Toda esta discussão a respeito da processão que, em Deus, é uma geração, leva-nos, agora, a uma pergunta subsequente: quantas processões podem haver em Deus? Como poderíamos estabelecer um número para a quantidade de vezes que, ali mesmo na intimidade divina, alguém poderia proceder de alguém? Para fazer este debate, São Tomás propõe logo uma hipótese controvertida que estabelecerá a polêmica que ele quer enfrentar agora. A hipótese aqui é a seguinte: parece que a única processão em Deus é a geração do verbo, e não pode haver outra. Vale dizer: trata-se de um debate que entra na própria natureza trinitária de deus. Ao ter estabelecido, tão bem, nos artigos anteriores, que há, em Deus, uma processão que é gerada intelectualmente como verbo, com a mesma substância de Deus, já estabelecemos muito bem que se pode falar de uma dualidade ali na intimidade una de Deus. Agora o debate centra-se sobre o exato número destas distinções imanentes. Há mais do que duas?
E São Tomás coleciona três argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento é de limite: se admitirmos que pode haver outra processão em Deus, além da geração do verbo, onde chegaríamos? Teríamos que admitir que pode haver outra, e outra, e ainda outra, e assim até o infinito. E o argumento conclui que, uma vez que seria absurdo admitir infinitas processões em Deus, devemos nos limitar apenas na primeira processão, que já foi tão bem estabelecida, e negar que possa haver outra.
O segundo argumento traz conceitos filosóficos para o âmbito do debate teológico. Parte da noção de natureza, que é una em Deus. Ora, diz o argumento, cada natureza pode comunicar-se por geração dando origem a uma natureza em tudo idêntica a ela própria. Se em Deus há uma natureza, a natureza divina, devemos admitir, segundo o argumento, que não haveria como imaginar nenhum critério de distinção entre duas ou mais processões. De fato, as operações, como a processão, são especificadas pelo termo, isto é, aquilo que determina o que elas são é o fim a que se destinam. Se a processão consiste em comunicar a natureza divina, e a natureza divina é uma só, não haveria a possibilidade de haver mais de uma processão, porque a primeira, segundo o argumento, já teria comunicado tudo o que há para comunicar – a própria natureza divina, que é uma só, indivisível, absoluta. Assim, o argumento conclui que não se pode imaginar a possibilidade de uma segunda processão.
O terceiro argumento até admite que se poderia imaginar uma outra processão; se a primeira processão, que é a geração do verbo, é uma geração intelectual, então seria possível imaginar uma segunda processão, como uma processão de vontade – a processão do amor divino. Mas, prossegue o argumento, em Deus a vontade não é realmente diferente do intelecto, mas é absolutamente una com ele, como já vimos, diz o argumento, quando debatemos a unidade em Deus. Logo, conclui o argumento, não se poderia falar numa segunda processão em Deus.
Novamente aqui, no argumento sed contra, São Tomás nos apresenta uma interpelação revelada, para nos mostrar não somente que a moldura apresentada pelos argumentos objetores é estreita demais para comportar a Revelação, como também para nos mostrar que, bem entendida, a Revelação não somente faz todo sentido, do ponto de vista da razoabilidade da fé, como ainda nos impele a ir mais longe na estrada da razão, rompendo nossos esquemas estreitos e refazendo-os com ainda mais sentido.
O argumento sed contra traz uma citação de João (15, 26), em que Jesus expressamente menciona o espírito Santo (que as escrituras chamam aqui de “Paráclito”) como diverso dele mesmo e como procedente “da parte do Pai”, e João 14, 16, em que Jesus diz: “Eu pedirei ao Pai e ele vos dará um outro paráclito”; estes trechos demonstram que há uma outra processão, em Deus, diversa da processão do Verbo.
Veremos a resposta sintetizadora de São Tomás no próximo texto.
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