No texto anterior, começamos a debater se há exatamente três pessoas em Deus, e se isto faz sentido também perante a razão. De fato, a hipótese controvertida inicial é exatamente a de que não haveria três pessoas em Deus; vimos os cinco argumentos objetores e o argumento sed contra. Agora examinaremos a resposta sintetizadora de São Tomás. Na qual ele se depara com o chamado problema da cláusula filioque, e o resolve magnificamente.
Só para lembrar, a cláusula filioque está por trás da diferença teológica entre católicos romanos e os ortodoxos. De fato, os ortodoxos defendem, na sua leitura do credo Niceno-Constantinopolitano, que o Espírito Santo procede do Pai (ainda que pelo Filho), enquanto os católicos romanos leem o mesmo credo no sentido de que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Na sua bela resposta, São Tomás nos mostra que, da forma com que ele constrói sua teologia, a leitura ocidental faz todo sentido.
Ele iniciará afirmando que temos que admitir três, e somente três, pessoas em Deus. Nisto concordam todos os cristãos, católicos, ortodoxos ou reformados.
Para cada pessoa divina, diz Tomás, deve existir, em Deus, uma relação subsistente que configure efetivamente uma oposição relacional. Duas relações opostas, portanto, devem forçosamente configurar duas pessoas; no entanto, relações que não se opõem entre si devem apresentar-se na mesma pessoa. Cada pessoa, portanto, pode apresentar em si mais de uma relação, caso as relações não sejam opostas entre si. De fato, é natural que seja assim, porque, havendo três pessoas, cada pessoa relacionar-se-á com as outras duas, e haverá maior número de relações do que há de pessoas: o Pai relaciona-se com o Filho e o Espírito Santo; o Filho relaciona-se com o Pai e com o Espírito Santo; e o Espírito Santo relaciona-se, por sua vez, com o Pai e com o Filho. Mas as relações, em Deus, não são seis, como se poderia depreender desta enumeração, mas quatro, como vimos na questão 28, artigo 4. E destas quatro relações, somente as que são opostas entre si configuram uma pessoa distinta.
É por isto que as quatro relações configuram três pessoas, e as três pessoas mantêm quatro relações entre si: há quatro relações, mas apenas três oposições na intimidade divina. E ele nos ensinará, agora, como é que isto pode acontecer.
Parece intuitivo perceber que a relação do Pai com o Espírito Santo não se opõe à relação do Filho com o mesmo Espírito Santo. Mas a relação que o Espírito Santo mantém com o Pai e o Filho é oposta à que o Pai e o Filho mantêm com o Espírito Santo; já que ele é uma pessoa diversa das pessoas do Pai e do Filho, é preciso que seja constituído por uma relação realmente oposta a eles.
Uma vez que a relação do Pai e do Filho como Espírito Santo não os coloca em oposição um ao outro, então está relação deve ser compartilhada entre eles – exatamente porque, se não os opõe, então os une.
Esta união entre o Pai e o Filho é exatamente o amor; e é este amor, este ato de querer completo e profundo entre amante e amado que exala, num suspiro inefável, este amor com que se amam.
Assim, de um lado estão, unidos entre si pelo amor completo, o amante e o amado. E, do outro lado, está, personificado, o amor que os une, como espirado por este querer completo e absoluto que os une. De um lado, pois, amante e amado, unidos pelo amor. Do outro lado da relação, está o amor que os une e que tem a mesma extensão dos dois que se amam. O amor tem a mesma extensão que os amantes, mas, sendo total doação, já não pertence a eles. Forma, portanto, esta terceira pessoa, que tem a natureza de Deus – porque é Deus como entrega recíproca entre Pai e Filho – mas, sendo esta entrega total doação sem nenhuma retenção, nem por quem doa, nem por quem recebe, de certo modo não pertence aos dois – e é por Isto que São Tomás diz que o Espírito Santo é o suspiro de amor divino procede do Pai e do Filho mas não pertence a eles; é neste sentido que a relação entre o amor e os amantes é de oposição, e esta relação de oposição gera hipóstase, e portanto é pessoa.
No entanto, lembra São Tomás, esta espiração, este suspiro maravilhoso de amor precisa dos amantes para acontecer; logo, nem o que gera, nem o gerado são procedentes do amor; ao contrário, é o amor que procede deles. O amor pressupõe de certa forma o ser e o logos, e por isto procede do Pai e do Filho, e não o contrário. Talvez esteja nesta afirmação tomasiana a origem da acusação de que Tomás é um intelectualista e não consegue lidar com o amor como essência de Deus, fazendo-o ser precedido do Ser e do Logos. Esta percepção, apesar de muito difundida, é injusta com São Tomás. Deus é simples, e não há nele distinção real entre ser, conhecer e amar. Mas amar pressupõe um amante e um amado, e pressupõe que eles se conheçam – não se pode amar aquilo que não se conhece. Assim, esta ordem é lógica; embora apenas analogicamente expressa em linguagem humana, revela, embora de modo imperfeitíssimo, algo que não pode deixar de ser realidade em Deus. Não é um “desvio intelectualista” em Tomás, mas um limite da linguagem humana – que não teria como expressar o fato simultâneo de que Deus é porque ama, que ama porque sabe, e sabe porque é e ama.
No próximo texto veremos a resposta de São Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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