São Tomás passa agora a responder às objeções iniciais.
A primeira objeção, como lembramos, sugere que sempre haveria relação real entre o conhecedor e o conhecido, bem como entre o que quer e aquilo que é querido. Estas relações, entre Deus e tudo o que ele conhece e tudo o que ele quer, as inúmeras coisas que realmente existem, seriam relações reais não compreendidas nas quatro já citadas. Logo, para o argumento, haveria mais relações em Deus do que as quatro citadas.
São Tomás diz que Deus tem apenas um objeto de conhecimento: ele mesmo. Assim, em Deus, o que ele conhece e o que é conhecido não são uma quantidade inumerável de coisas, mas uma coisa só: o próprio Deus. As criaturas, Deus conhece ao conhecer-se, como já debatemos quando estudamos a questão 14, à qual devemos voltar se quisermos aprofundar este ponto. Assim, não são inúmeras, mas uma só, em Deus, a relação entre conhecedor e conhecido. E mais, não se trata de uma relação real, porque, em Deus, a relação entre conhecedor e conhecido é a relação de si para si mesmo, porque aquele que conhece e aquilo que é conhecido são exatamente a mesma coisa. E não há relação real entre alguma coisa e ela mesma, apenas uma relação lógica, ou seja, de razão.
Do mesmo modo se pode dizer quanto àquilo que Deus quer. Só há um objeto digno de, por si mesmo, atrair inexoravelmente a vontade divina, por conter em si todo o bem: é o próprio Deus. Assim, tampouco há uma relação real, em Deus, entre o que ama e o que é amado; são a mesma coisa, e portanto esta relação é apenas de razão.
E onde estão, enfim, as relações reais imanentes em Deus? São Tomás passa a nos explicar: quando um ser humano conhece uma pedra, estão em jogo o nosso intelecto, a própria pedra e a forma inteligível da pedra, que, por abstração, assimilamos em nosso intelecto; esta abstração que inteligimos é o “verbo mental” da pedra. Um é o intelecto, outra é a pedra, outra é a nossa intelecção da pedra. Analogicamente, portanto, podemos compreender que, em Deus, mesmo quando o que conhece e o conhecido são a mesma coisa, o verbo emanado pelo conhecimento de si mesmo, em Deus, é o gerado, e portanto, a relação que se gera por este conhecimento é real. O mesmo se pode dizer com relação ao espírito: mesmo admitindo que, em Deus, o que quer e o querido são a mesma coisa, o próprio querer, este “suspirar pelo bem eterno” de Deus em Deus, que tem a mesma extensão do que quer e do querido, estabelece uma relação real com eles: o suspiro do querer recíproco, completo e eterno do Pai e do Filho. O querer deles não é o Pai, nem o Filho, mas tem a mesma essência divina que eles e aponta para eles.
A segunda objeção vai na mesma linha: se a geração do Verbo divino se compreende de modo analógico à geração do verbo em nós que surge quando conhecemos as coisas, então, citando Avicena, o argumento diz que esta é uma relação que tende ao infinito; de fato, quando conhecemos alguma coisa, somos capazes de refletir sobre este conhecimento, e conhecer que conhecemos, e novamente refletir sobre o conhecimento de que conhecemos o que conhecemos, e assim sucessivamente. E disto o argumento conclui que não se pode limitar as relações reais em Deus a apenas quatro. Mas São Tomás vai responder com grande simplicidade: em nós, a inteligência atua com sucessividade: uma vez que somos capazes de lidar com apenas um evento por vez, então em nós o fenômeno da reflexão leva-nos a este efeito, de que em nosso conhecimento a relação tende ao infinito. Mas Deus conhece tudo por um só e mesmo ato, em que tudo é completude e simultaneidade, e que esgota o conhecimento. Assim, em Deus não ocorre esta tendência ao infinito no intelecto, tal como ocorre em nós. Não há analogia possível, aqui.
O terceiro argumento objetor lembra das ideias que existem em Deus, como arquétipos de todas as coisas, e que já debatemos quando estudamos a questão 15. O argumento resgata a noção de que cada ideia se distingue da outra pelo seu objeto, ou seja, por relacionar-se com as coisas às quais se referem – e, uma vez que as ideias são eternas em Deus, então estas relações entre as ideias e as coisas são eternas em Deus – disso o argumento conclui que há mais do que quatro relações eternas em Deus.
São Tomás responde fazendo uma distinção sutil e interessantíssima; as relações entre as ideias e seus objetos são conhecidas por Deus. Elas, portanto, estão em Deus como coisas conhecidas, e nós já sabemos que Deus conhece por um ato simples todas as coisas em si mesmo, por conhecer a si mesmo. Logo, deste conhecimento não se pode deduzir que há várias relações em Deus, mas que Deus conhece várias relações, ao conhecer-se.
O quarto e último argumento objetor cita as relações de igualdade e semelhança, lembrando que elas existem em Deus desde a eternidade, e que portanto não haveria apenas quatro relações eternas. São Tomás dirá que a igualdade e a semelhança em Deus, não constituem relações reais, e nos deixa no suspense: promete explicar mais sobre este tema num momento posterior. Aguardemos.
Neste artigo, há uma resposta também ao argumento sed contra, como existem em alguns dos artigos da Suma. Este argumento sed contra , aqui, é aquele que equipara as relações aos vínculos, lembrando a afirmação aristotélica de que “o caminho que vai de Tebas a Atenas é o mesmo caminho que vai de Atenas a Tebas”. Portanto, teríamos que falar na relação de paternidade como relacionando pai e filho, e na de espiração relacionando-os ao Espírito Santo. Haveria, então, de acordo com o argumento sed contra, apenas duas relações em Deus.
São Tomás não nega que o vínculo seja o mesmo, unindo o Pai e o Filho. De fato, é o mesmo caminho que vai de Atenas a Tebas e vice-versa. Mas as relações são diferentes. Uma é a daquele que é gerado, que aponta para o que o gerou. E outra é a daquele que gerou, olhando para o que é gerado. Esta relatividade entre eles, que os coloca em polos opostos, também os diferencia. São Tomás conclui dizendo que somente poderíamos equiparar os vínculos às relações se houvesse a possibilidade de ligar duas realidades absolutas – mas isto não é possível, porque não existe um meio entre absolutos. É próprio do que é absoluto não vincular-se. Portanto, aquele que sai de Tebas para Atenas está numa situação relacional diferente do que sai de Atenas para Tebas.
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