Depois desta aula de filosofia, São Tomás passa a responder às objeções iniciais. A primeira objeção defende que “hipóstase” e “pessoa” são sinônimos, e que mesmo os gregos usavam estes termos de modo intercambiável. São Tomás responde que o sentido próprio do termo “hipóstase” envolve qualquer indivíduo substancial; no entanto, os gregos vieram realmente, de modo progressivo, a usar esta palavra para designar os indivíduos de natureza racional. Este uso vem, segundo São Tomás, da constatação de que a natureza racional dá uma nobreza especial às substâncias individuais, levando a que os gregos reservassem a noção de “hipóstase” para designar estes seres – alterando, portanto, o seu significado original.
O segundo argumento parte do fato de que nós afirmamos que há, em Deus, três pessoas ou três subsistências, tomando estes termos como sinônimos. São Tomás mostra, aqui, toda a complexidade terminológica da questão, ao introduzir a informação de que os gregos costumam afirmar que há em Deus três “hipóstases”; neste caso, diz São Tomás, deveríamos traduzir “hipóstases” por “substãncias”, que seria o termo do vocabulário latino ordinariamente usado para esta tradução. Mas, no caso concreto, a noção de “substância”, na terminologia latina, guarda uma ambiguidade (entre “substância primeira” e “substância segunda”, que já vimos anteriormente), passou-se a traduzir “hipóstase”, neste caso, por “subsistência”, com referência às pessoas da Trindade. Então o problema volta a ser o da sinonímia entre “hipóstase” e “pessoa”, que São Tomás já explicou na resposta do argumento anterior.
O terceiro argumento objetor afirma que o termo “ousia” equivale a “essência”, e significa “um composto de matéria e forma”. E disto o argumento prossegue, afirmando que “um composto de matéria e forma” é um indivíduo substancial, que se pode designar como “hipóstase” ou “pessoa”. E conclui que todos estes termos seriam simplesmente sinônimos.
Mais uma vez, São Tomás vai dar uma aula da distinção entre os termos lógicos e os termos ontológicos; já sabemos que a lógica e a ontologia não são dois mundos separados, para São Tomás, mas certamente são coisas distintas – o reino dos entes reais e o reino dos entes de razão.
É preciso, pois, estabelecer com clareza o que significa a noção de “essência”. São Tomás nos ensina que a noção “essência” significa propriamente “aquilo que é significado pela definição”, e isto diz respeito aos princípios específicos, mas não aos individuais. Por exemplo, a essência do ser humano é “animal racional”, e não este ou aquele animal racional, tal como Sócrates ou Napoleão Bonaparte.
No caso dos seres materiais, como os humanos, a essência inclui o fato de terem matéria e forma, isto é, serem compostos de alma e de corpo; deste modo, a noção de matéria está incluída na essência do humano: ser espiritual de carne e osso é certamente da essência da humanidade, diz São Tomás, mas não é da essência da humanidade ter concretamente esta carne, este osso e esta alma que compõem, digamos, Sócrates, Platão ou Cícero. Mortos estes indivíduos, o ser humano continua a ter, por essência, uma alma, carne e osso. Mas certamente Sócrates, Platão e Cícero já não as têm mais.
Mas ao ser que tem concretamente esta carne, estes ossos e esta alma são, concretamente, chamados de “hipóstase” ou “pessoa”, no caso dos seres materiais. Isto significa que a noção de “essência” não é sinônima da noção de “pessoa” – nesta última, há uma concretude existencial que falta àquela. São Tomás nos lembra ainda que, nos seres simples (como é o caso de Deus e dos anjos) esta diferença não existe, mas o fato de que ela exista para os seres materiais é suficiente para estabelecer uma diferença de significado entre “essência” e “pessoa”.
Agora São Tomás vai começar a responder aos argumentos sed contra, o que não é muito comum na Suma. Mas às vezes se faz necessário respondê-los, a fim de reencontrar o equilíbrio que estes argumentos quebraram ao contrabalançar os argumentos objetores de forma que pode ser exagerada.
