Vimos, no artigo anterior, que as relações em Deus são reais; não são meros construtos mentais analíticos, entes de razão que nos permitiriam conhecer uma realidade que, em si mesma, não teria estas relações com concretude existenciais. As coisas não são assim. Vimos que, em Deus, há, de fato, um apontar para outro que implica a existência destes polos, destas coisas distintas para as quais as relações apontam; agora, neste artigo, veremos como, em Deus, aquela propriedade de apntar, em sua própria imanência, para supósitos distintos e realmente existentes não implica nenhuma distinção de essência. Trata-se de um e o mesmo Deus. Mais uma vez, é um artigo difícil, cheio de tecnicalidades filosóficas. É importante não perder de vista, porém, que o mais importante, aqui, não é o debate filosófico (todo ele instrumental), mas o impulso amoroso de conhecer melhor a intimidade de Deus, participar dela. É um impulso, portanto, de amor e para o amor. Do amor divino que, ao nos atingir, faz-nos dar conta da preciosidade do que recebemos e da necessidade de mergulhar nele mais profundamente, compartilhá-lo e evitar enganos e falsificações.

A hipótese controvertida aqui, portanto, diz respeito à substancialidade das relações, em Deus. Ali mesmo na intimidade, ali mesmo na sua mais perfeita unidade, há o amor. Ali onde Deus poderia estar sozinho há a convivência, há a doação, há a diversidade mas não há a heterogeneidade, nem a transitoriedade. Não há, em Deus, o acidental, mas há o outro. Deus é absoluto, mas ali mesmo no seu coração há a relatividade.

Eis a hipótese controvertida: “parece que, em Deus, a relação não é o mesmo que a essência”. Com isto, com esta hipótese, há o risco de introduzir, na intimidade mesmo de Deus, além do elemento de relacionalidade, também um elemento de precariedade, de estranheza. O que a hipótese controvertida quer defender, portanto, é que as relações em Deus, ademais de reais, são acrescidas à sua essência, ou seja, haveria, segundo esta hipótese, uma diferença essencial entre a unidade divina (essencial) e a sua trinitariedade (que seria, segundo a hipótese, acrescida, acidental).

Há três argumentos objetores no sentido da hipótese controvertida. O primeiro cita Santo Agostinho, que parece afirmar que nem tudo o que há em Deus tem natureza essencial; ele diz que os nomes relativos, como “pai” e “filho”, não designam substâncias, mas relações, e que, portanto, segundo o argumento, não designam nenhuma realidade essencial em Deus. Assim, o argumento conclui que as relações trinitárias não são da essência divina.

O segundo argumento lembra que, quando falamos em relações, falamos de um jeito tal que, se excluímos a relação, as próprias coisas que se relacionam permanecem na existência, mesmo sem a relação. E o argumento exemplifica: imaginemos um patrão e seu empregado. Mesmo que o empregado seja despedido, e o patrão já não seja mais patrão de ninguém, tanto ele quanto seu ex-empregado continuam a ser pessoas, embora o vínculo relativo entre eles já não exista. Ser patrão e empregado, portanto, pressupõe que os seres nesta relação sejam, antes de tudo, gente, seres humanos, e a condição de ser gente não é relativa. Assim, diz o argumento, é preciso afirmar que em Deus, do mesmo modo, há alguma coisa além das relações, que lhes serve de suporte, e que permanece absolutamente mesmo se abstrairmos das próprias relações. Esta “alguma coisa”, diz o argumento, é a essência divina, absoluta e, portanto, completamente alheia à relatividade. Se abstrairmos, em Deus, do Pai, do Filho e do Espírito Santo, restar-nos-ia, diz o argumento, a sua essência divina, una e absoluta, como aquilo em que estas relações se fundamentam para existir. É o que conclui este argumento: a relação, em Deus, não está na essência divina.

O terceiro argumento objetor lembra que a relação consiste, em seu ser mesmo, em referir-se a outro; assim, exemplificando, o ser da paternidade consistiria em que há um pai que se refere a um filho e vice-versa, o ser do matrimônio consiste na própria relação entre o esposo e a esposa e assim por diante. Prosseguindo, o argumento diz que, se a relação, em Deus, consiste na própria essência divina, então o próprio ser de Deus se constitui numa referência a outro; mas, segue o argumento, é próprio de Deus ser completo, perfeito, absoluto e subsistente em si mesmo. Assim, conclui o argumento, não seria admissível pensar que o próprio ser de Deus consiste num referir-se a outro. Assim, o argumento conclui que a relação, em Deus, não coincide, nem pode coincidir, com a própria essência divina.

Como argumento sed contra, São Tomás nos lembra que tudo o que não é essencialmente divino só pode ser criatura. Mas, como já foi visto nos debates anteriores, há, em Deus, realmente, relações. Se esta relação não for da própria essência divina, prossegue este argumento, então ela será necessariamente uma criatura. Mas se a relação divina é apenas uma criatura, e não a imanência do próprio Deus, então não poderíamos adorá-las (ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo) sem cometer uma idolatria (adorando a criatura pelo criador). Mas a liturgia da Igreja, diz o argumento sed contra, proclama, no prefácio da Solenidade da Santíssima Trindade, que “sois o Deus eterno e verdadeiro, adoramos cada uma das três pessoas, na mesma natureza e igual majestade”. Ora, conclui o argumento, as relações recebem culto de adoração porque são de essência divina.

