Já sabemos, portanto, que as relações em Deus são reais e são substanciais, quer dizer, não são acidentes, mas pertencem à sua essência mesma. Não podemos confundir esta discussão com aquela travada no artigo 1 desta mesma questão. Ali, o que estava em jogo era a realidade da própria relação, em Deus; está estabelecido, desde então, para nós, com clareza, que as relações, em Deus, são reais. O que se quer debater aqui é outra coisa: dado que as relações em Deus são reais, então serão reais também os extremos destas relações? Como poderíamos conceber, dentro mesmo de Deus, critérios reais de distinção entre os polos opostos das relações, se estas extremidades são de essência divina?

A pergunta agora é: se as relações reais se caracterizam por opor coisas distintas entre si, fazendo-as apontar umas para as outras, como alguma coisa poderia ser realmente relacionada com outra, de modo a se opor como extremidade de uma relação, e ao mesmo tempo compartilhar a mesma essência? Como haveria uma distinção real entre os polos de uma relação em que as coisas opositoras têm a mesma essência, e na qual não há acidentes possíveis para criar alteridade?

A hipótese controvertida, proposta para debate agora, é exatamente esta: parece que estas relações existentes em Deus não se distinguem realmente. E São Tomás coleciona três argumentos no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento tem natureza lógica, e parte do princípio de que duas coisas que são idênticas a uma terceira coisa são necessariamente idênticas entre si, segundo a lógica. É fácil visualizar isto: se esta coisa “x” que eu vejo é idêntica a uma laranja amarela, e aquela coisa “y” ali é idêntica a uma laranja amarela, então necessariamente “x” é idêntica a “y”, porque ambas são laranjas amarelas.

Ora, diz o argumento, se em Deus o Pai é idêntico a Deus, e o Filho é idêntico a Deus, então o Pai é idêntico ao Filho, e eles não se distinguem realmente. Assim, o argumento conclui que, em Deus, não haveria distinção real entre os polos opostos das relações divinas imanentes.

O segundo argumento lembra que também o poder divino e a bondade divina são distintas da essência divina, mas apenas nominalmente, ou seja, não são outras coisas, mas a própria essência divina vista sob outras razões. Assim, uma vez que o fato de que a potência de Deus e a bondade de Deus, embora tenham nomes diferentes, não se distinguem realmente em Deus, o argumento conclui que o fato de que a paternidade e a filiação, em Deus, têm nomes diferentes não as tornaria realmente distintas entre si. Haveria, apenas, uma distinção de razão, entre eles.

O terceiro argumento parte da ideia de que somente a origem seria capaz de caracterizar distinções reais em Deus. Mas, diz o argumento, uma relação não provém da outra relação. Neste ponto faço um parêntese: não está em discussão aqui que o pai gere o filho, e que esta geração seja real; o que está em discussão é se a relação, no Pai, que aponta para o filho (paternidade) é realmente distinta da relação no Filho, que aponta para o Pai (filiação) e estas da relação do Espírito santo, que procede do pai e do Filho e aponta para eles; está em discussão, aqui, a distinção entre o pai e o Filho como extremidades das relações de paternidade, que caracteriza o pai, e de filiação, que caracteriza o filho. E do espírito Santo como procedente do amor entre ambos. Embora o Filho seja gerado pelo Pai, diz o argumento, não haveria distinção real entre a filiação e a paternidade, senão aquela da origem, a própria geração – que não os distingue realmente como um pai diverso do filho e um filho diverso do pai, porque ambos são da mesma e idêntica essência. E disto o argumento conclui que as relações existentes em Deus não se distinguem realmente uma das outras.

Como argumento sed contra, uma citação de Boécio, que ensina que, em Deus, a substância contém a unidade, mas a relação multiplica a Trindade. Assim, diz este argumento, se as relações, em Deus, não são realmente distintas, então a própria Trindade é apenas uma realidade de razão – é a mesma coisa dita de modos diferentes, e cairíamos de novo naquela heresia sabeliana do modalismo. Assim, diz este argumento, é preciso que as relações sejam realmente distintas em Deus.

Veremos a resposta sintetizadora da São Tomás no próximo texto.