O primeiro argumento diz que só os gêneros e as espécies subsistem, enquanto os indivíduos sustentam. E o argumento prossegue, dizendo que a subsistência seria uma característica própria das categorias lógicas dos gêneros e das espécies, enquanto sustentar (que origina a noção de substância) seria próprio dos indivíduos. E daí conclui que, uma vez que as pessoas são sempre indivíduos (substâncias ou hipóstases, portanto), e subsistências são sempre gêneros e espécies, então estas palavras não seriam sinônimas entre si.
São Tomás aproveita a oportunidade para dar uma aulinha de metafísica; sim, as espécies e os gêneros subsistem, mas apenas por manifestarem-se nos próprios indivíduos que pertencem àquele gênero e àquela espécie. Quer dizer, São Tomás nos explica que apenas os platônicos imaginam que haja um reino em que as espécies e os gêneros subsistam como entidades reais, existencialmente separadas dos indivíduos que manifestam concretamente a identidade com aquele gênero e aquela espécie. Haveria, para os platônicos, uma espécie de reino separado onde a ideia de “animalidade” existiria separada de qualquer animal individual, ou a ideia de “felinidade” subsistiria à parte de qualquer gato, como uma entidade concreta.
Mas São Tomás, que respeita a visão de mundo aristotélica, explica que os gêneros e as espécies subsistem naquelas substâncias individuais que representam concretamente aquele gênero e aquela espécie. Assim, a animalidade, como gênero, subsiste em cada um dos animais que efetivamente existem por aí, a humanidade, como espécie, subsiste em cada um dos humanos que caminha por aí. Não é possível, pois, separar a subsistência, por um lado, das substâncias primeiras que fazem-nas subsistirem, por outro. Além disso, ele nos explica que o termo substância convém aos indivíduos por outra razão: porque eles sustentam os acidentes que portam – a ideia de substância, portanto, relaciona os indivíduos com as categorias de acidentes, e a ideia de subsistência os relaciona com as categorias de gênero e espécie. Em todo caso, a ideia de pessoa descreve sempre um indivíduo, em sua concretude existencial; relaciona o indivíduo com a sua liberdade existencial para buscar, por iniciativa própria, os seus fins.
O segundo argumento sed contra afirma que Boécio dá à expressão “hipóstase” uma conotação material, e à ousiousis (subsistência) uma conotação formal. Logo, elas não seriam sinônimas entre si nem com a noção de pessoa.
São Tomás vai logo fazer um esclarecimento: estamos, aqui, no campo dos indivíduos que são compostos de matéria e forma (e, portanto, não estamos falando nem dos anjos, que são compostos de essência e existência, nem de Deus, que não tem composições).
No campo dos indivíduos materiais, diz São Tomás, Boécio associa a noção de substância à matéria. De fato, como vimos na resposta ao argumento anterior, é próprio da noção de substância a sua relação com os acidentes. Ora, diz São Tomás, os acidentes são sempre inerentes aos indivíduos em razão de sua matéria: é apenas porque eu sou material que eu estou aqui e não lá, que sou negro e não branco, que sou gordo e não magro, que tenho esta idade e não outra, que tenho estes filhos e não outros. Por outro lado, é por causa do elemento formal em mim que pertenço a esta espécie e não a outra, ou que o gênero animal subsiste em mim e não o gênero vegetal. É por isto, diz São Tomás, que Boécio atribui a noção de substância (ou hipóstase) à matéria, e a noção de subsistência (ou ousiousia) – não porque elas apontem para a matéria sem a forma, ou vice-versa, mas porque sua noção se relaciona com a razão da matéria ou a razão da forma nos indivíduos. Em todo caso, a noção de pessoa envolve e engloba estes dois aspectos – a razão formal da racionalidade e a razão material do existir concreto.
Vê-se, portanto, a riqueza da noção de pessoa, que não está na metafísica pré-cristã, mas que São Tomás, herdando toda uma reflexão riquíssima sobre esta noção, faz encaixar ali com muita doçura e muito cuidado. São Tomás não é um revolucionário no sentido destruidor da palavra, ele não tem a pretensão de ser considerado original pela destruição do que recebeu; ao contrário, como um joalheiro, ele insere com cuidado suas próprias gemas preciosas nos engastes das joias que recebe da Tradição.
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