Após ter colocado as objeções iniciais e ter dado a sua própria resposta sintetizadora, São Tomás passa a responder aos argumentos injetores iniciais, com respostas essenciais para que possamos compreender mais claramente sua própria visão das relações reais em Deus.
Na primeira objeção, cita-se a afirmação de Boécio de que de Deus não se pode predicado nada de relativo, porque todos os predicamentos que se referem a ele são substanciais, enquanto todo relativo inere no ser como acidental. Assim, o argumento conclui que não se pode predicar relações reais em Deus.
São Tomás passa a responder lembrando que a noção de relação tem dois elementos: inere em algum ser como acidente, pela comparação de algum aspecto seu com outro ser; e aponta para outra coisa com a qual a relação se estabelece. E afirma que Boécio de nenhum modo nega a realidade da relação em Deus sob este segundo aspecto, mas apenas sob o primeiro. Em Deus, portanto, a relação não se apresenta como uma inerência acidental e comparativa, mas simplesmente como um “apontar para outro”, que é um elemento que, por não implicar algo acrescido à substância, não é incompatível com a simplicidade de Deus.
No segundo argumento objetor, Boécio é novamente citado. Desta vez trata-se do trecho em que ele diz que “a relação na Trindade entre o Pai e o Filho, e entre estes e o Espírito Santo são relações entre o mesmo e o mesmo”. Mas uma relação deste tipo, prossegue o argumento, seria somente de razão; pois toda relação real requer e implica na verdade dois termos. Ou seja, estamos aqui falando de uma operação estritamente mental, semelhante à que ocorre quando alguém afirma que uma maçã é vermelha, sem que haja uma relação real entre a maçã e a vermelhidão- que não são “coisas distintas “, mas a mesma coisa observada sob diferentes aspectos pela razão que a apreende. Portanto, o argumento conclui daí que as relações divinas não são relações reais, mas apenas de razão.
São Tomás responde que de fato as relações caracterizadas por comparar dois aspectos da mesma coisa são relações apenas de razão, porque as relações reais pressupõem duas extremidades realmente diversas que apontam-se reciprocamente. Mas a expressão “o mesmo”, diz São Tomás, pode dizer respeito a uma coisa concreta, “numericamente ” (para usar a expressão escolástica), ou pode expressar uma identidade de espécie ou de gênero, em que a identidade não implica unidade absoluta da coisa consigo mesma. Há neste caso, mesmo nas realidades criadas, uma certa relação do mesmo com o mesmo que é real, como quando dizemos que aqueles dois animais são ambos leões. São, portanto, idênticos em sua substancialidade sem serem idênticos em sua unidade. Assim, São Tomás afirma que Boécio afirma que as relações na Trindade são de identidade porque quer reafirmar que elas não rompem a unidade substancial, mas não para negar que elas implicam um verdadeiro “apontar para outro”.
A terceira objeção lembra que a relação de paternidade é uma relação de princípio, como a relação de criação, entre Deus criador e as criaturas, também é. Mas, diz o argumento, dizer que Deus é princípio das criaturas não implica uma relação real entre Deus é as criaturas, já que, embora se excluirmos Deus as criaturas não subsistam, se excluirmos as criaturas isto não muda nada na perfeição e completude divinas. Daí o argumento conclui que a paternidade em Deus não precisa implicar nenhuma relação real.
São Tomás explica que não há analogia entre a relação de criação e a relação de geração. Na criação, Deus e as criaturas estão em ordens diferentes, porque são de natureza diferente. Deus está fora da ordem da criação, e cria por sua vontade, livremente, e não por alguma necessidade de sua natureza. Assim, quando cria, não estabelece relação real com as criaturas, já que permanece absoluto e completo, enquanto as criaturas têm uma relação real com Deus: ele, sem elas, não muda nada. Elas, sem ele, nada são. Mas com as processões as coisas são diferentes: como vimos na questão 27, elas compartilham a própria natureza de Deus, São da mesma ordem. Não há paralelismo com a criação, aqui.
A quarta e última objeção quer fazer outra analogia, entre a geração do Verbo divino e a aprendizagem humana, que, ao assimilar uma forma, gera um “verbo” conceitual na própria inteligência. Mas a estrutura do conhecimento humano é uma estrutura de razão, não uma estrutura real. Assim, as relações que se criam quando assimilados alguma coisa em nossa inteligência não são relações reais, mas meras relações lógicas, é portanto de razão. Assim, também o Verbo divino, gerado na inteligência divina, geraria relações de razão e não relações reais.
São Tomás responde que as relações lógicas construídas em nosso intelecto, na medida de sua aprendizagem, São meras relações de razão, como aquelas que analisa (aprender que “esta casa é branca” não cria uma relação real entre a casa e a brancura, ou dizer “os leões são animais ” não cria uma relação real entre leões e o gênero “animal”). Mas as relações que surgem entre o intelecto que aprende e o verbo que se forma em razão desta mesma aprendizagem é uma relação real, na ordem do inteligível, como a relação entre duas coisas corpóreas que procedem uma da outra é uma relação real na ordem corpórea. Assim, diz São Tomás, a relação entre o Pai e o Filho em Deus é perfeitamente real, e a objeção não o desprova.
Artigo difícil de uma questão difícil. Mas vamos caminhar.