O termo “trindade” (trinitas) foi forjado no calor dos primeiros debates teológicos da antiguidade, em especial por Tertuliano – escritor cristão que viveu entre o final do século II e o início do século III. Tratava-se – e trata-se ainda – de expressar aquilo que nos interpela como plúrimo na unidade, ou uno na pluralidade, e, portanto, ultrapassa a noção matemática humana. Como multiplicar o igual, como unificar o plural, era este o desafio então, e continua sendo agora. Deus que está nos céus, Deus que está conosco, Deus que é um de nós. Trata-se, no entanto, de uma noção teológica que não se encontra explicitamente chamada assim nem nas Escrituras nem na Tradição apostólica. Será ela essencial para descrever uma realidade de fé, ou será apenas maia uma daquelas palavras que os teólogos criam para tornar complicado o que deve ser simples?
O presente artigo, mostrando a abertura e a coragem de São Tomás em colocar em jogo mesmo mais precioso na fé, quer testar a pertinência desta noção, propondo, como hipótese controvertida inicial, que esta noção de trindade não é adequada: parece que não há trindade em Deus. E São Tomás vai trazer cinco argumentos objetores em favor desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento objetor afirma que todas as noções que podemos aplicar a Deus referem-se sempre e apenas à substância divina ou às relações reais em Deus. Mas a noção de “trindade” não é uma noção substancial, porque, se fosse, teria que ser aplicávela a cada uma das pessoas divinas; diríamos que o Pai é trindade, como dizemos que o Pai é Deus. Tampouco a noção de “trindade” aponta para uma relação, como a noção de “pai” aponta para um “filho”, por exemplo. Assim, o argumento conclui que a noção de Trindade não pode aplicar-se a Deus.
O segundo argumento parte da ideia de que a noção de Trindade remete à pluralidade; trata-se, portanto, de uma noção de coletividade. E o argumento prossegue, lembrando que, numa coletividade, aquilo que unifica os elementos é menos importante, enquanto aquilo que os diversifica é mais relevante. Ora, diz o argumento, em Deus aquilo que unifica é de máxima importância, e portanto a noção de Trindade, conclui, é inadequada para referir-se a Deus.
O terceiro argumento quer relacionar Trindade com triplicidade. Ora, diz o argumento, dizer “triplicidade” é falar de três coisas diferentes entre si; ou seja, é falar de coisas desiguais. Mas não há, nem pode haver, desigualdade em Deus. Logo, conclui o argumento, não se pode tampouco falar em Trindade, com relação a Deus.
O quarto argumento começa pela afirmação de que em Deus tudo é a sua essência. Se Deus é simples, pode-se dizer que tudo que ele é, ele é essencialmente. Então se disséssemos que ele é trino, diz o argumento, estaríamos afirmando que ele é três vezes a unidade da sua essência. Ou seja, diz o argumento, afirmar a Trindade seria afirmar três essências divinas unas, o que seria, segundo o argumento, uma afirmação contrária à reta fé. Portanto, conclui o argumento, a noção de Trindade é inaplicável a Deus.
Por fim, o quinto argumento objetor lembra que, quando falamos a respeito de Deus, sempre devemos atribuir o concreto às noções abstratas; o que significa isto? Significa, diz o argumento, que falar de Deus é como falar de um “universal concreto”. Vamos aos exemplos: quando atribuímos a Deus a divindade, não falamos de um conceito abstrato e externo ao próprio Deus que poderíamos aplicar a ele dizendo “Deus é divino”; ao contrário, falamos de uma noção que só tem sentido porque se realiza plenamente em Deus, e dizemos que “o divino é Deus”. Similarmente, quanto à paternidade, falamos que em Deus a paternidade é o Pai, e assim por diante. O argumento prossegue, afirmando que, se é assim, precisaríamos afirmar que, em Deus, a Trindade é trina; com isto, ficaríamos com nove realidades em Deus. A consequência absurda, diz o argumento em conclusão, mostrar-nos-ia, a seu ver, que a noção de Trindade é inaplicável a Deus.
O argumento sed contra cita simplesmente a chamada “profissão de fé de Santo Atanásio”, tida como legítima expressão de ortodoxia católica, e que determina que nós devemos venerar a unidade na Trindade e a Trindade na unidade. Se o Credo de Atanásio usa a palavra “Trindade”, subentende-se que ela pode ser aplicada a Deus adequadamente.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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