Neste ponto, mais uma vez somos atrapalhados, em nosso processo de compreensão da Suma, pela necessidade de conhecer rudimentos do pensamento metafísico grego, como a escolástica o recebeu e especialmente como São Tomás o releu. No particular, temos a noção aristotélica de que as essências são universais, ou seja, são as mesmas para cada ente, e existem como entes de razão em alguma mente, por um lado, na qualidade de universais mesmo, ou seja, de ideias aplicáveis a todos os seres singulares aos quais se conforma. E as mesmas essências existem concretamente em cada indivíduo, que são como que expressões particulares e realmente existentes das essências universais.

Vamos dar um exemplo, para facilitar. Tomemos a noção de ser humano. Como abstração, a ideia de ser humano, isto é, de um animal racional, existe como universal, na mente de todos os que conseguiram assimilá-la. Não existe “o” ser humano por aí, ou seja, não há algo como uma “ideia de ser humano” universal e indeterminado, que fosse fenomenologicamente existente. Cada ser humano que existe é um indivíduo, concreto, histórico, determinado pela sua matéria; cada um dos seres humanos fenomenologicamente existente é, como São Tomás gostava de dizer, “esta carne e estes ossos”, é “matéria especificada” (materia signata). A noção de ser humano, em sua universalidade, contém em si a ideia de que o ser humano é sempre um ser material; mas ela mesma, a noção de ser humano, como abstração, não é material.

Assim, quando eu chamo alguém de ser humano, ou seja, quando eu atribuo a alguém a noção de ser humano, eu estou querendo dizer que aquele indivíduo compartilha com todos os outros seres humanos a noção de “ser humano”. Em outras palavras, quando atribuo a alguém o nome de “ser humano”, defino-o como alguém cuja essência é “ser humano”, e afirmo que ele compartilha a essência humana realmente com todos os seres humanos que existem, que já existiram e que ainda vão existir. Aplicar a alguém (fenomenologicamente existente) o nome de uma essência significa dizer que aquela essência se realiza nele, e que ele compartilha aquela essência com todos os outros seres individuais aos quais se possa atribuir o mesmo nome.

Eis que vem a complicação: e a noção de “pessoa”? Ela é universal, ou seja, ela descreve abstratamente uma essência que se individualiza substancialmente num ente que a realiza concretamente? Parece que não. Apesar dos corretores ortográficos presentes na maioria dos programas editores de texto, que teimam em me corrigir quando eu escrevo a expressão “pessoa humana”, a noção de “pessoa” não é sinônima da noção de “ser humano”. Embora saibamos hoje que não pode haver ser humano sem haver pessoa (fato negado pelos defensores do aborto, que defendem que a noção de “pessoa” somente se aplica aos seres humanos já totalmente nascidos), mesmo os nossos ordenamentos jurídicos atribuem a condição de “pessoa” a entidades que não são seres humanos concretos, materiais, históricos, como é o caso das grandes corporações econômicas ou mesmo do próprio Estado (que são consideradas pessoas “jurídicas”). Também se pode atribuir o nome de “pessoa” aos anjos – acreditemos ou não na sua existência – se os definirmos como seres puramente espirituais dotados de inteligência e vontade, e portanto de autodeterminação. E, por fim, atribuímos a noção de “pessoa” a cada uma das relações subsistentes na Trindade, embora todas sejam o mesmo e único Deus. Fica claro, portanto, que um ente pode ostentar personalidade, ainda que essencialmente seja diverso de outro ente. Seres humanos e anjos têm essência diversa, mas têm, ambos, personalidade.

