Os termos do debate, como dissemos no texto anterior, foram postos. E a solução de São Tomás revela a necessidade de repensarmos a nossa própria noção de número, de matemática, de contagem.
De fato, agora como então, temos, nós humanos, a grande tendência a pensar materialmente, e não é surpreendente que seja assim, haja vista que somos seres materiais. Mas, se algo foi perdido para nós, hoje, é que exista a possibilidade de numerar, de contar, imaterialmente.
De fato, é o que resgataremos agora, na resposta de São Tomás. O velho debate entre o uno e a multiplicidade, de sabor tão platônico, ganha agora uma tinta cristã inegável e nos ajuda a pensar a Trindade, ao repensar a própria noção de número.
Quanto à Trindade, parece claro que não se pode contá-la. Deus não está sujeito a nenhuma conta. Mas há algo em Deus que nos permite pensar em termos numéricos; há algo em Deus que, sem deixar de ser unidade, multiplica-se em trindade. Para isto, seria necessário fazer existir uma nova forma de contar, que, em vez de falar em um ou em três, pudesse falar em triuno. Para isto, para possibilitar falar desta realidade que não pode ser adequadamente descrita pelos números que nós temos – e que derivam das medidas, das quantidades dos seres materiais – São Tomás dispõe da noção de “transcendental do ser”, com a qual já lidamos em vários debates anteriores, e que será essencial para caminharmos aqui. Esta noção, perdida em grande medida para nós, precisa ser resgatada, porque nos possibilita pensar com fundamento para além do materialismo crasso.
São Tomás inicia lembrando Pedro Lombardo, a quem ele trata como “o Mestre das Sentenças”, e que afirma que os números, quando afirmados de Deus (como quando o chamamos de “Deus Uno” ou “Deus Trino”) não afirmam algo sobre Deus, mas somente descrevem uma negação ou privação. Mas há outros, diz São Tomás, que sustentam o contrário, quer dizer, que defendem que, quando se atribui algum número a Deus, estamos “pondo algo” nele.
Há, pois, duas posições:
1. A de Pedro Lombardo, para quem, estes números expressão “entes de razão”, ou seja, são negações ou mesmo referem-se a privações, em Deus.
2. A de alguns outros, que São Tomás não especifica, para quem os números descrevem verdadeiras realidades postas em Deus.
São Tomás, então, passa a esclarecer a noção de pluralidade, que envolve e resulta na noção de número. Na verdade, diz São Tomás, toda pluralidade resulta de algum tipo de divisão, ou seja, de algum fator que provoque distinção entre os entes. Há duas maneiras de obter, então, uma divisão, que resulta numa pluralidade nos entes:
1. A maneira material: para as coisas corporais, nós as dividimos simplesmente separando seu corpo em partes. Cada novo corpo representa uma nova coisa, e os corpos que resultam da secção de um corpo original podem ser contados, quantificados na conformidade dos corpos que se formaram depois da divisão. Esta forma de divisão é a separação, portanto. E dá origem à matemática no sentido estrito, que é a ciência das quantidades. Ora, uma vez que a quantidade é uma das categorias do ser, como acidente, pode-se dizer que os números, quando aplicados aqui, pertencem ao gênero da quantidade. É assim, portanto, que se podem multiplicar vários seres materiais com a mesma forma, mas com corpos diferentes. A matéria é o que os individualiza.
2. A maneira formal. Aqui, tratamos de seres que se distinguem não pela matéria, mas pela forma. É fácil entender se pensarmos em seres geométricos de razão: um triângulo se distingue de um quadrado pela forma, e não pela matéria, já que, como ideias, nem o quadrado nem o triângulo têm matéria. Mas não há matemática possível entre quadrados e triângulos. Não se pode somar ou dividir coisas de espécies diferentes. Se tenho na mente um quadrado e um triângulo, posso dizer que há, na minha mente, duas figuras geométricas diversas, como há uma pluralidade de figuras geométricas diversas na geometria. Mas não posso dizer que há, na minha mente, dois conceitos de triângulo equilátero, porque não há como distinguir, em minha mente, dois triângulos equiláteros apenas em razão do seu conceito. Para introduzir diferença entre dois triângulos equiláteros, tenho que introduzir neste conceito alguma espécie de diferença material, como o comprimento dos lados ou a cor das linhas. Seja como for, na geometria inteira há apenas um, e somente um, conceito de triângulo equilátero.
Neste caso, portanto, a divisão pela forma só pode se dar em razão de que as próprias formas sejam diversas entre si. Neste caso, diz São Tomás, não estamos falando mas no terreno das quantidades, como no caso da divisão de coisas materiais. Quando contamos as figuras geométricas regulares, por exemplo, a rigor não estamos fazendo uma quantificação (já que, em tese, seria até impossível quantificá-las), mas verdadeiramente estamos no campo do próprio ser – entes com formas diferentes constituem-se como entes diversos entre si. É por isto que São Tomás diz que estamos, aqui, no âmbito dos transcendentais do ser, ou seja, daqueles aspectos do ser que não se submetem a um gênero específico, mas transcendem os gêneros para estabelecer-se no próprio ser. Assim, a distinção de entes em razão de sua forma, sendo causa de multiplicidade dos entes, é m transcendental do ser. A multiplicidade formal é transcendental do ser, assim como a unidade do ente, quando significa aquele aspecto do ser relacionado à sua indivisão ontológica, a sua integridade existencial, não está relacionada com algum aspecto acidental, ou seja, com algum gênero do ser, mas transcende os gêneros. A unidade, referida à formalidade dos seres, é um dos transcendentais do ser. Como a multiplicidade. Neste caso, diz São Tomás, estamos falando de multiplicidade de formas, e não de secção de matéria. É por isto que este tipo de multiplicidade, resultante da distinção das formas, só existe como realidade formal, ou seja, para os seres pensados em sua imaterialidade. Se tenho vários cubinhos plásticos, falo de uma multiplicidade matemática, e portanto de uma quantidade de cubos. Mas se tenho uma relação de conceitos de figuras geométricas, por exemplo, estou no campo da distinção de formas, e portanto esta distinção, formando uma multiplicidade, não se relaciona à quantidade, mas é um transcendental do próprio ser.
