Tendo feito esta síntese maravilhosa, São Tomás passa a responder às objeções iniciais.

O primeiro argumento objetor traz a ideia de que, se há quatro relações reais em Deus, e se as relações subsistentes originam as pessoas divinas deveríamos contar quatro, e não apenas três, pessoas divinas. São Tomás lembra simplesmente que, embora haja de fato quatro relações reais em Deus, uma delas, a espiração, não opõe o Pai ao Filho, mas convém a ambos. Assim, embora a espiração seja uma relação, ela não é própria de uma pessoa, ou seja, ela não é uma propriedade pessoal , porque não constitui uma pessoa, mas une duas. As outras três relações, que são a paternidade, a filiação e a processão, porém, são relações que se constituem em propriedades pessoais, porque, opondo as hipóstases, constituem as pessoas divinas. Assim, diz São Tomás, a paternidade é a pessoa do Pai, como a filiação é a pessoa do Filho e a processão é a pessoa do Espírito Santo.

O segundo argumento parte da ideia de que, se é possível falar em alguma distinção entre a natureza divina e a inteligência divina, então também é possível falar em alguma distinção entre a natureza divina e a vontade de Deus. Ora, prossegue o argumento, se há uma pessoa divina que procede da vontade divina e outra que procede da natureza divina, também deveria haver uma pessoa que procede do intelecto divino e outra, oposta à esta, procedendo da natureza divina. Logo, haveria outras pessoas, e não apenas três, em Deus.

Mas Tomás nos lembra que aquele que procede intelectualmente, como Verbo divino, deve necessariamente ser semelhante àquele do qual procede. Se o Filho procede do intelecto como conhecimento que Deus tem de si mesmo, é necessário que o conhecimento seja a assimilação, no conhecedor, da forma do conhecido. Logo, o Verbo é Deus que assimila a própria natureza divina de modo intencional. Assim, se o conhecido é realmente o conhecimento de quem conhece, ele tem que ser semelhante ao conhecido, e portanto o Verbo é gerado, isto é, procede do Pai em identidade de natureza. Não seria imaginável, portanto, que houvesse uma pessoa procedendo, em Deus, ao modo de natureza, que não fosse o próprio Verbo. Mas não é assim o Amor – o amor é a vontade divina doando-se completamente pelo bem do outro. Ela envolve, portanto, o reconhecimento da alteridade, a sua aceitação e mesmo o desejo de ser um com o outro. Logo, se o amor pressupõe a alteridade, a diferença que gera a aceitação plena e a doação irrestrita e total, ela não pode conter em si a identidade, como o Verbo. Assim, não haveria como imaginar uma pessoa do Amor, em Deus, que fosse gerada, ou seja, que fosse processão de natureza como o Verbo. Resposta profunda e preciosa de São Tomás!

O terceiro argumento objetor parte da ideia de que as operações vão se multiplicando conforme aumenta a perfeição da criatura: um ser vivo tem mais operações que um inanimado, e dentre os seres vivos, os animais têm mais operações que os vegetais, e os racionais, mais do que os irracionais. Se é assim, diz o argumento, seria de esperar que Deus tivesse mais operações do que as criaturas racionais (que têm inteligência e vontade). Logo, se há uma pessoa divina que procede da vontade divina e outra que procede da inteligência divina, seria de esperar que houvesse em Deus tantas pessoas quantas fossem as operações pelas quais Deus supera as criaturas. Como Deus supera infinitamente as criaturas, então, diz o argumento, haveria infinitas pessoas divinas, e não apenas três.

De fato, diz São Tomás na sua resposta, o ser humano é o mais perfeito dos seres materiais, e por isto é dotado do maior número de operações intrínsecas – sendo composto de alma espiritual e matéria, ele sintetiza em si todas as operações do mundo material. Os seres humanos, lembrará São Tomás mais adiante na Suma, têm dupla composição: matéria e forma, por um lado, essência e existência por outro. Mas está não é uma escala de progressão; de fato, os anjos são seres mais elevados que os seres humanos, mas são imateriais; são, portanto mais simples do que os seres humanos – sua composição é apenas de essência e existência, mas não há neles a composição de matéria e forma: São seres puramente espirituais, estritamente formais, portanto. Assim, têm as operações espirituais do intelecto e da vontade, mas não as operações relacionadas à matéria, como a imaginação, a sensibilidade e outras operações humanas ligadas à materialidade do nosso corpo. Em Deus, cuja simplicidade exclui qualquer composição, diz São Tomás, há apenas uma operação, que é a própria essência divina. Não se há, portanto, de multiplicar as pessoas divinas em razão de uma suposta multiplicidade de operações que Deus absolutamente não tem. E para encurtar a conversa, São Tomás conclui dizendo que já demonstrou anteriormente como podem existir duas processões em Deus nas questões anteriores, e não é necessário voltar ao assunto.

