Como vimos no último texto, estão colocados os termos do debate: afinal, em que sentido a noção de Trindade se aplica a Deus? Vimos os cinco argumentos objetores e o argumento sed contra, retirado do Credo de Atanásio. Veremos agora a resposta sintetizadora de São Tomás. Breve e precisa.
São Tomás dirá, simplesmente, que a noção de Trindade, em Deus, significa um determinado número de pessoas. De fato, diz São Tomás, se constatamos uma pluralidade de pessoas em Deus, essa pluralidade, como já vimos em debates anteriores, não se refere a um número indeterminado. O número de pessoas em Deus é determinado – são três, nem mais, nem menos. Assim, aquilo que a noção de “pluralidade” significa indeterminadamente (há várias pessoas em Deus) a noção de Trindade significa determinadamente (há três pessoas em Deus).
Dada esta resposta, São Tomás passa a enfrentar, uma por uma, as objeções iniciais. O primeiro argumento objetor afirmava que toda vez que atribuímos uma noção a Deus, referimo-nos à sua substância ou às relações reais nele. Mas, diz o argumento, como “Trindade” não é uma noção substancial ou relacional, não deveria ser aplicada a Deus.
São Tomás dar-nos-á uma verdadeira lição sobre Trindade; ele nos ensina que “Trindade” significaria, etimologicamente, a “essência única de três pessoas“, e portanto, a partir de sua etimologia, parece referir-se antes à essência do que às próprias pessoas. No entanto, o sentido etimológico não é o mais perfeito. O sentido próprio deste termo é referir-se diretamente às três pessoas que compartilham uma única e mesma essência – portanto, no nosso uso mais próprio, refere-se antes às pessoas que à essência. Assim, não se poderia nunca dizer que o Pai é “Trindade”. O Pai não é “três pessoas”. Nem sequer seria próprio dizer que, neste caso, estaríamos nos referindo às relações trinas em cada uma das pessoas, porque a noção de “Trindade” não exprime as próprias relações das pessoas, mas o número de pessoas relacionadas entre si. O termo “Trindade” não exprime, em si mesmo, uma noção relacional. Antes, exprime o número de pessoas relacionadas. É neste sentido que a noção é perfeita para aplicar-se a Deus.
o segundo argumento parte da ideia de que a noção de Trindade implica coletividade; neste sentido, sendo um conjunto, aquilo que unifica os elementos é menos importante do que o que os diversifica. Assim, seria uma noção inconveniente para Deus, já que em Deus aquilo que unifica é muito mais importante, em se tratando de Deus, do que o que diversifica.
São Tomás dá mais uma aula, desta vez de teoria dos conjuntos; explica que o nome coletivo envolve duas coisas: a pluralidade dos supostos (“suposto” é o nome técnico da escolástica para o ente individual efetivamente existente. Diríamos: a pluralidade de elementos do conjunto) e o critério que os unifica, que estabelece entre os elementos do conjunto uma ordem determinada. Assim, por exemplo, “povo” é o conjunto de seres humanos sujeitos ao mesmo Estado.
Quanto, portanto, ao primeiro aspecto, a noção de Trindade identifica-se com os nomes coletivos – ele também designa uma pluralidade de supostos. Mas quanto ao segundo aspecto, ele difere: na Trindade não há apenas um mero critério lógico de unificação que estabelece uma ordem entre os elementos; existe, isto sim, uma realidade unificadora, a plena unidade de essência.
O terceiro argumento afirma que Trindade é triplicidade; mas a triplicidade existe quando se reúnem três coisas diferentes, e, portanto, fica pressuposta aí uma desigualdade que não existe em Deus.
São Tomás esclarece que Trindade não é sinônimo de triplicidade. Trindade tem a sua noção atrelada, como vimos na questão anterior, ao uno e ao múltiplo como transcendentais do ser, e portanto significa o número de pessoas, isto é, de autonomias relacionais na unidade divina, sem estabelecer nenhuma medida entre elas. A individualização das pessoas divinas não se dá pela substância, lembremos, mas pelas relações subsistentes.
Trindade não é uma noção matemática. Triplicidade é. Triplicidade significa a medida do conjunto de três desiguais que se relacionam por alguma proporção, diz São Tomás, citando Boécio. Trindade é um modo de ser, triplicidade é só uma quantidade, um conjunto. Então ele conclui que em Deus não há triplicidade, mas Trindade.
O quarto argumento parte do princípio de que Deus é sua essência; não há, como no caso das criaturas, uma natureza comum que se manifesta em diversas existências concretas – no caso dos seres humanos, por exemplo, a humanidade, como universal, manifesta-se em cada ser humano existente, mas nem o indivíduo humano esgota, em si, a humanidade, nem o fato de ele existir (ou não) pode alterar a própria natureza humana em si; além disso, o indivíduo humano expressa, na sua existência, a natureza humana, mas também a natureza animal, bem como a natureza corporal, e assim por diante. A essência de Deus é seu próprio e simples existir, e neste sentido podemos dizer que tudo o que existe em Deus existe essencialmente, e a essência divina esgota em si toda a divindade. A Divindade é Deus. Assim, prossegue o argumento, se Deus fosse trino, a Trindade teria que existir na própria essência de Deus. Isto, diz o argumento, teria como consequência levar-nos a declarar a existência de três essências em Deus, o que seria herético. Por isto, o argumento recusa a ideia de uma Trindade em Deus.
Mais uma vez São Tomás responde, com paciência, que o número trinitário significa a multiplicidade de pessoas, que compartilham a mesma essência única, multiplicando-se apenas nas relações. Analogicamente, poderíamos pensar na multiplicidade de pessoas humanas compartilhando a mesma e única natureza humana. A diferença é que as pessoas humanas se individuam pela matéria, enquanto as pessoas divinas se individuam pelas relações.
Em Deus, portanto, isto vai ainda mais longe; não se trata apenas de vários supostos compartilhando uma natureza comum, mas vários supostos compartilhando uma mesma e única essência. Assim, quando falamos de Trindade na unidade, diz São Tomás, o número aí envolvido refere-se às pessoas em sua autonomia existindo em uma e mesma essência. Inversamente, quando falamos de unidade na Trindade, referimo-nos à única e mesma natureza divina, que está inteira, única e indivisivelmente em cada um dos seus supostos pessoais. A Trindade, diríamos, é um conjunto trino de um.
O quinto argumento objetor afirma que, em o que podemos afirmar de Deus, o concreto é predicado do abstrato; é assim que dizemos que “a divindade é Deus”, ou que “a Paternidade é o Pai”. Mas se disséssemos que “a Trindade é trina” estaríamos afirmando nove realidades em Deus, e não apenas três.
São Tomás nos adverte que a expressão “a Trindade é trina”, envolvendo em si mesma a ideia de número, implica realmente a ideia de multiplicação de três por três. De fato, diz ele, a noção de Trindade implica a ideia de multiplicação de supostos daquele ser à qual ela é aplicada. Assim, se dizemos que Deus é trino, estamos dizendo que na sua essência única distinguimos três supostos pessoais. Mas se disséssemos que a Trindade é trina, diríamos que seriam três os supostos da Trindade, resultando em nove supostos, o que seria um absurdo. Logo, podemos concluir que a noção de Trindade não é uma noção abstrata no mesmo sentido de “divindade” ou “paternidade”; o mistério da pessoalidade, que opõe sem dividir, e que individualiza sem separar, dá a este termo um sentido todo especial.
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