Alguns, diz São Tomás, considerando os números apenas na sua dimensão de quantificação, relacionada à divisão das coisas materiais (ou seja, no sentido “1” acima), afirmaram que os números somente se aplicam a Deus de modo negativo (ou seja, como negação de que Deus tivesse quantidade), e que, portanto, quando falamos de números aplicando-os a Deus, não “pomos nada” em Deus, mas apenas negamos. Negamos mesmo que haja números em Deus. Os que somente conseguem entender os números como expressão da divisão quantitativa teriam, por exemplo, dificuldade para dizer que “Deus é um”, ou que “há apenas um Deus”, porque eles afirmariam, neste caso, que há, acidentalmente, uma unidade de “Deus”, mas de algum modo poderia haver dois, três ou mais. Os que entendem o número apenas como expressão de quantidade, no sentido material, têm que negar inclusive que se possa quantificar Deus como “único”, e dizem que, ao dizer que “Deus é um”, apenas estou dizendo que não há outro. Estes, desconhecendo a noção do “uno” como “transcendental do ser”, e reduzindo o número a fator de quantificação, perdem a ideia de que, em Deus, ser “uno” significa ser simples, perfeito, completo, íntegro.
Há outros que, ainda presos à noção de que o número é apenas a expressão da quantificação material, dizem que há apenas uma maneira de imaginar que os números possam aplicar-se a deus, mesmo quanto à multiplicidade. Do mesmo modo que a ciência, ou seja, o conhecimento (as informações, o logos) está em nós como um hábito, como algo que aprendemos e que nos qualifica (ou seja, em nós é um acidente), mas está em Deus como essência no sentido de que ele é a própria ciência, porque é o logos, o sentido, a inteligibilidade absoluta (e, portanto, em Deus a ciência não é um acidente, mas a sua própria essência da qual jorra para nós o logos como uma fonte, e neste sentido a razão da ciência está em Deus), os números estariam em Deus como fonte, como origem, como razão da própria possibilidade de que todas as coisas sejam quantificadas. Os números existem, fazem sentido como medida quantitativa, dizem estes, porque Deus é a medida de todas as coisas, e portanto torna possível que todas as coisas tenham medida. Isto é verdade, digo eu. Mas não é neste sentido que São Tomás está falando, aqui. Não é neste sentido que estamos tratando da possibilidade de aplicar números a Deus.
Nunca poderíamos aplicar propriamente a Deus os números no sentido material; não há a possibilidade, para nós, de uma matemática divina, ou seja, de uma ciência da medida de Deus, porque não há medida em Deus. Deus não é quantificável. Sempre que usarmos os números neste sentido ara aplicarmos a Deus, estamos falando no sentido estritamente metafórico, diz São Tomás. Se dissermos que Deus é grande, ou que o braço de deus nos alcança, ou que Deus está além dos limites da criação, é sempre metaforicamente que estamos falando.
Mas quando falamos do número no sentido de transcendental do ser, então podemos atribuí-lo propriamente a Deus. Se o uno é um transcendental do ser, que significa o ser visto sob o ângulo da sua integridade, da sua indivisibilidade, então ele pode ser dito de Deus de maneira própria: Deus é a própria unidade, porque ele é a própria simplicidade sem composição, a própria indivisão. Já debatemos isto na questão 11. Neste sentido, quando falo da unidade em Deus, falo de uma negação: a negação da divisão. Não se trata, pois, de uma quantificação, mas de uma exclusão.
E quanto à multiplicidade? Quando tratamos da multiplicidade, no plano da imaterialidade, estamos falando da pluralidade de seres que são, em si mesmo, indivisos, mas são, quanto aos outros, formalmente diversos. É neste sentido que falo da diversidade de seres humanos – trato de seres que, sendo indivisos em si mesmos, são reciprocamente diversos entre si.
Assim, falar de pluralidade, neste sentido, significa reconhecer a diversidade de unidades, e não significa uma quantificação, uma medida. Não estamos, portanto, no campo do gênero acidental da quantidade, mas no campo transcendental da unidade do ser. Neste sentido, segue São Tomás, pode-se dizer que Pedro Lombardo, o Mestre das Sentenças, tem razão; os números podem ser atribuídos a Deus de modo próprio, como transcendentais do ser, sem que com isto se esteja introduzindo de fato alguma ideia de medida, em Deus, mas apenas: 1) ao afirmar nele a unidade, negamos nele a divisão, ao afirmar que ele é uno, em essência, 2) Ao afirmar a pluralidade de pessoas, negamos de cada pessoa divina a divisão, ao tempo em que reconhecemos nelas, em Deus, a distinção – porque é próprio das pluralidades ser constituídas de unidades.
A Trindade, portanto, não é uma matemática, mas uma estrutura – se é que podemos dizer assim. Ela não quantifica Deus, apenas permite-nos vislumbrar, digamos, a constituição interna do próprio amor, da alteridade perfeita que é o ser perfeito.
No próximo texto veremos a resposta às objeções iniciais.
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