Depois de apresentar a sua hipótese controvertida de que as relações, em Deus, não fariam parte de sua essência, mas seriam “acrescidas” ou “externas” a ela, e portanto não teriam verdadeira natureza divina, São Tomás nos apresentou os argumentos objetores, no sentido da hipótese inicial, e o argumento sed contra, que reafirma a divindade revelada das processões em Deus. Com sua resposta sintetizadora, após nos dar uma aula sobre as categorias aristotélicas, ele nos explica que a peculiaridade da categoria das relações é a de apontar para outro, o que, em Deus, ocorre não como uma inerência acidental, um acrescido à substância, mas como uma realidade substancial mesmo. As relações não especificam a substância intrinsecamente, limitando-a, como fazem as outras categorias acidentais; apenas relacionam-na fazendo-a apontar para outro. E este é o grande mistério: em Deus as relações fazem a substância apontar verdadeiramente para outro sem deixar de ser ela mesma. Em Deus, portanto, a relação é subsistente, idêntica à essência e realmente sustentáculo de alteridade sem rompimento de unidade. Eis o mistério da fé!

Neste ponto, São Tomás passa a responder às objeções iniciais, o que sempre enriquece o nosso entendimento sobre o debate que foi proposto. Como já vimos, os debates, em São Tomás, não são jogos de cartas marcadas, em que ele se compraz em destruir ou demolir de antemão argumentos que ele já sabia que eram falsos; os debates, aqui, são realmente a exploração da metodologia da dialética, de ouvir e falar para sintetizar, de trocar ideias para debater, de aceitar e reconfigurar para tornar a compreensão mais adequada. Há toda uma antropologia por trás da metodologia teológica de São Tomás.

A primeira objeção dizia que as relações não podem ser da essência de Deus citando Santo Agostinho, que afirmava que nem tudo o que se expressa sobre Deus diz respeito à sua substância, pois as relações, como paternidade e filiação, não expressam uma realidade substancial; disso, o argumento conclui que as relações não são da essência divina. São Tomás responderá que estas palavras de Santo Agostinho não deveriam ser entendidas como se a paternidade, ou qualquer outra relação em Deus, não pudesse ser considerada como substancial, ou seja, como pertencentes à própria essência divina; elas apenas significam que as relações, em Deus, não devem ser compreendidas como algo que aponta para si mesmo, para a própria essência, como algo que a especifica, que a “contrai” – como seriam os outros predicamentos, se fossem aplicáveis a Deus. A relação, quando predicada de Deus, não aponta para si mesma, senão para “outro”, e neste sentido ela não “contrai”, não especifica a substância. Se perguntássemos, por exemplo, qual a “quantidade” de Deus que há na sua essência, seria uma pergunta inconveniente, porque Deus não é quantificável – quantificá-lo é algo que contraria a própria essência de Deus. Mas perguntar quais as relações que há ali mesmo na imanência de Deus não é algo que “aponta” para a essência de Deus, reduzindo-a ou limitando-a de qualquer modo; o que se estabelece, aqui, é um “apontar para outro”, o estabelecimento de oposições verdadeiras entre as extremidades das relações intrínsecas, no qual cada extremidade é Deus de modo incondicionado – porque não se estabelece por usurpação ou por limitação, mas por doação amorosa e completa. Como é que cada extremidade da relação divina pode ser completamente Deus, indiviso e absoluto, e ao mesmo tempo entrar em relação com a sua contraparte? Talvez o mistério seja um pouco menos difícil de penetrar se imaginarmos que um professor pode transmitir seus conhecimentos ao aluno, estabelecendo com ele uma relação real de aprendizagem, sem que seus conhecimentos tenham que diminuir para que os conhecimentos do aluno cresçam; ambos estabelecem entre si uma relação em que a substância pode ser inteiramente possuída simultaneamente por ambos. O compartilhar daquilo que é imaterial não implica redução na substância do que é compartilhado entre aqueles que participam de tal relação, então o estabelecimento da relação real em Deus não gera divisão na substância divina, como o coração da mãe não ama menos um filho quando chega um outro filho. E esta é a maravilhosa marca que a Trindade deixa em nós, e que a liturgia expressa na proclamação pascal do sábado de aleluia; uma vela acende a outra sem que o fogo se diminua: “Agora conhecemos o sinal glorioso desta coluna de cera, que uma chama de fogo acende em honra de Deus: esta chama que, ao repartir o seu esplendor, não diminui a sua luz”.

