No texto anterior, vimos como a hipótese controvertida leva ao debate sobre a conveniência de aplicar a noção de “geração” à relação de procedência (ou processão) do verbo, dentro da Trindade Santa.
É interessante notar, agora, na resposta sintetizadora de São Tomás, o modo com que ele usa os conceitos filosóficos (como o de geração, cujo sentido próprio é o de introduzir um ser na existência) para tratar da Revelação sobre a própria intimidade de Deus. Dois são os princípios usados para a adoção de uma noção como esta no âmbito do discurso teológico, com o rigor próprio de São Tomás:
1. A analogia. De fato, é preciso que a noção tenha, em seu conteúdo humano, uma relação analógica com a realidade revelada que ela é empregada para descrever. Como sabemos, é a partir daquilo que é mais próximo para nós que podemos chegar àquilo que nos é mais distante; do conhecimento das criaturas é que chegamos a compreender a Revelação de Deus. É a famosa lição que São Tomás nos dá na obra “Do Ente e da Essência”; partimos daquilo que é mais cognoscível para nós para aquilo que, embora seja mais cognoscível em si mesmo, ultrapassa nossa capacidade de conhecer. Deus é mais cognoscível em si mesmo do que as criaturas; mas sua inteligibilidade ultrapassa nossa capacidade, como o sol ultrapassa a capacidade dos olhos dos morcegos.
2. Não podemos esquecer que aquilo que é mais compreensível para nós não é, necessariamente, o que é mais inteligível em si mesmo. Assim, o uso da analogia deve ser sempre cercado do cuidado de perceber que as criaturas são sempre o lado analogado, enquanto Deus é sempre o analogante. Senão, qualquer teologia não passará de projeção, ou seja, tenderá sempre a uma antropomorfização de Deus. O sentido próprio de pessoa, de relação, de geração, de unidade, dentre outros termos utilizados em teologia, é aquele que se apresenta em Deus. E não aquele que se apresenta nas criaturas. Este último é sempre derivado, limitado, secundário, e, embora nos permita de alguma forma falar de Deus – e receber sua Revelação, que de outro modo seria completamente ininteligível para nós – deve ser sempre utilizado com muito cuidado.
Adotados estes dois cuidados, voltemos a São Tomás. Ele vai iniciar logo fazendo uma distinção: há mais de um sentido na noção de “geração”. O primeiro sentido é aquele que implica a mudança do não ser para o ser, ou seja, a própria entrada em existência de alguma coisa. Diz-se, por exemplo, que uma estátua é gerada a partir do mármore, ou que um macho e uma fêmea geram filhotes. Este é o sentido amplo.
O sentido estrito é aplicável somente aos seres vivos, diz São Tomás. Note-se que a geração de um ser vivo é diferente da geração de uma estátua. Esta consiste num fazer, numa técnica, que dá origem a um ser que é diverso, em gênero e espécie, daquele ser que o fez. Assim, um castor faz uma barragem de troncos, uma abelha faz uma colmeia, um escultor faz uma estátua. Há uma heterogeneidade neste fazer.
Mas na geração dos seres vivos, há uma homogeneidade entre aquele que foi gerado e aquele – ou aqueles – que geraram. Seja uma bactéria que se biparte e dá origem a uma outra bactéria de modo assexuado, seja no caso dos animais superiores, que se reproduzem de modo sexuado, a reprodução animal – e vegetal – é sempre uma geração no sentido estrito. Um filho, um descendente, não é alguma coisa que se faz, mas alguma coisa que se gera. É por isto que há uma homogeneidade de gênero e espécie entre a prole e os reprodutores. E a prole se diz “nascida”, e não “feita” ou produzida.
São Tomás faz aqui mais uma precisão: a noção de geração aplica-se aos seres vivos, mas não para tudo aquilo que deles surge, mesmo biologicamente, senão àquilo que compartilha sua natureza específica. Assim, a lã da ovelha não é resultado de geração, mas a ovelhinha é. São Tomás faz mais uma observação que mostra o respeito que ele tinha à ciência do seu tempo (que admitia a geração espontânea dos seres vivos, por exemplo, pela putrefação de outros seres vivos – teoria que foi refutada pelas experiências científicas posteriores, como a de Louis Pasteur). O eventual surgmento de seres surgidos espontaneamente, por exemplo, da matéria em putrefação, como se acreditava então, ou mesmo de um experimento de laboratório que venha a produzir seres modificados geneticamente, hoje em dia, não pode ser chamado de “geração”, neste sentido estrito, porque o ser resultante não compartilha da natureza do ser que o origina. O processo de geração de cavalos resulta sempre em cavalinhos, diz São Tomás, como o processo de geração de seres humanos resulta sempre em bebês.
