Vimos, no texto anterior, como São Tomás estabelece que a pluralidade de relações subsistentes, em deus, pode ser o suporte adequado para a pluralidade de pessoas nele. Agora examinaremos as respostas de São Tomás aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor, como nos lembramos, traz a definição boeciana de pessoa, e afirma que, uma vez que pessoa é definida como substância, se admitíssemos a multiplicidade de pessoas em Deus teríamos que admitir que há nele uma multiplicidade de substâncias, o que seria contrário à fé.
São Tomás vai responder com uma interpretação da definição boeciana que a preserva, mas que a aperfeiçoa muito. Ele diz que, quando a definição de Boécio fala em “substância”, devemos ler “sujeito” (ou “supósito”). O supósito é aquele ente no qual a substância se realiza concretamente. Em nós, humanos, e nos anjos, a individualização implica um isolamento substancial, de modo que a cada indivíduo corresponde ser uma “substância primeira”, ou seja, um espécime isolado da sua natureza. Em Deus, o sujeito (ou supósito) da personalidade é a relação subsistente, que individualiza as hipóstases em Deus sem dividir a substância divina. Ele justifica a possibilidade de interpretar a noção de Boécio neste sentido resgatando o fato de que Boécio usa a expressão “substância individual” em sua definição, o que permitiria dizer que a palavra substância, aqui, não se refere estritamente a uma individualização da essência (como se dá nas pessoas criaturais), mas a sujeito (ou supósito) no sentido de substrato individual da personalidade.
São Tomás diz que os gregos, de fato, usam exatamente a palavra “hipóstase” para referir-se a estas individualidades relacionais em Deus; no ocidente, porém, a palavra “hipóstase” está muito associada a substância (no sentido de substância primeira), e por isto não é usada diretamente para significar “pessoa”, em Deus, para evitar o risco de uma interpretação triteísta, e portanto desconforme à fé.
O segundo argumento objetor reconhece que há relações imanentes em Deus, mas nega que elas possam multiplicar as pessoas divinas. De fato, diz o argumento, as relações são propriedades divinas, mas não são as únicas. Há propriedades não relacionais também, ou absolutas, como a verdade, o bem, a unidade, a beleza; mas a pluralidade de propriedades absolutas não implica pluralidade de pessoas, nem em Deus, nem nas criaturas, então não se poderia admitir que a pluralidade de relações o implicasse.
São Tomás vai passar a avaliar as propriedades não-relativas em Deus. Ele lembra logo que estas propriedades (bondade, sabedoria, verdade, etc), embora seja de fato subsistentes, não são realmente distintas entre si, nem são respectivamente opostas. Em Deus, a verdade não se opõe nem se distingue da bondade, nem estas da sabedoria, e assim por diante. Assim, uma vez que não induzem distinção por oposição, elas não podem constituir-se em supósitos de alguma personalidade.
Nas criaturas, lembra São Tomás, estas propriedades não-relativas não são subsistentes, mas são realmente distintas; uma é a verdade da criatura, outra a sua bondade, e assim por diante. Nas criaturas, a bondade, a verdade, a sabedoria e outras propriedades absolutas são acidentais. Assim, embora distintas, por não serem subsistentes não podem ser supósitos de personalidade.
No entanto, as relações imanentes, em Deus, não são acidentais (são substanciais), e, portanto, são subsistentes. Outrossim, induzem distinção real, como vimos na questão 28. Assim, a pluralidade de relações fornece os supósitos adequados para a multiplicidade de pessoas divinas.
O terceiro argumento raciocina que, se Deus é uno e simples, não pode ser quantificado – ou, como diz Boécio, “Deus não tem número”. Logo, o argumento conclui, não poderia existir uma pluralidade de pessoas em Deus.
São Tomás vai responder que esta observação é válida para qualquer aspecto não-relacional em Deus. De fato, toda atribuição absoluta em Deus se reduz à sua unidade plena e simples, e não pode ser distinta nem plural. Mas no caso das relações, a atribuição se dá sempre em um sujeito que aponta para outro. Assim, por ser uma atribuição que envolve um apontar para outro, ela não induz nenhuma composição no sujeito da relação. Aquele que aponta para outro pode ser verdadeiramente uno e simples em si mesmo. Portanto, as relações não contradizem a unidade simples de Deus. O próprio Boécio reconhece isto em sua obra, diz São Tomás.
A quarta objeção também parte da ideia de que toda quantificação envolve a possibilidade de divisão, ou seja (nas palavras da escolástica), todo número implica o todo e a parte. Logo, a ideia de que possa haver uma pluralidade de pessoas em Deus implica admitir que elas podem ser contadas, e que portanto é possível pensar em algo como o “todo” de Deus e suas partes – o que não seria possível, dadas a unidade e a simplicidade divinas. Disto o argumento conclui que não pode haver pluralidade de pessoas em Deus.
São Tomás ensina, então, que há duas maneiras de se conceber o número:
1) como ideia, em nossa mente, ele existe como abstração. Deste modo, ele é simples e absoluto, e a medida à qual ele se refere também é ideal. O número, aqui, é um ente de razão.
2) Nas próprias coisas existentes. Assim, posso contar dois homens, ou dois cavalos, e é nestes objetos da minha contagem que a quantidade está presente.
Assim, diz São Tomás, este número que existe nas próprias coisas, concretamente, implica sempre que se pode dividi-las, contá-las, medi-las. Um cavalo é menos que dois cavalos, e dois cavalos fazem parte de um conjunto que tenha três cavalos, e assim por diante.
Neste segundo sentido, diz Tomás, no sentido de que o número deve estar presente na própria coisa quantificada, a ideia de número é inaplicável a Deus. Mas no primeiro sentido, no qual se compreende o número apenas como um ente de razão, que existe na concepção intelectual, então ele é aplicável a Deus. De fato, eu não poderia quantificar a Trindade Santa do mesmo modo que quantifico um conjunto de três cavalos ou de três homens, porque cada pessoa da Trindade Santa é Deus todo. O Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. O número três, aplicado à Trindade, reflete, portanto, muito mais a limitação humana de compreendê-la e falar sobre ela do que o modo como ela é em si mesma – três, aqui, não é um número, não representa um conjunto de três coisas, mas designa, verdadeira mas imperfeitamente, o modo humano de exprimir a imanência amorosa das pessoas divinas. São Tomás promete mais sobre isto adiante.
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