A segunda objeção parte da ideia que toda relação inere num substrato que permanece mesmo quando eliminamos a relação; por exemplo, quando um empregado é demitido pelo patrão, deixa de haver a relação de trabalho, mas as pessoas, os seres humanos que participavam desta relação permanecem existindo plenamente. E o argumento completa que, em Deus, deve haver um “substrato”, a essência, que permanece mesmo quando abstraímos da relação de paternidade e espiração. E disto o argumento conclui que as relações não estão na essência divina.

São Tomás responderá que, tanto em Deus quanto nas criaturas, há de fato algo significado pela substância que não se inclui na noção de relação; é a dimensão do absoluto, do incondicionado, do uno e do total, que não estão significados pelos termos relativos. Mas a forma com que este aspecto se apresenta nas criaturas é diferente daquele pelo qual ele se apresenta em Deus. Nas criaturas, o aspecto relativo, a relação, apresenta-se como acidente, e o aspecto absoluto, como substância. Em Deus, há apenas uma única e indivisível realidade, a sua essência divina perfeita e maravilhosa, que, embora igualmente absoluta e igualmente relativa, não se esgota na expressão do absoluto nem na expressão do relativo; transcende-as ambas, de uma forma que é impossível expressar de modo cabal na linguagem criatural. Asim, a nossa linguagem é apenas uma aproximação, pobre e analógica, daquilo que em si mesmo está muito além da possibilidade de nossa expressão – ser absoluto e ao mesmo tempo ter relações reais e subsistentes. Não há, aqui, contradição, senão o limite da nossa capacidade de compreensão e expressão.

A terceira objeção também vai nesta linha. Se a relatividade fosse essência em Deus, diz a objeção, então Deus seria, essencialmente, um ser que aponta para outro, e seria caracterizado por este aspecto. Ora, diz o argumento, o ser de Deus, sendo absoluto, não pode ser essencialmente caracterizado por apontar para outro, mas por subsistir em si mesmo. Assim, o argumento conclui que a relatividade não pode ser algo essencial em Deus.

Mais uma vez em sua resposta São Tomás vai demonstrar o limite da sua teologia; é o limite do conhecimento do Deus verdadeiro, do amor por ele, e não a tentativa de dobrar Deus para dentro dos seus instrumentos de análise teológica. Se pudéssemos impor a Deus a relatividade como nota essencial incondicional e absoluta, diz São Tomás, a objeção estaria certa. Se a essência de Deus fosse pura e simples relatividade, Deus já não seria Deus. Ele seria pura referência, puro apontar para outro, sem centro e sem consistência. Mas a relatividade, em Deus, não esgota aquilo que Deus é. A perfeição da essência divina, diz São Tomás, é grande demais para ser esgotada por um conceito. Em Deus, em sua imanência trinitária, a noção de relação é levada à perfeição; mas também se apresentam como perfeição essencial, em Deus, o absoluto da unidade na sua simplicidade, que ademais é totalmente boa e totalmente verdadeira. Todas estas noções, quando aplicadas a Deus, não o limitam, não o descrevem, não o esgotam, embora expressem verdadeiramente o que ele é. “Ao falar assim de Deus,” diz o catecismo no § 43, “a nossa linguagem exprime-se, evidentemente, de modo humano. Mas atinge realmente o próprio Deus, sem todavia poder exprimi-lo na sua infinita simplicidade”. Perfeitamente absoluto em sua essência, essencialmente relativo em sua Trindade. São as nossas palavras que devem buscar Deus, é a nossa teologia que deve se esforçar para atingir Deus; não é Deus que se deve encurtar para caber nelas.