Depois de estabelecer a definição de Boécio para pessoa, e de firmar o vocabulário filosófico adequado para lidar com ela, o debate agora envolve a questão mais diretamente teológica: trata-se de saber em que medida esta noção é aplicável a Deus. E a hipótese controvertida inicial afirma exatamente que ela não o é: “parece que a noção de pessoa não se aplica a Deus“. São quatro os argumentos objetores colecionados por São Tomás aqui em favor desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento objetor tem um sabor de “Sola Scriptura“, e mostra o apreço que os antigos tinham pela Bíblia. O argumento afirma, citando o pseudo-Dionísio, que ninguém deveria sequer ousar pensar em fazer alguma afirmação sobre Deus e sobre sua sublime substância, senão apenas aquilo que nos foi comunicado diretamente pelas Escrituras sagradas. Ora, diz o argumento, as Escrituras jamais aplicam o termo “pessoa” a Deus, quer no Antigo, quer no Novo Testamento. Disso, o argumento conclui que a noção de pessoa não deve ser aplicada a Deus.

O segundo argumento cita um trecho no qual Boécio resgata a origem do nome “pessoa“, que vem, segundo ele, das comédias e tragédias gregas, nas quais o ator cobria seu rosto com uma máscara (que chamavam de prósopa), que lhes ocultava as feições, mas que possuía uma cavidade através da qual a voz do ator ressoava (per-sonava) mais fortemente . De “per-sonar”, ou seja, “soar através” da máscara, surgiu a palavra “pessoa”. Disso o argumento conclui que está noção só se aplicaria a Deus, no máximo, de modo metafórico, porque tal noção seria indigna, em seu sentido próprio, para Deus.

O terceiro argumento volta àquela citação em que Boécio define substância (ou hipóstase) como “aquilo que sustenta os acidentes“. Se, para ser pessoa, é preciso ser hipóstase, e se a hipóstase sustenta os acidentes, é forçoso concluir, diz o argumento, que, uma vez que não há acidentes em Deus, a noção de hipóstase não pode convir a ele – e consequentemente nem a noção de pessoa. O argumento ainda prossegue para registrar que São Jerônimo alertava que, no campo teológico, A noção de hipóstase “esconde o veneno sob o mel”. E disto tudo o argumento conclui que não se pode aplicar a noção de pessoa a Deus.

O quarto argumento faz uma análise da noção boeciana de “pessoa”, a partir da ideia de que, mostrando que os elementos da definição não podem se aplicar a Deus, fica demonstrado a inconveniência de falar em “pessoa” quanto a Deus. Estudando os elementos da definição, o argumento faz três colocações: 1) Em primeiro lugar, a definição fala em “natureza racional“, lembra o argumento. E prossegue afirmando que, de todos os seres que têm natureza intelectual (Deus, os anjos, o ser humano), apenas a natureza intelectual do ser humano pode ser chamada propriamente de “racional”. De fato, a natureza racional é discursiva, quer dizer, depende de raciocínios, induções e deduções, pressupostos e conclusões para aprender. Nada disso se aplica a Deus: a inteligência divina não pode ser definida como racional, porque Deus não faz raciocínios. Ele simplesmente sabe. 2) Além disso, diz o argumento, a definição fala em “substância individual“, que é outra noção que não se pode aplicar a Deus – já que, como diz o argumento, as coisas individuais distinguem-se umas das outras pela matéria, que é princípio de individuação; e Deus não é material. Logo, diz o argumento, não se pode dizer que Deus é individual. 3) Por fim, o argumento lembra que a noção de “substância” envolve a ideia de um ente que sustenta os acidentes. Mas, diz o argumento, em Deus não há acidentes, logo ele não pode ser chamado de “substância“. Portanto, uma vez que os elementos da definição boeciana de pessoa não são aplicáveis a Deus, a própria noção de pessoa ser-lhe-ia totalmente inconveniente.

O argumento sed contra resgata um dado da Tradição: o chamado “símbolo” ou “confissão de fé” de Santo Atanásio. Atanásio viveu no século IV, e é tido como um grande defensor da ortodoxia da fé católica, principalmente contra os arianos, hereges que predominavam em seu tempo. Assim, o “símbolo” de Atanásio é o modo como este santo articulava e professava a fé católica, e portanto um importante testemunho de ortodoxia. Se me permitem uma digressão, eu diria que este argumento sed contra vem complementar e balancear, neste artigo, a ideia restritiva, mostrada no primeiro argumento acima, de que apenas as Escrituras seriam depósito válido da fé. Aqui, resgatando um testemunho de Tradição, o debate se amplia, quanto às fontes legítimas da fé católica.

E o que diz o Credo de Atanásio? Ele diz que “uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo”. Isto demonstra, como diz este argumento, que a noção de pessoa, ara referir-se à Trindade, tem uma história antiga na fé da Igreja, e era professada por um campeão da ortodoxia como Santo Atanásio, em pleno século IV.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.