O quarto argumento objetor quer colocar a causa da multiplicação de pessoas em Deus na infinita bondade do Pai. Ora, diz o argumento, é pela sua bondade infinita que o Pai se doa inteiramente, gerando um filho. Se é assim, prossegue, é necessário reconhecer que, se o Espírito Santo é bondade infinita, ele também deveria doar-se inteiramente, gerando outra pessoa divina que, por sua vez, sendo também infinitamente boa, geraria outra, e esta geraria ainda outra, e assim por diante, até o infinito. E o argumento conclui que deveríamos esperar infinitas pessoas divinas.

São Tomás responde que isto seria assim se o Espírito Santo fosse bom com uma bondade diferente da do Pai; mas não há duas ou três “bondades” diferentes em Deus. Se as Pessoas Divinas compartilham a mesma essência, e se é da essência de Deus ser bom, então é pela mesma bondade que os três são bons. A relação é a única coisa que os coloca em oposição, e gera neles diversidade. Mas é esta mesma relação que determina qual a conveniência da bondade única de Deus quanto à cada Pessoa: o Pai é bom como quem a origina e doa. O Filho, como quem a recebe e vive. O Espírito Santo, por sua vez, é bom porque nasce deste amor com que o Pai e o Filho se amam. É, pois, como originado, e não como originante, que ele é infinitamente bom. Daí porque não é conveniente à bondade de Deus no Espírito Santo que ele seja o gerador de outra pessoa: isto convém ao Pai. Nem sequer é conveniente a ele que espire outra pessoa: ele é o amor espirado, não o espirante. Não se pode, portanto, multiplicar as pessoas divinas a partir do Espírito Santo. Poderíamos acrescentar que o Espírito Santo de fato multiplicará as pessoas, mas apenas as pessoas criadas, das quais ele fará filhos de Deus por participação (e não por natureza, como as Pessoas da Trindade), como nos ensina 2Pd 1, 4.

Por fim, o quinto argumento objetor volta à questão da Trindade como “medida de Deus”. Se o número é a expressão de quantidade, então tudo aquilo que pode receber um número deve ter uma quantidade, e portanto ser limitado, quantificável. Mas, segundo o argumento, o próprio Santo Atanásio, protótipo da ortodoxia da fé, dizia, no seu Credo, que o Pai é imensurável, o Filho é imensurável e o Espírito Santo é imensurável. Então, conclui o argumento, eles não poderiam estar contidos no número 3.

São Tomás dá uma resposta profunda: de fato, a própria noção de número, como grandeza matemática, pressupõe que haja uma referência na unidade, de modo que cada número é concebido pela razão como um múltiplo da unidade. Concebido assim, os números seriam realmente inaplicáveis a Deus, porque a Trindade jamais poderia ser concebida como algo que multiplica a unidade divina. Em Deus, diz São Tomás, o número três não é concebido como multiplicador da unidade, mas simplesmente como um ordenador das relações – já que cada pessoa divina é, ela própria, Deus todo, e assim a unidade de Deus não pode servir de padrão de medida para o três da Trindade. Nenhuma coisa pode servir de unidade de medida para si mesma, diz São Tomás. Toda medida é sempre uma comparação relacional com outra coisa – e é neste sentido que Deus, sendo incomparável, por ser absoluto, não pode ser medido. Mas sua, digamos, ordem interna, ou sua “imanência”, pode ser revelada a nós – como de fato o foi em Jesus. Nossa linguagem matemática terá sempre dificuldade em expressar esta realidade que nos supera infinitamente. Mas nem por isto devemos desprezar a Revelação, senão contemplar sua beleza inesgotável com humildade e alegria.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, assim como era no princípio, por todos os séculos dos séculos, amém!