Vimos nos artigos anteriores que há em Deus relações reais, e realmente distintas entre si. Agora debateremos quantas e quais são essas relações. É bom lembrar que, quando falamos em relações aqui, não estamos nos reportando ao próprio vínculo, como se ele fosse uma realidade em si mesmo. Em Deus não há a “paternidade ” como se fosse uma realidade acima e além do próprio Pai e do próprio Filho. Isto seria uma visão platônica de Deus, que pressuporia uma existência de um vínculo subsistente para além da própria essência divina, quando sabemos que não há nada para além de Deus. Em Deus há o Pai e o Filho, e eles são substancialmente a própria paternidade e filiação que os une.

Então o que se debate agora é quantas relações há em Deus. E a hipótese controvertida, para iniciar o debate, é a de que talvez não haja em Deus apenas quatro relações reais, ou seja, haveria outras relações reais além da paternidade, da filiação, da espiração e da procissão. O artigo apresenta quatro argumentos objetores, no sentido da hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento lembra que Deus conhece e quer. Mas conhecer e querer significa, prossegue o argumento, estabelecer uma relação real entre o conhecedor e o conhecido, entre o amante e o amado; e estas relações reais não estão contidas naquelas quatro antes citadas. Disto o argumento conclui que há mais relações reais em Deus do que as quatro mencionadas.

O segundo argumento lembra que o verbo procede do Pai como um ato de conhecer-se; em seguida parte da ideia de que, segundo Avicena, estabelecemos uma relação de conhecimento com cada coisa que chegamos a conhecer. Haveria, portanto, segundo este argumento, tantas processões inteligíveis reais em Deus quantas fossem as coisas que ele conhece. E o argumento conclui que, portanto, haveria em Deus incontáveis relações reais.

O terceiro argumento objetor tem um sabor neoplatônico, ou melhor, da genial síntese medieval entre Aristóteles e Platão; parte da ideia de que, na mente de Deus, as ideias de todas as coisas estão guardadas desde toda a eternidade. E elas se diferenciam entre si por relacionarem-se com seus respectivos objetos, e estas relações, entre as ideias na mente de Deus é seus objetos, são relações eternas. É assim que a ideia de “equino“, relacionada aos cavalos, é diferente da ideia de “felino“, que tem os gatos por objeto. Se é assim, diz o argumento, então há inúmeras relações eternas em Deus, conclui o argumento, e não apenas quatro.

Por fim, O último argumento objetor afirma que há outras relações eternas em Deus; cita as relações de igualdade, semelhança e identidade, que são, diz o argumento, espécies de relações e existem eternamente em Deus. Logo, conclui o argumento, não são apenas quatro as relações imanentes em Deus.

O argumento sed contra traz uma posição exagerada no sentido contrário, que São Tomás corrigirá mais à frente. Ele cita Aristóteles, que afirma, no Livro III da Física, que o mesmo caminho que vai de Atenas a Tebas é também o caminho de Tebas a Atenas; logo, a mesma relação que une o Pai ao Filho, é que, quando analisada do ponto de vista do Pai se chama Paternidade, também une o Filho ao Pai, e não se constitui em outra relação quando, nomeada a partir do ponto de vista do Filho, passa a chamar-se Filiação. Por isto, o argumento conclui que haveria menos do que quatro relações reais em Deus.

Passamos a estudar a resposta sintetizadora de São Tomás. Ele vai começar dando uma de suas preciosas lições de filosofia. É nos ensina que, para Aristóteles, há três possíveis fundamentos para as relações:

1. A comparação de quantidades. É quando eu digo que alguma coisa é maior ou menor do que outra, que uma coisa é o dobro da outra, ou a metade de outra. Relaciono, assim, estas coisas. Quando eu digo, por exemplo, que alguém é mais alto do que eu, ou tem o dobro do meu peso, eu o estou descrevendo com relação a mim mesmo, porque ninguém é maior ou menor do que ele mesmo. Há sempre uma relação subentendida em cada medida. Se alguém mede dois metros de altura, isto significa que a altura dele é duas vezes mais extensa do que o padrão da unidade métrica, que é, por seu turno, uma fração da linha do Equador que está depositada na forma de uma régua de platina num museu francês.

2. A ação e a paixão. Ação é aquilo que faço, paixão é aquilo que alguém ou alguma coisa faz em mim. Assim, entre o patrão e o empregado há uma relação de ação e paixão: o patrão age, ordenando, é o empregado recebe a ação, obedecendo. Entre pai e filho há o Pai que age gerando e o Filho que recebe o ser, sendo gerado. Em cada relação deste tipo há, portanto, uma extremidade ativa e uma passiva.

O primeiro caso, que é a relação pela medida (ou pela quantidade, para usar a linguagem clássica), é inaplicável a Deus. Não há medida possível para Deus. Ele é infinito, absoluto e incomparável, está além de toda quantificação, e portanto é absoluto neste aspecto. Deus é grande sem quantidade, diz Santo Agostinho. Não há relatividade aqui. O único critério de relatividade em Deus seria, portanto, o da ação – e estamos falando aqui de uma ação imanente ao próprio Deus. Sim, porque, como já vimos, com relação à criação, Deus é absoluto. Ele não é simplesmente o criador desta criação; ele é o absoluto criador, e, portanto, não há em Deus relação real com as criaturas – embora as criaturas tenham uma relação real com Deus, porque são produto dele. Assim, a única relação real imaginável em Deus é a relação por ação imanente, que é exatamente a que estamos debatendo aqui.

Como vimos nos artigos anteriores, só há duas processões que atendem a estes parâmetros, imanentes em Deus: a procissão do Verbo e a processão do Amor. A questão agora é determinar quantas relações decorrem destas processões – lembrando que a noção de relação aqui não é igual à noção de vínculo, mas “relação” é aquilo que, no sujeito, aponta para o outro. Assim, em cada vínculo há pelo menos duas relações. Este é o caso das processões divinas: cada uma dá origem a duas relações opostas: a do que origina e a do que é originado.

São Tomás passa a analisar a processão do Verbo, que, como já vimos, chama-se geração, por analogia com a geração das criaturas vivas. Nos seres vivos, aquele que gera se chama pai, e a sua relação com o gerado é chamada de paternidade. Aquele que é gerado chama-se filho, e a relação que ele mantém com o gerador chama-se filiação.

No caso da processão do Amor, já vimos em debates anteriores que ela não tem nome especial (diferentemente da processão do Verbo, que se chama analogicamente geração) nem as relações que dela decorrem têm nome específico. São Tomás nos ensina que a relação que origina se pode chamar de “espiração”, e à relação do que é originado pode se chamar “processão” em sentido estrito. São Tomás adverte, no entanto, que estes nomes são muito mais apropriados para descrever a origem e o resultado do originar e ser originado do que à própria relação. Como diz o Credo Niceno-Constantinopolitano, o que é espirado chama-se Espírito Santo, e aqueles que o espiram são o Pai e o Filho.

No próximo texto veremos as respostas de São Tomás às objeções iniciais.