No presente artigo, vemos São Tomás estabelecer, com muito cuidado, a terminologia de que ele irá se valer para tratar da Trindade – que é a terminologia da fé cristã. A questão terminológica, para São Tomás (como para todos nós) não é uma mera questão de palavras. As palavras não são rótulos aleatórios que colocamos nas coisas; elas refletem, de verdade, a inteligibilidade das próprias coisas, ou seja, elas significam de fato o que expressam. Se é assim com relação à ciência das coisas criadas, muito mais com relação à ciência das coisas de Deus. Daí a importância de estabelecer, com rigor, o que se quer dizer quando se usa esta ou aquela palavra.

Por outro lado, a fé não se constitui numa coletânea de palavras rigorosamente construídas, que devem ser impostas e repetidas com formulações inflexíveis por temor a Deus. Não é assim que São Tomás procede. Muito pelo contrário, ele não tem receio de controverter mesmo os pontos mais caros da fé cristã, de polemizar mesmo sobre aquilo que nos é mais sagrado, sempre com a confiança de que isto o ajudará a firmar sua fé em bases ainda mais sólidas. A fé de São Tomás está construída sobre a rocha, e não teme as ventanias, as tempestades, as enchentes. A fé de São Tomás não se impõe pela força das armas, nem das punições, mas pelo caminho do discernimento lento sobre o dom gratuito de Deus que se faz virtude em nós.

Assim, o que se coloca em discussão aqui é a conveniência de chamar de “geração” a relação pela qual o Filho procede do Pai. Esta processão, esta origem que o Filho tem no Pai, pode ser convenientemente chamada de “geração”, como se faz há tanto tempo (veja-se o chamado “Credo niceno-constantinopolitano”, que declara que Jesus Cristo é o “Filho Unigênito de Deus”, que é “gerado, não criado, consubstancial ao Pai”). Tanto que, normalmente, se guardava, em teologia, a expressão “processão” para o Espírito Santo (que “procede do Pai e do Filho”, como diz o mesmo Credo). São Tomás parece usar a terminologia de um modo um pouco mais rico: ele coloca as relações de origem, na Trindade, sob o gênero da “processão”, do qual a “geração” do Filho e a “processão do Espírito Santo” seriam espécies. Mas estamos nos adiantando, e passando na frente do próprio São Tomás, o que nunca é bom. Vamos voltar a ele.

Agora, ele nos apresenta a hipótese controvertida, com a qual provocará o debate: parece que chamar de “geração” a esta relação de origem na qual uma pessoa procede da outra (processão), na Trindade, e que foi discutida no artigo anterior, não é adequado. E São Tomás colecionará três argumentos objetores, no sentido da hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento é conceitual: estabelece o conceito de geração como “passagem do não-ser para o ser”; neste sentido, seguindo a longa tradição da filosofia grega, a geração é o oposto da corrupção, que é a eliminação do ser, e o sujeito de ambos, filosoficamente falando, é a matéria. De fato, é a matéria que se transforma, passando a ser o que antes não era, pela geração (pensemos, por exemplo, no carvão se transformando em diamante sob o efeito de altíssimas pressões), ou deixando de ser o que era, pela corrupção (é fácil imaginar, por exemplo, uma alta árvore perecendo, sendo reduzida a cinzas por um incêndio florestal). Fica claro, portanto, diz o argumento, que o conceito de geração se aplica àquilo que pode começar a existir a partir da matéria informe. E, portanto, diz este argumento, é um conceito completamente inaplicável a Deus.

O segundo argumento resgata a ideia de que a processão, em Deus, se explica de modo analógico àquele pelo qual se forma, em nós, o conhecimento. Mas em nós, diz o argumento, a aquisição do o conhecimento, com a assimilação da forma conhecida em nosso intelecto, não se chama “geração”. Assim, diz o argumento, também seria inconveniente chamar de “geração” a processão, em Deus.

O terceiro argumento parte da noção filosófica de que a ideia de “geração” envolve a recepção do ser em alguma coisa, a partir do seu princípio. Aquilo que é gerado, lembra o argumento, recebe o ser daquilo que o gera; é só reparar, por exemplo, uma estátua saindo das mãos do escultor, ou mesmo um filho sendo concebido pelos pais. Mas, prossegue o argumento, udo aquilo que “recebe o ser” também pode perder o ser, ou seja, deixar de ser. Todo ser gerado, portanto, diz o argumento, é, por definição, perecível, porque começa a ser a partir de outro, e portanto pode igualmente deixar de ser. Seria, pois, impensável, diz o argumento, que em Deus, ali mesmo na própria intimidade de Deus, houvesse algum aspecto, alguma coisa, que começasse a ser ou pudesse deixar de ser. Nada do que é gerado, diz o argumento, pode ser divino. Portanto, diz o argumento, não se pode aplicar a noção de “geração” a Deus, mesmo quanto àquilo que nele é processão.

Como argumento sed contra, mais uma vez São Tomás vai trazer uma citação bíblica que força os limites da noção filosófica com que os argumentos objetores estão lidando. De fato, trata-se do salmo 2, 7, versículo que é aplicado ao Filho pela própria Carta aos Hebreus, 1, 5: “Tu és o meu filho, eu hoje te gerei”. Vê-se, portanto, que, por revelação, a relação entre o Pai e o Filho, em Deus, é descrita como uma geração.

Veremos, no próximo texto, como São Tomás aplica a noção de geração, a partir de sua concepção filosófica, à Revelação cristã, fazendo-a enriquecer-se de novas dimensões.