Postos, portanto, todos os elementos para a discussão da conveniência da definição boeciana, com os respectivos argumentos objetores e a resposta sintetizadora de São Tomás, é hora de enfrentar os argumentos objetores, extraindo deles o que possam ter de verdade e afastando aquilo que possa configurar pedra de tropeço.
O primeiro argumentos objetor parte da ideia de que as definições se referem sempre ao universal, isto é, elas são sempre abstratas, genéricas, porque aquilo que é individual, concreto e singular não pode ser objeto de definição. Posso definir os cães como “animais domésticos que latem”, mas esta definição não é a definição de minha cadelinha Pipoca, mas dos cães em geral.
São Tomás vai responder que, de fato, as definições não se referem concretamente às coisas singulares; no entanto, diz ele, aquilo que constitui a essência comum da singularidade pode ser objeto de definição! É mais fácil entender isto com um exemplo.
Não há definição possível para a minha esposa; ela é o que é, uma pessoa concreta com seu mistério e sua dignidade. Mas eu posso definir a esposa como a pessoa única e concreta que entra numa relação de exclusividade e complementaridade, com abertura à vida, com um único marido. Isto constitui a essência comum da singularidade das esposas. São Tomás vai lembrar outro exemplo: a definição de “substância primeira” como coisa singular, concreta, existente, que examinamos no texto anterior. É deste tipo, diz São Tomás, a definição que Boécio propõe para pessoa: é uma definição sobre a essência comum da singularidade.
O segundo argumento parte da ambiguidade da noção de “substância”, e seu conflito potencial com a noção de “individual”. Se o conceito fala de substância primeira, diz o argumento, então a aposição de “individual” é redundante, porque a substância primeira é sempre individual. Se fala de substância segunda, então a alusão a “individual” é contraditória, porque as substâncias segundas não podem ser individuais.
São Tomás vai responder que alguns interpretam esta passagem como referindo-se à substância primeira, que é a hipóstase, ou seja, a própria coisa em sua concretude existencial. Mas não haveria redundância em acrescer a noção de “individual”; de fato, diz São Tomás, a ideia de “substância primeira” exclui de seu significado as partes das coisas, e por isto uma mão, por exemplo, não é uma hipóstase, porque é apenas uma parte de uma coisa, e não uma coisa inteira. Por outro lado, a definição de “ser humano”, referindo-se ao conjunto dos seres humanos, também não se constitui numa hipóstase, porque lhe falta concretude existencial individual. Então, qual o sentido de acrescentar a noção de “individual” à noção de “substância” nesta definição boeciana de pessoa?
São Tomás diz que estamos pensando, aqui, no caso concreto de Jesus Cristo. A humanidade de Jesus é uma substância primeira, mas é assumida pelo Verbo divino e por isso não é, em si mesma, um “indivíduo”. Ela se torna um indivíduo na sua unidade hipostática com o Verbo, que assume e integra em si aquela substância humana. Assim, diz São Tomás, acrescer “individual” torna claro que a substância humana de Jesus, recebida pelo Verbo, não é, isoladamente, pessoa, mas o é quando unida ao Verbo numa individualidade superior. O acréscimo de “individual” exclui a possibilidade de que uma substância primeira “assumível” por um ser ainda mais digno seja, em si mesmo, pessoa. Neste caso, diz São Tomás, a noção de “substância individual” faz a função de “substância primeira” sem permitir nenhuma ambiguidade quanto à pessoa de Cristo.
Poderíamos meditar aqui sobre a nossa relação com o Espírito Santo, que não é um invasor da nossa pessoalidade, mas a integra numa síntese superior. O Espírito Santo nos completa e liberta, como o Verbo completa a pessoa divina de Jesus… mas esta é apenas uma especulação nossa.
A terceira objeção critica a suposta mistura entre o lógico e o ontológico nesta definição, afirmando que palavras “intencionais”, ou seja, que designam meras intenções lógicas, não devem compor as definições – por exemplo, não podemos definir o ser humano como uma espécie de animal racional” porque a definição de “ser humano” não pode conter a palavra “espécie”. Assim, uma vez que a palavra “indivíduo” designa uma intenção lógica, não deveria compor a definição de pessoa.