Esta noção estrita de geração, nos seres vivos, diz São Tomás, inclui de certo modo a outra, porque é uma passagem do não-ser ao ser – antes do sexo não havia o bebê, depois ele passa a existir. Assim, em toda geração de seres vivos, entre as criaturas, há uma passagem da potência ao ato, ou seja, aquele que existe potencialmente, digamos, nos gametas, passa a existir em ato quando há a concepção. Mas adiciona um elemento, que é a homogeneidade completa de natureza entre aquele que origina e aquele que é originado. Por isto, diz São Tomás, se for possível imaginar uma relação de origem de vida na qual se possa identificar o originante e o originado, mas não se possa falar em passagem da potência ao ato, ainda assim existiria uma geração, porque é este aspecto, e relação originante- originado quanto à vida, que constitui essencialmente a geração, e não a simples passagem da potência ao ato, que a geração criatural compartilha com o processo de produção.
Falando agora de Deus, São Tomás nos afirma que não se aplica de modo nenhum a Deus a ideia de que algo, em sua intimidade mesmo, possa passar do não-ser ao ser. Neste sentido, a ideia de geração, com sua consistência criatural, ser-lhe-ia inaplicável.
Mas a geração, diz São Tomás, tem em sua essência a relação de origem entre o gerador e o gerado; a passagem da potência ao ato é, portanto, um elemento acidental na própria concepção de geração, que se relaciona com o limite criatural de ter a existência como alguma coisa de alheia à sua essência. Em Deus, em quem o existir é igual ao ser, o processo de geração implica uma relação de origem, mas não um processo de início de existência. Assim, em Deus, a geração se encontra, por assim dizer, em estado puro, que não envolve nenhum elemento em comum com o produzir, com o fazer.
São Tomás retoma sua analogia da processão, em Deus, com a geração do “verbo mental” pelo conhecimento, em nós. Se aquele que procede, em Deus, procede como verbo mental, como perfeição do processo reflexivo de autoconhecimento, em Deus, trata-se de uma operação que tem dois elementos: a atividade do intelecto que conhece, que é o intelecto divino, e o objeto do conhecimento, que é o ser do próprio Deus em toda a sua extensão. Assim, por um lado, o sujeito e o objeto, na processão do verbo divino, são idênticos, porque em Deus o conhecer é igual ao ser; mas por outro lado são diversos, porque o conhecido procede daquele que conhece e versa sobre o seu próprio ser em toda sua extensão. Assim, podemos entender que este verbo divino, em Deus, tem a mesma natureza de Deus, ou seja, é a vida em seu sentido mais próprio; embora, por definição, seja vida originada. É por isto, por ser vida plena originada e ter a mesma natureza do originante é que podemos chamar esta relação de geração, no seu sentido mais próprio, mais puro, mais perfeito. E é por isto que o verbo, em Deus, se chama “filho”. É uma bela aula de teologia trinitária, portanto.
Agora São Tomás passará a responder às objeções iniciais.
O primeiro argumento objetor toma a noção de “geração” apenas no seu significado especificamente criatural, definindo “geração” com o “a passagem do não-ser ao ser”. São Tomás explica que, de fato, neste sentido, de passagem da potência ao ato, não se pode falar de “geração” em Deus. Mas, como sua resposta sintetizadora muito bem esclareceu, não é neste sentido que estamos falando.
O segundo argumento objetor lembra que, quando nós chegamos a conhecer alguma coisa, e a assimilamos em nosso intelecto, esta assimilação de conhecimento não é chamado de “geração”. Assim, se queremos compreender a processão do verbo, em Deus, por analogia com o nosso modo de conhecer, então tampouco poderíamos falar em “geração” quanto a ele.
