É curiosa a palavra “processão”. Ela vem de “proceder”, que significa ter origem em algum lugar. E, neste sentido, ela causa perplexidade, quando se refere a Deus. Se é certo que Deus é, por definição, aquele que não tem princípio, como poderíamos falar de algum aspecto, no próprio Deus, que fosse principiado, proveniente, originado? Pode-se ver logo como esta discussão da Trindade não é fácil. Na nossa linguagem disruptiva, analítica, separadora, não é fácil falar daquilo que é distinto mas não é diferente; daquilo que é relacionado mas não é diverso, daquilo que, na sua unidade, pode ser de algum modo plural. Mas está exatamente aí a raiz mais profunda da nossa fé; que Deus seja trinitário, ou seja, triuno, é o que determina a especificidade da revelação em Cristo. E é o mais difícil de compreender. E de aceitar. Há inclusive quem possa aceitar a ressurreição – este fato fundante da Revelação cristã – sem aceitar a trindade, ou triunidade, de Deus.
É por isto que o primeiro artigo vai começar logo por polemizar sobre este “movimento” interno em Deus, que fundamenta as relações entre as pessoas que o constituem. Como podemos falar em “proceder”, com relação a Deus, em seu próprio interior? Este movimento, denominado de “processão” (substantivo relacionado ao verbo “proceder”, com um sentido mais preciso do que “procedência” – palavra que traz em si uma passividade que é incompatível com a ideia que estamos tentando debater) não seria incompatível com a própria noção de Deus? É por isto que, para polemizar, São Tomás oferece, neste artigo, a seguinte hipótese controvertida: não existe este movimento de “processão” em Deus. E ele coleciona três argumentos em favor desta hipótese, que nega que, em Deus, em sua intimidade, algo “proceda” de algo.
O primeiro argumento parte da noção usual de “processão”; se proceder significa originar-se, ou seja, um movimento, consistente em partir de alguma coisa em direção a seu exterior, então a noção de proceder seria incompatível com a intimidade de Deus. Em Deus, em sua, digamos, intimidade (ou, como os antigos gostavam de dizer, em sua “imanência”), não há movimento, nem há, a rigor, um “exterior”, no sentido de algo que estivesse além dos limites existenciais de Deus. Então, conclui o argumento, nesta “imanência divina”, marcada pela imobilidade da perfeição e pela completude da infinitude, não se poderia falar em alguma “procedência”, ou “processão”.
O segundo argumento é qualitativo; parte da ideia de que, quando dizemos que algo “procede” de alguma outra coisa, é preciso que aquilo que procede seja diverso daquilo de que procede. Mas, prossegue o argumento, se Deus é a simplicidade absoluta, não se poderia imaginar que houvesse, nele, alguma “diversidade” interna. Logo, conclui o argumento, não se poderia falar, na intimidade de Deus, em qualquer espécie de “processão”.
O terceiro argumento traz um limite filosófico; se a noção de Deus envolve a concepção de que ele é o primeiro princípio, quer dizer, aquele que tudo origina sem ser, ele mesmo, originado por nada, seria contraditório, descabido (o argumento usa o termo “repugnante”) imaginar que, em Deus, houvesse algo como um “proceder”, vale dizer, um originar e um ser originado. Assim, o argumento conclui que em Deus não poderia haver processão.
Como argumento sed contra, o artigo traz uma citação bíblica: Evangelho de João,8, 42, que na recente tradução da CNBB diz: “é da parte de Deus que eu saí e vim”. Mais uma vez, nota-se como a fria coerência dos raciocínios filosóficos e teológicos, colecionados como argumentos em favor da hipótese controvertida inicial, fica brutalmente questionada pelo dado revelado, bíblico. E muitas outras citações poderiam ser colecionadas, no sentido desta, para demonstrar a força com que a evidência revelada nos atinge, neste assunto, como veremos na resposta sintetizadora de São Tomás, adiante.
São Tomás vai passar a dar sua própria resposta sintetizadora, na qual harmonizará, de novo, a fé e a razão, a partir da prevalência da fé. É claro que a fé é um dom, e interpela a razão desde fora. E é claro que São Tomás não presume que a razão possa, de algum modo, substituir ou mesmo comprovar a fé. Senão ela não seria um dom, mas um construto eventualmente chancelado por Deus – o que de nenhum modo ela é, nem pode ser. Mas, uma vez atingido pela graça de crer, é maravilhoso perceber o modo com que tudo faz sentido, ainda mais do que antes. É isto que me encanta em São Tomás. Veremos isto no próximo texto!
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