A resposta de São Tomás é interessante: ele começa explicando que a inteligência humana não consegue conhecer diretamente as substâncias e suas características intrínsecas, capazes de especificá-las. Assim, recorremos muitas vezes aos acidentes para especificar as substâncias. Para distinguir, por exemplo, os gatos dos cães, dizemos que estes latem e aqueles miam; mas estamos usando, aqui, diferenças acidentais (embora tratem-se de acidentes próprios) para distinguir seres que nós sabemos que são substancialmente diferentes – falta-nos, porém, a habilidade de verbalizar a diferença substancial entre a “felinidade” e a “canilidade” diretamente.
No caso da definição de pessoa, há uma dificuldade adicional: a noção de pessoa deve incluir seres tão substancialmente diversos quanto as pessoas divinas, os anjos e os humanos.
As nossas limitações humanas, portanto, nos autorizam a usar até mesmo termos intencionais para compor a definição de uma realidade que para nós é tão complexa de descrever. Assim, diz São Tomás, a palavra “individual” entra nesta definição para esclarecer que a subsistência das “pessoas”, sejam humanas, angélicas ou divinas, dá-se sempre de modo particular, embora a rigor a realidade da “pessoa” possa transcender a própria noção de “substância individual” – como no caso de Jesus Cristo.
O quarto argumento objetor parte da ideia de que a noção de “natureza”, descrevendo o princípio intrínseco de mudança, seria inadequado dentro do conceito de pessoa – uma vez que este conceito deve aplicar-se às pessoas divinas, nas quais não há mudança.
São Tomás reconhece, em sua resposta, que a noção de natureza, em Aristóteles, designa originalmente a geração dos seres vivos (“natureza” tem a mesma raiz de “nascer” e “nato”). Assim, uma vez que o nascimento dos seres vivos implica reconhecer que eles se originam de um princípio intrínseco que os forma e os leva a ser assim como são (A natureza dos cães leva a que eles tenham cãezinhos como filhotes, como a natureza dos gatos faz com que gerem gatinhos), a filosofia estendeu a noção de natureza a todo princípio intrínseco de qualquer mudança. Esta é a definição aristotélica de “natureza”, diz São Tomás.
E mais, este princípio pode ser material ou formal – assim é que tanto o gelo quanto o vapor têm em si a natureza material da água, mas sob a forma de sólido ou gás, respectivamente. E disto a noção de “natureza” estendeu-se ainda mais, para designar a essência, naquilo que especifica o próprio ser. É neste sentido que a definição boeciana de pessoa usa a noção de natureza. Usar a noção de “essência” para falar de uma ideia que se estende a tantos seres essencialmente tão diferentes entre si como humanos, anjos e pessoas divinas seria inadequado, mas “natureza”, aqui, pode descrever adequadamente a diferença específica das “pessoas” relativamente aos seres não pessoais.
A quinta objeção afirma que a alma humana separada do corpo seria uma substância, e não um mero acidente. Ademais, é um indivíduo – é a alma, digamos, de João, e não de Pedro. E indiscutivelmente mantém suas capacidades racionais. Logo, atende a todos os requisitos da noção de “pessoa” de Boécio; mas não é uma pessoa. Assim, o argumento conclui que esta definição seria inadequada, porque há coisas que satisfazem a todos os seus requisitos mas não são pessoas.
São Tomás vai explicar com muita precisão que, embora a alma seja algo da espécie humana, e embora tenha uma tendência natural à união com o corpo, ela não é uma substância primeira ou hipóstase, mas apenas uma parte daquele ser que só encontra sua inteireza ontológica sendo corpo e alma unidos naturalmente. Uma alma separada é só uma parte de um ser humano. O ser humano é essencialmente composto por corpo e alma, e por isto a alma separada não atende aos requisitos da definição boeciana para ser considerada “pessoa”. Somos “pessoas” enquanto estamos caminhando vivos sobre a terra. Seremos pessoas de novo na ressurreição. Mas na morte, esperando a ressurreição, subsistimos, mas não somos pessoas.