Vimos, então, nos dois textos anteriores, como há duas maneiras de se falar em números:
1. A maneira quantitativa, ligada à extensão material, e que constitui e matemática propriamente dita, ou seja, o estudo das quantidades. Esta maneira, portanto, relaciona-se com os números como abstrações do acidente da quantidade, e portanto está no gênero dos acidentes do ser. Como Deus não tem acidentes, nem é quantificável, somente de forma muito imprópria, ou, mais precisamente, metafórica, é que a matemática se aplica a Deus, como para dizer que Deus é grande, ou que o mal está para além dos limites de Deus.
2. A maneira estrutural, ou metafísica, que parte da noção de uno como transcendental do ser – a unidade, aqui, não é uma noção quantitativa, mas entitativa, ou seja, refere-se à integridade, à completude daquilo que é um em si mesmo. Esta noção está, portanto, acima dos gêneros e das espécies, e pode ser pensada como estruturante para qualquer ser, porque é um aspecto do próprio ser. É neste sentido que a noção de “uno” é mais própria de Deus do que das criaturas, e somente de forma analógica se aplica a nós. Somos seres compostos, multidimensionais, quantificáveis, enquanto Deus é simples, imensurável, absoluto e subsistente.
Assim, vimos que a multiplicidade não se opõe à unidade, mas a complementa, porque a multiplicidade também está no âmbito dos transcendentais do ser, e significa a pluralidade de unidades, ou seja, a constatação de que na estrutura do real há várias coisas que coexistem em sua indivisão. Assim, o contrário de unidade não é multiplicidade, mas divisão. A divisão é aquilo que é negado quando se afirma a unidade, metafisicamente. E portanto também quando se afirma a multiplicidade, caso em que se está afirmando a pluralidade de unidades, e portanto uma pluralidade do indiviso. É por isto também que São Tomás dirá, aqui adiante, que a divisão é logicamente anterior à unidade, no sentido de que, no pensamento, a unidade toma seu sentido da divisão, e não o contrário.
Mas passemos ao exame dos argumentos objetores deste artigo e das respectivas respostas de São Tomás, que muito nos enriquecerão.
O primeiro argumento objetor parte da ideia de que a unidade divina é a própria essência divina. E o argumento prossegue, defendendo que, se todo número pode ser definido como “a unidade repetida”, ou seja, o número “dois” nada mais é do que o número um repetido duas vezes, e assim por diante, então quando atribuímos algum número a Deus (como é o caso do número de pessoas que existem na Trindade, acrescento), estamos falando, segundo o argumento, da multiplicação da sua essência. Assim, o argumento conclui que os números, quando ditos de Deus, descrevem alguma realidade concreta nele (põem nele alguma coisa, para usar a linguagem escolástica), e não apenas alguma negação ou privação.
Na sua resposta, muito curta, São Tomás mostra que, em Deus, a unidade não significa simplesmente a contagem matemática de divindades, como se, ao afirmar a unidade de Deus, estivéssemos a dizer que há um ente e apenas um, cuja substância é divina. No esforço de entender a resposta de Tomás, permitamo-nos um pouco de digressão.
Não estamos dizendo que “há um Deus” no mesmo sentido que digo que no nosso sistema solar “há um sol”, e não dois, ou que a Terra tem uma lua, e não duas ou três como outros planetas. Dizer que Deus é uno é dizer que ele é íntegro, indiviso, simples, e não que “haveria apenas uma substância que apresenta a qualidade de divino, mas que isto é acidental, porque poderia haver mais”. A substância divina é divina é una porque é divina, e não o contrário. A unidade, sendo um transcendental do ser, é uma noção mais elevada, diz São Tomás, que a própria noção de substância ou de relação, mesmo para Deus. É o ser de Deus que é uno, e não a substância de Deus (no sentido de indivíduo), ou mesmo as suas relações. É por isto que as relações podem multiplicar-se, em Deus, sem que Deus perca a sua unidade ontológica. Não se trata de matemática, portanto, mas de estrutura. (Se é que podemos dizer assim).
O segundo argumento objetor também não faz a distinção entre os números no sentido quantitativo ou no sentido entitativo ou metafísico. O argumento afirma que, se os números, aplicados às criaturas, “põem alguma coisa” nelas, então muito mais eles devem “pôr alguma coisa” em Deus. Ocorre que, como São Tomás lembra, não há uma “matemática” de Deus, porque não se pode quantificá-lo. Assim, os números, entendidos como abstrações de quantidades, não podem ser propriamente aplicados a Deus. Ora, os números, entendidos assim no sentido material, quantitativo, de fato falam de uma realidade que é positiva nas criaturas (o acidente da quantidade), mas que não se aplica a Deus, porque Deus não tem acidentes. No sentido metafísico, porém, como transcendental do ser, o número representa apenas uma negação – a negação da divisão – e por isto não descrevem realidades postas, mas apenas uma negação, que é um ente de razão. Assim, quando predicamos de Deus a unidade, ou mesmo a trindade, não estamos quantificando Deus, mas simplesmente mencionando sua intimidade maravilhosa por meio de uma negação.