Eis aqui o problema que este artigo nos coloca, agora: se eu chamo três seres de “seres humanos” , estou atribuindo uma só e a mesma humanidade aos três, ainda que eu saiba que cada um realiza esta humanidade concretamente, existencialmente, de maneira diversa. Quando digo que as três relações subsistentes da Trindade são um só e mesmo Deus, atribuo a cada um deles uma só e a mesma divindade. E quando digo que eles são pessoa, o que lhes estou atribuindo? Estou dizendo que eles compartilham a mesma personalidade, ou estou dizendo que a noção de pessoa pode ser igualmente aplicada a cada um deles? Como admitir que a noção de pessoa pode ser igualmente aplicada a cada relação subsistente, na Trindade, sem afirmar, simultaneamente, que eles compartilham da mesma personalidade, ou, alternativamente, que eles tem em comum algo mais do que a própria essência divina, que é simples por definição, e portanto não poderia ser acrescida de nada? Será que, dada a simplicidade da essência divina, as relações subsistentes na Trindade não poderiam compartilhar entre si mais nada, nem mesmo uma noção comum de pessoalidade? O que haveria de comum, quando disséssemos que a mesma noção de pessoa se aplica às três pessoas da Trindade? Haveria uma personalidade comum às três, ou os três teriam em comum a característica de ter personalidade, ou seja, compartilhariam a mesma dignidade pessoal? Esta é uma questão muito sutil, e muito interessante em nossos tempos (já que vivemos uma era que titubeia entre o coletivismo, que nega a personalidade individual dos componentes de uma sociedade, e o individualismo, que nega a dignidade compartilhada de ser pessoa) e que São Tomás vai debater agora. Acompanhemos o debate.

A hipótese controvertida proposta para iniciar o debate, aqui, é a de que a noção de pessoa não pode ser comum às três pessoas da Trindade. E São Tomás traz três argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento lembra que as pessoas da Trindade têm em comum a essência divina. Mas a noção de pessoa não descreve diretamente alguma essência. Se as pessoas divinas compartilham a essência, e a essência divina é simples, e se a noção de pessoa não implica diretamente a essência divina, então, conclui o argumento, a noção de pessoa não pode ser comum às três pessoas divinas. Há, pois, neste argumento (permitam-me esta digressão), uma ambiguidade – o que se nega, aqui? Que as três pessoas compartilhem a mesma personalidade, ou que os três tenham em comum o fato de que a própria ideia de que são pessoas (e, portanto, que compartilhem a mesma dignidade pessoal) se aplica aos três? Veremos nas respostas de São Tomás, adiante.

O segundo argumento objetor também parte da ambiguidade entre compartilhar a mesma personalidade ou compartilhar a dignidade comum de ser pessoa. O argumento lembra que é característica própria do ser pessoa o “ser incomunicável” (como definiu Ricardo de São Vítor, numa definição que já tivemos oportunidade de debater em textos anteriores), e que ser incomunicável é o contrário de “ser em comum”. Assim, o argumento conclui que a noção de pessoa, pressupondo a incomunicabilidade, não pode ser comum às três pessoas da Trindade.

O terceiro quer discutir o que é que se quer afirmar de verdade, quando se diz que as três pessoas da Trindade compartilham a noção de pessoa. Trata-se, pergunta o argumento, de um compartilhamento real, ou de um mero compartilhamento lógico? Eles compartilham, em resumo, a mesma personalidade, ou compartilham a mesma pessoalidade? Se fosse um compartilhamento real da noção de pessoa entre eles, diz o argumento, teríamos que admitir que há apenas uma personalidade em Deus, ou seja, os três seriam, na verdade, uma só pessoa, o que não se harmonizaria com a Revelação. Mas se disséssemos que as três pessoas compartilham da mesma pessoalidade, teríamos de admitir que a noção de pessoalidade, aqui, está sendo tomada como um universal que se individualiza em cada um deles. Mas isto trombaria frontalmente com a constatação de que Deus é simples, e que portanto nenhum universal, nenhum gênero, nenhuma espécie pode ser dita dele. Deus não pode, nem mesmo por suas pessoas, ser visto como um ente que individualiza em algum grau uma noção universal. Por isto, o argumento conclui que nem mesmo a noção de pessoalidade poderia ser compartilhada pelas pessoas divinas.

O argumento sed contra cita Santo Agostinho, que, na obra “Da Trindade”, diz assim: “se perguntamos ‘que três’? Temos que responder: três pessoas”. Disto, o argumento conclui que a noção de “pessoa” é comum aos três.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.