Esta é uma questão muito técnica, muito difícil, porque pressupõe conhecer um pouco da visão da estrutura filosófica que era familiar a São Tomás, mas que para nós é muito estranha.

Por exemplo, perguntar se um determinado termo “põe alguma coisa”, ou “acrescenta algo” quanto àquilo a que se refere, significa o mesmo que perguntar se estamos falando de realidades, de entes realmente existentes ali naquilo de que estamos falando, ou se estamos tratando apenas de entes de razão, ou seja, de construções lógicas que usamos para descrever algo que, de fato, não existe na realidade, mas do qual podemos construir sentenças positivas ou negativas. O exemplo clássico seria a cegueira; quando dizemos que alguém é cego, não descrevemos uma realidade que de fato exista m alguém como uma substância ou um acidente. Ser cego significa ser privado de visão; portanto, a cegueira é um ente de razão, que descreve uma privação num ser do qual se esperava um determinado atributo que ele não tem. A noção de “cegueira”, portanto, diria Tomás, não “põe algo”, não “acrescenta algo” naquele ser da qual ela é predicada. A cegueira é um ente de razão, é uma construção lógica para significar uma privação, a privação de visão. E se aplica, é claro, para aquele ente que, tendo a potencialidade da visão, no entanto está acidentalmente privado dela. Ninguém diria que uma pedra, ou mesmo uma árvore, são cegas, porque ver não é um atributo que esperássemos destes seres. Mas um animal pode ser chamado de “cego”, sem que a cegueira seja algo que de fato expressa um ser nele, senão uma falta de um ser esperado ou devido.

E quanto à ideia de contar alguma realidade em Deus? Dizer que há, em Deus, três pessoas, é uma afirmação que “põe alguma coisa” em Deus, ou seja, descreve uma medida intrínseca à sua intimidade? Ou se trata apenas de uma forma de falar, um jeito humano de descrever uma realidade que, em si mesma, não corresponde ao que está sendo dito? O número, quando dito de Deus, descreve alguma medida que está em Deus, ou descreve algum tipo de privação ou de negação?

A hipótese controvertida, aqui, para iniciar o debate, é a de que os números, quando aplicados a Deus, de fato “põem alguma coisa” nele, ou seja, falam de uma realidade nele, descrevem algo que efetivamente existe nele; a hipótese, aqui, é a de que os números, quando atribuídos a ele, representam uma verdadeira medida da intimidade de Deus, ali mesmo em seu ser. E são três os argumentos neste sentido.

O primeiro argumento inicia afirmando que a unidade divina é a sua essência; ou seja, segundo o argumento, quando atribuo a Deus o número “um”, e proclamo sua unidade, estou me referindo concretamente à essência divina. Mas, diz o argumento, a unidade é o princípio de todo número – assim o “dois” é a unidade repetida duas vezes, o “três” é a unidade repetida três vezes, e assim por diante. Logo, se em Deus a unidade é a essência, atribuir a ele qualquer número para descrevê-lo seria atribuir um múltiplo da essência, e portanto, conclui o argumento, este número “põe alguma coisa” em Deus.

O segundo argumento objetor inicia por lembrar que, quando se pode afirmar alguma coisa de Deus e também das criaturas, esta afirmação é sempre muito mais válida para Deus do que para as criaturas. Assim, por exemplo, quando digo que “Deus é bom” e digo que “fulano é bom”, estou usando a palavra “bom” de um modo muito mais perfeito, muito mais próprio, de Deus do que das criaturas. E o argumento prossegue, para afirmar que podemos atribuir muitos números às criaturas, descrevendo sua realidade existencial efetiva. Sempre que atribuímos um número a uma criatura, estamos descrevendo a realidade efetiva do ser desta criatura. Logo, conclui o argumento, quando atribuímos algum número a Deus, estamos falando de realidades efetivamente existentes nele.

O terceiro argumento objetor usa um raciocínio inverso: admitamos que os números não descrevem alguma realidade realmente existente em Deus, mas são utilizados, com referência a ele, apenas para referir-se a alguma negação ou privação. Neste caso, quando afirmássemos que Deus é um, estaríamos apenas negando nele qualquer tipo de pluralidade, e vice-versa; neste caso, a unidade, em deus, seria apenas a negação da pluralidade, mas a pluralidade, por sua vez, seria apenas a negação da unidade. Haveria, portanto, uma argumentação em círculo, numa verdadeira petição de princípio, porque um termo seria a negação do outro, que, por seu turno, seria apenas a negação do primeiro. Isto esvaziaria de qualquer razoabilidade qualquer discurso que se pudesse fazer a respeito de Deus, e tiraria qualquer conteúdo racional da nossa relação com ele. Assim, o argumento conclui que é preciso que, quando usamos termos numerais para nos referirmos a Deus, estes termos efetivamente afirmem alguma realidade em Deus, e não apenas representem entes de razão, que aludem a alguma negação ou privação nele.

O argumento sed contra cita dois Padres da Igreja: santo Hilário e Santo Ambrósio. Santo Hilário disse: “se admitirmos companhia (consortium), afirmamos uma pluralidade, o que se opõe à ideia de isolamento e solidão”. E Santo Ambrósio: “quando afirmamos que Deus é uno, estamos excluindo a pluralidade de deuses, mas não estamos de modo nenhum quantificando Deus”. Assim, o argumento contrário conclui que os termos numéricos não afirmam algo de Deus, não “põem nele” alguma coisa, mas somente negam, excluem dele certas realidades.

Estão postos os termos do debate, termos extremos, é certo, que São Tomás saberá harmonizar, concedendo o que há de conceder e explicando o que há de explicar. Veremos nos próximos textos.