No texto anterior, ficaram estabelecidos os termos do debate sobre a hipótese controvertida deste artigo, que é a de que as relações que existem em deus não se distinguem realmente umas das outras. Examinaremos agora a resposta sintetizadora de São Tomás.

Ele começa logo estabelecendo um princípio básico para compreender esta discussão: quando alguém atribui alguma coisa a alguém, ele está atribuindo tudo o que diz respeito àquela coisa. É mais fácil compreender isto com um exemplo: quando digo, por exemplo, que o ser humano é um animal, eu estou atribuindo a natureza de “animal” ao ser humano; isto significa que estou atribuindo ao ser humano tudo o que diz respeito à natureza animal, tudo o que decorre dela, tudo o que a compõe. Se é próprio do animal ter vida, ter crescimento, ter reprodução, ter sensibilidade, então, ao declarar que o ser humano é um animal, declaro necessariamente que ele tem todas estas características. Com isto, declaro que a corporeidade, por exemplo, é necessariamente parte da natureza humana, porque é parte da natureza animal – e retiro qualquer possibilidade de imaginar que o ser humano possa ser definido como “um ser espiritual”, no sentido de ter uma realidade ontológica completa apenas em seu espírito (e ocupar acidentalmente um corpo, com o qual não teria identidade substancial). Se o ser humano é um animal, seria um erro contra a razão imaginar que ele possa ser uma espécie de “fantasma numa máquina”, ou mesmo um ser puramente espiritual que eventualmente se “encarna” para evoluir. Ao atribuir-lhe a natureza animal, atribuo ao ser humano, substancialmente, tudo o que é próprio desta natureza.

Assim, quando afirmo que a relação em Deus é real, diz São Tomás, devo estar pronto para atribuir a Deus as relações em toda a sua significação. Por isto, se digo que em Deus há realmente relações, estou necessariamente afirmando que nele existe 1) a referência ao outro e 2) a oposição real entre aqueles que ocupam os extremos da relação. E São Tomás conclui: admitir que há, nas relações internas da Trindade, uma oposição real entre os que ocupam seus extremos é admitir que a distinção entre eles é real. Assim, o próprio fato de que a relação é real leva à necessária admissão de que a oposição entre os relacionados é real e, por consequência, que eles são realmente distintos entre si. Assim, diz São Tomás, eles são realmente unos em sua realidade absoluta – que é a única essência divina – mas realmente distintos em sua relatividade.

Portanto, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só e o mesmo Deus, absolutamente. Mas a geração que relaciona o Pai com o Filho faz com que o Filho seja realmente distinto do Pai, e o Pai, realmente distinto do Filho, uma vez que o Pai aponta para a existência de um Filho e o Filho só existe porque há um Pai. É a relação quem determina esta distinção – e é por isto que os antigos afirmavam que em Deus as relações são subsistentes, e constituem as Pessoas. Teremos oportunidade de continuar este debate em ouros artigos mais adiante.

Passemos às respostas que São Tomás dá às objeções iniciais, e que sempre nos enriquecem muito. A primeira objeção, como lembramos, é aquela que lembra do princípio lógico que diz que se duas coisas são idênticas a uma terceira, então são necessariamente idênticas entre si, para concluir que não há como estabelecer distinção real entre as relações, em Deus.

São Tomás responde que este princípio (estabelecido pelo próprio Aristóteles na sua “Metafísica”) se aplica quando há uma distinção que é, ao mesmo tempo, real e de razão; e dá o exemplo da “túnica” e da “vestimenta”: ambas são idênticas a “roupa”, e ambas têm a mesma razão, ou seja, vestir.

Mas, mesmo na realidade criada, quando a distinção se dá na própria razão do que define aquilo que está sendo comparado, então a identidade real não implica uma identidade de razão, e o princípio não se aplica; e ele apresenta o exemplo de uma coisa que se move. Imaginemos duas bolas de bilhar,uma branca que estava em movimento, e uma preta que estava parada, colidindo, e em seguida, a branca, que estava parada, passa a mover-se. Estamos falando de um único e mesmo movimento, que envolve as duas bolas. Mas, com relação àquela que estava em movimento em primeiro lugar e provocou o movimento da outra, falamos que o movimento aqui estudado é uma “ação”, ou seja, esta bola ativamente causou o movimento da outra. Quanto à que estava parada e se moveu, trata-se de um sofrer o movimento, de uma “paixão”, no sentido de que ela foi movida, recebeu o movimento a partir da outra bola, e é, portanto, o lado passivo da relação. Neste caso, o mesmo movimento real dá origem a relações que não são idênticas entre si em suas razões.

Quanto à imanência divina, prossegue Tomás, nela, por exemplo, a paternidade tem a mesma essência que a filiação, mas uma e outra estão na relação sob razões diversas, que implicam referências opostas – não há, portanto, identidade entre estas relações. O princípio lógico citado não se aplica aqui, conclui Tomás.

O segundo argumento objetor lembra que também o “poder divino” e a “bondade divina” distinguem-se da essência divina por uma distinção de razão, quer dizer, não são mais do que a própria essência divina sob nomes diferentes. É neste sentido que São Tomás nos diz que, em Deus, o poder e a bondade “distinguem-se nominalmente da essência divina”. O argumento prossegue, então, para dizer que também o “Pai” e o “Filho” somente se distinguem da essência do mesmo modo, nominalmente. E conclui afirmando que, do mesmo modo que o poder divino não é realmente distinto da bondade divina, então o Pai tampouco é realmente distinto do Filho.

São Tomás dá uma resposta curta e precisa: a comparação não se sustenta, porque nem a bondade nem o poder divinos trazem em suas respectivas noções a ideia de “oposição”, que determina a distinção real entre aqueles que ocupam seus extremos. Mas a noção de relação traz esta implicação, e, portanto, permite falar em distinção real quanto às respectivas extremidades da relação.

Por fim, o terceiro argumento objetor lembra que a única distinção real que se pode admitir em Deus é a distinção proveniente da relação de origem. De fato, Deus não tem quantidade, de modo a que se pudesse afirmar que algo nele é “maior do que” outra coisa. Não há relações de quantidade em Deus, portanto. Tampouco se pode imaginar que Deus possa ser o passivo receptor de uma ação alheia, para que se possa estabelecer nele uma “relação de paixão” (como se disséssemos que Deus foi criado, estabelecendo uma relação com um suposto “criador” acima dele). Restam, então as relações provenientes da ação, e a única relação por ação imanente possível seria aquela de origem: o Pai origina o Filho, os dois originam o Espírito Santo. Mas, prossegue o argumento, não se pode dizer que a relação paterna se origina da relação filial, ou que a relação de processão se origina da relação de geração, porque, mesmo que estejamos certos de que uma processão divina se origina de outro, uma relação divina não se origina da outra. Assim, o argumento conclui que, uma vez que as relações divinas não provêm uma da outra, então não há como especificar nenhuma distinção real entre elas. Argumento sutil, difícil até de acompanhar.

Mas não para São Tomás. Ele vai responder com simplicidade e precisão, dizendo que, de fato, as relações em si não originam nem procedem umas das outras, mas implicam, por sua própria noção, a oposição entre aquilo que relacionam; aquilo que se relaciona, aqui, na intimidade de Deus, é exatamente aquilo que está para o outro como o que origina está para o originado. Assim, uma vez que o que está em jogo é exatamente a oposição real entre os polos destas relações de originar e ser originado, então a objeção não procede, e a distinção entre as relações, em Deus, é real, a partir da oposição entre elas.