indica o indefinido, e portanto faz referência à essência comum, enquanto os gêneros masculino e feminino indicam o que é concreto e distinto. Assim, diz São Tomás, a pergunta que se inicia com um “quem” sempre gera uma resposta individualizada, que aponta para o “suposto”. Se pergunto “quem é aquele”, a resposta pode ser: é Sócrates”. Por outro lado, a pergunta que se inicia por “o que” aponta para uma resposta de descrição essencial: “o que é Sócrates?”, resposta: é um animal racional. Assim, diz São Tomás, eu posso afirmar que o Filho é “outro”, porque ele tem uma individualidade pessoal com relação ao Pai e ao Espírito Santo. Mas jamais eu poderia dizer que ele é “um outro”, ou mesmo “outra coisa”, assim de modo indeterminado, porque isto me faria responder que ele tem outra essência, o que não é verdadeiro.
Trata-se de uma discussão bem ao gosto da escolástica, portanto, e que nos parece árida e desnecessária. Mas não é. É assim que se evitam os mal-entendidos, deixando bem claro o vocabulário que se aplica, tecnicamente, àquilo de que se fala. Eram discussões candentes ao tempo de Tomás. Mas o eram porque eles levavam a sério o que falavam – mormente sobre a fé. Porque a fé era levada a sério.
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