Ele lembra, logo no início, que houve teólogos, como Gilberto de Porres, que afirmaram que as relações, em Deus, não fazem parte de sua essência divina, mas são como que acrescidas, anexadas desde fora da divindade. Isto introduziria uma rachadura na simplicidade divina e nos faria ter que admitir que há, na intimidade mesma de Deus, composição com alguma coisa que não é Deus. São Tomás dá notícia, no entanto, de que Gilberto de Porres voltou atrás de suas afirmações, depois do Concílio de Reims.

Colocados os termos do debate, São Tomás passará a sua resposta sintetizadora, dando uma aula sobre o ser e suas categorias a partir do ponto de vista aristotélico. E é admirável o uso que São Tomás faz das categorias aristotélicas para expressar a sua fé. São Tomás lembra que a filosofia clássica divide o ser em dez categorias, quais sejam, a substância e nove acidentes. A substância, como lembramos, é a própria coisa, ou seja, é aquilo que subsiste por si e em si mesmo. Os acidentes têm o seu ser na coisa, são derivados.

Isto não significa que houvesse, no entanto, algo como uma “substância nua de acidentes” à qual os acidentes fossem sendo somados para dar a completude à coisa. Seria como imaginar que, ao avistar um cão, houvesse ali um composto da “substância canina” sem cor, sem tamanho, sem posição, sem ação, enfim, e que, desde fora, fôssemos acrescentando, como numa espécie de “jogo de lego”, uma cor, um tamanho, uma idade, uma posição, para que o cãozinho fosse ganhando sua concretude existencial. Não há uma “substância nua de acidentes” à qual os “acidentes sem substância” fossem somados para completar existencialmente a coisa. A coisa, em sua substancialidade, se define exatamente pela sua unidade existencial – ela é aquilo que ela é, com seu modo específico de ser, substância e acidentes numa unidade existencial indivisível. É por isto que a unidade é um “transcendental do ser”, lembremos.

Pois bem. São Tomás nos ensina, agora, que a relação, como acidente, tem uma peculiaridade; é próprio de cada um dos outros acidentes definir de algum modo a substância, referindo-se a ela. Assim, por exemplo, quando, olhando para aquele cãozinho, falamos no seu tamanho (acidente que São Tomás chama de “quantidade”), sabemos que falamos do tamanho daquela substância, o cãozinho. Quando falamos da sua qualidade, por exemplo, da raça a que pertence, estamos falando da raça daquele cãozinho. Quando falamos da posição, falamos da localização daquele cãozinho: ele mora no meu jardim. Ou seja, cada acidente determina de algum modo a substância na qual inere, porque aponta para ela. Menos a relação.

A relação faz com que a substância aponte para outra substância. Esta é uma peculiaridade deste acidente. Voltando ao exemplo do cãozinho: se eu disser que este é o cãozinho do meu vizinho, declaro que este cão tem uma relação de pertença com o meu vizinho, e determino, nele, uma referência que, por um lado, parte dela, mas que, por outro, aponta para outra substância – no caso, parte do cãozinho para o meu vizinho. Assim, diz São Tomás, poderíamos dizer que a característica que define este cãozinho como “propriedade do meu vizinho” que inicia e finda no cãozinho; de certo modo, ela tem o “ser” no cãozinho, porque é uma característica sua, daquele cãozinho, ser o cão do meu vizinho e não o meu. Mas de certo modo ela tende para o meu vizinho, e não para o próprio cãozinho. Em suma, a relação de propriedade entre o cãozinho e o meu vizinho existe “no” cão, mas aponta “para” o vizinho.

São Tomás diz, então, que o aspecto de “existir em”, das, quando referidas a Deus, não é acidental em Deus. Não há acidentes em Deus; tudo nele é substancial. Mas, uma vez que as relações não são, a rigor, determinações da substância, senão pelo fato de que apontam “para” algo, não haveria nenhum problema em admitir que as relações, em Deus, são substanciais. Se elas não fazem, primordialmente, referência à própria substância (determinando-a, como o fazem a quantidade, a qualidade, etc.) mas ao termo oposto, não há nenhum problema de consistência em admitir que, em Deus, as relações são reais e substanciais; as relações imanentes em Deus são realmente idênticas à sua essência divina, absoluta e completa. Mas, quando olhamos Deus sob o aspecto das suas relações intrínsecas, estamos olhando sob o aspecto da referência, em Deus, àquilo que, nas suas relações, temos como “termos relacionados”. Assim, se falo na “paternidade divina”, estou falando de uma e a mesma essência de Deus, sob o aspecto da oposição que fazem, entre si, em sua relação, aquele que gera e aquele que é gerado. Ocupam, pois, extremidades opostas da relação de paternidade/filiação divina, sem implicar algo além da própria essência de Deus, vista em sua riqueza interior. Poderíamos dizer, então, que as relações, em Deus, têm o mesmo “em” (inerem na mesma substância) sem terem o mesmo “para”, ou seja, apontando para outro, que só é outro em razão da própria relação, e não da sua essência. Em Deus, portanto, a relação é substancial, cria alteridade mas não se acresce (nem divide) a substancialidade.

No próximo texto responderemos às objeções iniciais.