São Tomás vai lembrar que a analogia é apenas isto, uma analogia, que deve ser aplicada com todo o cuidado, para não “antropomorfizar” Deus. De fato, em nós, o ato de conhecer, a assimilação em nós da coisa conhecida, que gera na nossa inteligência o verbo mental, é uma operação acidental com relação ao nosso intelecto. Em nós o conhecimento não tem a mesma natureza daquele que conhece. Mas em Deus o conhecer não é um acidente, mas é substancial. O próprio ser de Deus é sua inteligência, e nele o verbo não é acidental, mas substancial, e da mesma substância do próprio intelecto que conhece. Assim, em Deus, a processão do verbo é substancial e tem a mesma natureza da inteligência da qual procede. Ele é divino. Se a processão do verbo, em Deus, tem a mesma natureza daquilo de que procede, esta processão é, na verdade é uma geração, e este verbo, tendo a mesma natureza daquele do qual se origina, é, com relação a ele, o Filho. E São Tomás passa a citar passagens da escritura em que isto fica bem claro; ou seja, aquelas passagens em que esta processão é descrita em termos que se relacionam com a geração dos seres vivos, como a concepção e o parto. São Tomás cita expressamente um trecho do Livro dos Provérbios (8, 24-25) que trata da sabedoria divina nos seguintes termos: “Ainda não havia os abismos, e eu já fora concebida; (…) Antes que emergissem as montanhas, antes das colinas, eu fui dada à luz”. E São Tomás ainda prossegue para lembrar que, mesmo com relação ao nosso intelecto humano, costumamos chamar de “concepções” as ideias que temos das coisas, e que, em nós, são somente formas intencionais, apenas pelo fato de que elas, em nós, adquirem uma forma espiritual, a mesma forma da coisa que causa em nós o conhecimento, mas assimilada espiritualmente, como espiritual é o nosso intelecto. Em nós, o uso da expressão que denota analogia com a concepção de um ser vivo, para tratar da intelecção, é uma metáfora. Em Deus não é.
Por fim, o terceiro argumento objetor diz que a geração sempre implica que aquele que é gerado recebe o seu ser daquele que o gera. Mas “receber o ser”, diz o argumento, significa não tê-lo como essencial, mas como acidental, e, portanto, estar sujeito também a perder o ser. Assim, segundo o argumento, tudo o que é gerado é também transitório, finito, corruptível, porque não tem o ser em si, mas recebe-o de outro. É uma objeção forte.
A resposta de São Tomás é daquelas cheias de tecnicidade filosófica – e importantíssima para que compreendamos bem a concepção que São Tomás tem da Trindade. De fato, o que ele está dizendo é que o processo de geração não implica que haja um terceiro como sujeito substancial de relação para “receber o ser” que o gerador concede. O que ele está dizendo?
Nem tudo aquilo que se dá implica que haja um sujeito para recebê-lo, como diverso do próprio doador. E São Tomás dá um exemplo disto: na criação, não havia um sujeito para “receber” substancialmente a própria criação. A criação vem do nada, e implica a passagem à existência de todas as coisas; ela própria, porém, não é um sujeito que tenha “tomado de Deus” o ser criado, como se houvesse, na criação, uma relação de “dar e receber” entre Deus e o nada; nem, muito menos, é uma espécie de “matéria preexistente” à qual Deus tenha dado forma. Tudo o que há na criatura, inclusive a sua substancialidade, é obra de Deus.
Quanto ao Filho, sendo gerado pelo Pai, não pressupõe nem implica a passagem do não-ser para o ser, como se o Filho recebesse do pai, ao ser gerado, um ser diverso do próprio Pai. Ele procede do Pai como gerado, mas o seu ser é o próprio ser do Pai, porque não tem uma existência autônoma, diversa daquele. É na própria imanência de Deus que se dá a geração do verbo divino, porque Deus, em sua perfeição, contém o que entende e o que é entendido, e a origem do que é entendido é a inteligência do que entende, que não é diversa do seu próprio ser. Assim, conclui São Tomás, a geração, em Deus, não implica a recepção do ser num sujeito externo ao que gera, senão a relação, dentro da imanência do próprio Deus, entre o que é princípio e o que é principiado.
Não é fácil! Mas é lindo!
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