No texto anterior, debateu-se um pouco sobre a substância divina a partir do seu aspecto de incomunicabilidade, ressaltando, ali, a incomunicabilidade entre a divindade e a criaturalidade; aqui, trataremos da incomunicabilidade sob outro aspecto, ou seja, como aquela característica pessoal de absoluta impossibilidade de transferência dos aspectos estritamente pessoais. É esta dimensão da incomunicabilidade que caracteriza mais agudamente a pessoa: exatamente por ser incomunicável é que a pessoa é insubstituível. Um pedreiro pode desprezar um tijolo e colocar outro no lugar; eu posso trocar o meu carro por outro melhor. Mas as pessoas são insubstituíveis. O filho, digamos, não é o pai, e a sua posição de filho é absolutamente intransferível, porque pessoal. Aquilo que é pessoal, neste sentido, é totalmente incomunicável. Isto multiplica a dignidade da pessoa humana, insubstituível por definição, e torna muito concreto aquele velho aforismo que diz: quem mata uma pessoa destrói irremediavelmente um universo. Por outro lado, e paradoxalmente, a incomunicabilidade, por implicar o mistério da irrepetibilidade e da interioridade absoluta de cada pessoa, torna possível e necessário o fenômeno da linguagem e do diálogo. Se as hipóstases são incomunicáveis como entes, devem comunicar-se como amigos, para poderem conhecer-se; e mais, esta comunicação jamais esgota o mistério. Incomunicabilidade, como veremos adiante, implica necessariamente a relação.

Há uma terceira dimensão da incomunicabilidade, que é lembrada por São João Paulo II na obra “Amor e Responsabilidade”: a dimensão da intransferibilidade da responsabilidade pelos atos pessoais. Somente a própria pessoa pode conhecer (embora, é claro, seja possível ensinar), e, principalmente, somente a própria pessoa pode querer, ou seja, escolher. No entanto, há um limite para a eleição humana: o fim último nos é dado, e não é uma questão de escolha: é o próprio Deus e não há outro. Mas somente se pode chegar a Deus de modo pessoal, isto é, conhecendo-o pessoalmente e fazendo livremente as escolhas que levam até ele.

A questão em jogo, agora, é como conciliar a ideia de que a pessoa é, por definição, incomunicável, por um lado, e, por outro lado, há em Deus três pessoas que compartilham integralmente a mesma essência divina – três que são um só Deus. E o debate será provocado pela seguinte hipótese controvertida: parece que em Deus a noção de pessoa não significa relação, mas substância.

Serão quatro argumentos objetores no sentido da hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que, devido inclusive ao tempo em que escreve, não chegou a ter uma noção de pessoa, com relação à Trindade, tão clara quanto à de São Tomás. Santo Agostinho escreveu que “Quando chamamos o Pai de ‘pessoa’, não estamos nos referindo a nada diferente da própria substância do Pai; ‘pessoa, aqui, refere-se a ele, e não ao Filho“. Disso o argumento conclui que a noção de “pessoa” se refere à própria substância do Pai, e não à sua relação com o Filho.

O segundo argumento também parte de uma citação de Santo Agostinho. O argumento começa lembrando que, quando perguntamos o “que” é (quid) uma coisa, estamos fazendo uma pergunta sobre a essência desta coisa. E Agostinho diz: “três são os que testemunham, no céu; o Pai, o Filho e o Espírito Santo. E se perguntarmos ‘Que três?’ A resposta será: ‘as três pessoas‘”. Ora, conclui o argumento, se a resposta à pergunta “Que três” é “as três pessoas “, e se as perguntas com “que” (quid) são perguntas sobre a essência, então ao respondermos a esta pergunta com a resposta “as três pessoas”, estamos admitindo, diz o argumento, que a noção de pessoa se refere à própria essência, e não à relação.

O terceiro argumento lembra que, de acordo com Aristóteles (Que São Tomás chama de “o” filósofo), uma definição é aquilo que é significado por uma noção, ou seja, a definição é o conteúdo da noção. Ora, diz o argumento, a definição de pessoa é “substância individual de natureza racional“, que vimos nos artigos anteriores. Disso o argumento conclui que a noção de pessoa significa “substância” e não “relação“.

Por fim, o quarto argumento lembra que, quando aplicada aos seres humanos e aos anjos, a noção de pessoa não se refere às relações destes seres, mas, de modo absoluto, às suas substâncias. Se, portanto, em Deus, esta noção apontasse para as relações, então ela seria uma noção totalmente equívoca, com um significado diferente quando utilizada para o Criador ou para as criaturas. Se ela não for uma noção equívoca, então ela tem que se referir sempre à substância e não às relações.

O argumento sed contra, por fim, cita Boécio, para quem toda noção que se pode aplicar a uma pessoa significa sempre uma relação. Ora, diz o argumento, nenhuma noção se aplica mais propriamente às pessoas do que a própria noção de “pessoa“. Assim, o argumento sed contra conclui que “pessoa” significa propriamente a relação.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.