Depois de determinar, no artigo anterior, que há várias pessoas em Deus, o presente artigo quer chegar ao seu número. Sabemos, de antemão, pela Revelação, que são três. Mais uma vez, São Tomás não teme interpelar a própria Revelação, abri-la ao debate para estabelecer solidamente seu fundamento de razoabilidade.

O debate tem início pela hipótese controvertida: parece que há mais de três pessoas, em Deus. E São Tomás coleciona nada menos do que cinco argumentos objetores, em favor desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento resgata o debate feito na questão 28, artigo 4, em que ficou bem estabelecido que há quatro relações reais em Deus – a paternidade, a filiação, a espiração comum e a processão. E o argumento prossegue, lembrando que na questão 30 ficou estabelecido que cada relação subsistente, em Deus, fundamenta a existência de uma pessoa divina. E o argumento conclui que, uma vez que são quatro relações reais subsistentes, devem existir quatro pessoas em Deus, e não três.

O segundo argumento objetor diz que, em Deus, é a mesma a diferença que existe entre a natureza e a vontade e a que existe entre a natureza e o intelecto. E a partir daí o argumento lembra que, levando em conta a vontade divina, admitimos que há uma pessoa que procede por modo de natureza, como filho, e outra que procede por modo de vontade, como amor (o Espírito Santo), deveríamos admitir o mesmo para o intelecto divino: deveria haver uma pessoa que procede do intelecto, como verbo, e outra que procede por modo de natureza, como filho. Poderia haver, então, uma pessoa filial oposta à pessoa do Amor e uma pessoa filial oposta à pessoa do Verbo. Só aí já teríamos, diz o argumento, mais de três pessoas em Deus.

O terceiro argumento parte da ideia da progressiva perfeição do ser. Nas criaturas, a perfeição do ser se manifesta pelo aumento progressivo das operações intrínsecas. Assim, nos seres inanimados não há operações intrínsecas; nos vegetais, há as chamadas “operações vegetativas”: nascer, crescer, alimentar-se, reproduzir-se; nos animais, além destas, há as operações sensíveis (os cinco sentidos), a estimativa (como os cães que saltam para apanhar a caça no ar) e a memória. Nos humanos, há, ainda, a inteligência e a vontade. Mas, se entre as criaturas, a distância entre os seres é finita, por outro lado entre as criaturas e Deus há uma distância infinita. Portanto, as operações intrínsecas, em Deus, não podem limitar-se somente à inteligência e a vontade – que estão presentes na criatura humana – mas devem exceder estas ao infinito. E disto o argumento conclui que, se cada operação intrínseca, em Deus, dá origem a uma pessoa, e se em Deus as operações intrínsecas multiplicam-se ao infinito, então as pessoas, em Deus, também multiplicam-se ao infinito.

O quarto argumento objetor parte da ideia de que o Pai comunica a si próprio porque é infinitamente bom. Mas o Espírito Santo, diz o argumento, sendo plenamente Deus, é também bondade infinita. Então também deve produzir uma pessoa divina, que, por sua vez, sendo bondade infinita, produz outra, e outra, e assim ao infinito. Logo, o argumento conclui que não são apenas três as pessoas divinas.

O último argumento objetor retoma uma discussão feita no artigo anterior, sobre o número como medida em Deus. O argumento resgata, aqui, uma citação de Santo Atanásio: “O Pai é imensuravelmente grande, o Filho é imensuravelmente grande, o Espírito Santo é imensuravelmente grande”. Ora, o que é imensurável por definição não pode ser contado. Logo, não se poderia dizer que elas são três.

O argumento sed contra é bíblico – usa um versículo cuja leitura, no tempo de São Tomás, fazia expressa menção às três pessoas divinas. Trata-se de 1João 5, 7, que São Tomás transcreve assim: “Três são os que dão testemunho no céu: o Pai, o Filho e o Espírito Santo”. Esta redação, neste versículo, hoje em dia, é contestada, porque está ausente dos manuscritos mais antigos, e parece ser uma interpolação, uma glosa mais tardia. (Há outros testemunhos trinitários no Novo Testamento, como Mt 28, 19 ou 2 Coríntios 13, 13). Mas, em todo caso, Santo Agostinho conheceu esta redação, e pergunta, a respeito deste versículo: “três o que?”, e ele mesmo responde: “três pessoas”. Logo, o argumento conclui que há três, e somente três, pessoas em Deus.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás, e as suas respostas específicas aos argumentos objetores iniciais.