Colocada a hipótese controvertida e apresentados os argumentos objetores e o argumento sed contra, São Tomás passa a oferecer sua própria resposta sintetizadora, e a inicia com firmeza: há relações reais em Deus. E passa a nos oferecer uma magnífica lição sobre a categoria das relações, quiçá uma das categorias mais difíceis para nós, hoje, com nossa tendência idealista, logicista e nominalista. São Tomás não arreda pé do seu “realismo metódico” (para usar uma expressão feliz de Etienne Gilson).

Como sabemos, Aristóteles põe o ser em dez categorias; a categoria da “substância” e as nove categorias dos “acidentes”. Os gêneros dos “acidentes”, com suas nove categorias, são, em princípio, inaplicáveis a Deus. Em Deus não há acidentes. Não se vai imaginar que Deus possa ter cor, ou tamanho, ou posição, ou paixão, e assim por diante.

Mas acontece que, diferentemente dos outros gêneros de acidentes, o gênero das “relações” tem uma peculiaridade: existem relações reais e relações de razão. Não existe, por exemplo, uma “quantidade” de razão, nem uma “posição” de razão, nem uma “cor” de razão; todos estes acidentes são sempre concretos, ou seja, são sempre da ordem do ser, e existem no ser da coisa, por dependência dela. A cor de uma casa, por exemplo, é real, e a cor branca que ela ostenta também e real, mas não tem uma existência por si. O branco tem o seu ser na casa da qual ele é a cor. É por isto que ele é um acidente: tem o ser em outro, enquanto a casa, sendo uma substância, tem o ser em si mesma. Mas a relação entre a casa e a sua cor é uma relação apenas de razão, existe apenas na minha inteligência humana; como eu preciso raciocinar para aprender, para mim é impossível expressar o conhecimento que eu tenho da casa, quanto à sua cor branca, num ato simples de cognição. Assim, eu afirmo: “a casa é branca”, criando uma relação de razão entre a casa e a sua brancura, que, na verdade, não são distintos. O mesmo ocorre quando eu estou fazendo uma classificação lógica de algum ser, e digo que um homem é um animal racional. A relação do homem com a animalidade é uma relação de razão, não existe uma “animalidade” distinta do próprio animal racional, com a qual ele possa se relacionar. Neste sentido, quanto às relações de razão, a visão de São Tomás é muito distante da visão platônica, e realmente muito aristotélica.

Há no entanto, no gênero das relações, aquelas relações reais, que sempre envolve duas coisas realmente distintas entre si, e na qual as coisas relatadas estão de tal forma que aquele aspecto do ser de uma aponta de fato para o ser da outra. Imaginemos a relação de marido e mulher, ou de patrão e empregado. O patrão só é patrão porque (e enquanto) existe um outro ser, um outro humano, que é seu empregado, e para quem a sua condição de patrão aponta inexoravelmente. Se eliminamos o empregado, também o patrão deixa realmente de sê-lo. Há, aqui, uma relação real. São Tomás dá um exemplo retirado da ciência do seu temo, que acreditava que as coisas pesadas tendem ao centro da terra, e as leves ao céu. Haveria, então, uma relação real entre os corpos pesados e o centro da terra; hoje, sabemos que esta relação não envolve posição, mas força gravitacional; São Tomás não o sabia. Diríamos hoje: duas coisas que se atraem gravitacionalmente têm entre si uma relação real, enquanto estiverem numa posição tal que permita a interação dos respectivos campos gravitacionais. São duas ou mais coisas diversas entre si, cujo ser realmente aponta para o ser da outra, pelo menos enquanto seus campos gravitacionais interagem.

Com isto, teremos clareza também quanto a outro aspecto do gênero das “relações”; enquanto os outros acidentes dizem respeito a aspectos do ser que realmente inerem em sua própria substância (a cor é a cor desta casa, o tamanho é o tamanho desta árvore, a posição é a posição deste atleta, e assim por diante), no gênero das relações há uma peculiaridade: a relação, embora exista de fato nesta substância, aponta sempre para a substância de outro ser; se me descrevo como empregado, é porque mantenho uma relação de trabalho com alguém que é meu patrão; se me sinto atrair gravitacionalmente pelo chão, é porque estou em pé sobre o planeta Terra, e não sobre, digamos, a lua, e assim por diante.

Assim, sã duas as peculiaridades do gênero das “relações”: 1) podem ser reais ou de razão, mas somente as reais ligam efetivamente duas ou mais coisas diversas, na ordem das coisas e não apenas na ordem lógica, de tal modo que, suprimida a condição relacional de um dos lados, também se suprime a condição do outro lado (há relações que podem ser reais de um lado e de razão do outro, falarei sobre isto adiante); e 2) Embora tenha o seu ser nesta substância, a relação aponta para outra – e nisto difere dos outros acidentes, que apontam para a própria substância na qual inerem.

E São Tomás vai definir uma hipótese em que sempre há uma relação real e bilateral: quando duas coisas têm a mesma natureza, e uma procede da outra, a relação entre elas é sempre uma relação real. Para as duas. É exatamente o caso da geração, que estudamos na questão anterior: entre o gerador e o gerado, entre o que procede e o que origina, que compartilha a natureza do originador, há sempre uma relação real e bilateral. E, uma vez que as relações imanentes em Deus têm estas características, elas são necessariamente relações reais.

No próximo texto acompanharemos as respostas de São Tomás às hipóteses objetoras iniciais.