O terceiro argumento objetor parte da ideia de que negar que os números, em Deus, expressem alguma realidade efetiva seria cair num raciocínio circular; se alguém perguntasse “o que é a unidade”, teríamos que responder que “é aquilo que remove a pluralidade”. E se perguntasse, em seguida, “o que é, então, a pluralidade”, teríamos que responder que é “o que remove a unidade”. Assim, afirmar que os números são meras negações, quando referidos a Deus, seria, segundo o argumento, argumentar em círculos, e isto tiraria qualquer significado às noções envolvidas. Por isto, o argumento afirma que deve haver algum sentido efetivo, positivo, e não apenas de negação ou privação, nos números, quando aplicados a Deus.
São Tomás vai dar uma resposta simples: o argumento parte da ideia de que há uma oposição entre unidade e pluralidade; mas não há. A oposição é entre unidade e pluralidade, de um lado, e divisão, do outro. Assim, tanto a unidade como a pluralidade negam a divisão. A divisão é logicamente anterior à unidade, diz São Tomás. Assim, quando se afirma a unidade, o que se afirma é a indivisão do ente. Quando se afirma a pluralidade, diz São Tomás, o que se está afirmando é uma multiplicidade de entes indivisos. Portanto, não há circularidade entre unidade e pluralidade. Ambos afirmam o ser, sob o aspecto de sua inteireza, e negam este modo de não-ser que é a divisão.
Por fim, uma palavrinha sobre o argumento sed contra, que vai resolver um dilema no qual São Tomás nos deixou agora. O dilema é o seguinte: se os números, em Deus, são somente uma negação, e se eles negam a divisão, chegamos, de qualquer modo, a um raciocínio circular. É que a divisão é, ela própria, é uma negação; a negação do ente. Dizer divisão significa dizer indeterminação, e portanto, de certo modo a divisão é um não-ser – ainda que um não-ser qualificado de algum modo, como a matéria-prima. E de certo modo é assim mesmo – quando afirmamos que a unidade é um transcendental do ser, estamos dizendo que ser é, de algum modo, ser uno. Assim, ser dividido é, de certo modo, não ser. Por isto, quando afirmo a unidade, estou fazendo algo mais do que simplesmente negar a indivisão – estou afirmando o ser. A unidade (e a pluralidade) seriam, neste caso, mais do que uma pura negação da negação.
São To0más vai nos dar uma resposta para isto na sua análise do argumento sed contra. Há duas citações aqui: uma de Santo Hilário, para quem afirmar a pluralidade significa conduzir a inteligência para fora da solidão; mas, por outro lado, há Santo Ambrósio dizendo que, ao afirmar a unidade de Deus, excluímos a pluralidade de deuses, sem introduzir nele propriamente uma matemática, uma quantificação.
Estamos, pois, de volta à circularidade do argumento; mas São Tomás nos conduz para fora dela, de um jeito um tanto misterioso. Ele não vai negar as citações aduzidas aqui; são dois santos grandes demais para serem contestados.
Ele simplesmente admite que os santos citados estão certos no que estão dizendo; de fato, diz ele, o que é plural não pode ser sozinho, e o que é um não pode ter sua natureza multiplicada. Mas, diz São Tomás, o fato de que estas afirmações são verdadeiras não significa que elas esgotem a realidade dos números em Deus. E conclui: é verdade que aquilo que é branco não é preto, mas também é verdade que, quando afirmo que algo é branco, eu acrescento à minha afirmação algo mais do que simplesmente dizer “não-preto”. E assim, com este encerramento abrupto, São Tomás nos deixa num suspense: afinal, os números, mesmo no seu sentido metafísico de “transcendentais do ser”, de fato podem não ser simplesmente negações. Embora sejam, de modo certíssimo, negações. Eles podem pôr alguma coisa em Deus. Mas o que seria isto que eles põem em Deus, São Tomás não nos diz aqui. O fato é que, como dissemos no parágrafo anterior, isto tem a ver com o fato de que o número é um transcendental do ser: aplicado a Deus, ele afirma o ser de Deus – e este ser divino é um mistério inesgotável. É a Trindade.
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