Uma bússola aponta para o norte, por causa do fenômeno do magnetismo. A sua agulha não é o norte. Mas nos facilita encontrá-lo. Há, sem dúvida, outras maneiras de encontrar o norte, por exemplo, com relação ao nascente e ao poente. Mas o norte magnético não pode ser encontrado por nós sem a bússola.

Vejo, em alguns ambientes, a ideia de que, uma vez que não há proporção entre o norte e a bússola, a bússola não teria nenhum valor. Em outros ambientes ainda, vejo a ideia de que o norte é a bússola, ou seja, que a agulha, a forma com que ela aponta, constitui-se no próprio norte, e por isto imaginar que há algum norte além da bússola é desvalorizá-la, ela que tem sido o guia para a humanidade há tantos séculos. Falo isto, é claro, como uma parábola sobre a relação entre a Revelação- Tradição, Escrituras e Magistério (que são como que a bússola para Deus), por um lado, e o próprio Deus, do outro. São distintos, é certo. Mas não são diversos, nem opostos. A Encarnação implica que Deus está na Revelação, e a Revelação, mais do que ensinar sobre alguma coisa, é, ela mesma, alguém que nos conduz a alguém. A verdade, como veremos durante nossos debates a respeito da Trindade, muito mais do que o conhecimento de alguma coisa, é a relação com alguém… não parece ter outro sentido a ideia de que a verdade é um “transcendental do ser”.

Faço esta pequena digressão antes de entrar efetivamente no estudo da Trindade, como proposto por São Tomás. E faço-o com dois objetivos:

1. Lembrar que o nosso discurso sobre a Trindade, todas as revelações sobre ela, todos os dados que temos, e que aceitamos pela fé, mesmo quando se harmonizam muito bem com a razão (como é o caso do esforço de São Tomás, que agora acompanharemos) não se confundem com a própria Trindade, nem a esgotam. A Trindade é Deus, e assim está infinitamente além de tudo o que podemos saber e falar sobre ela. A nossa expressão aqui é sempre a luta para compreender a Revelação, verdadeira em si mesma, a partir dos instrumentais humanos de linguagem, concebidos para outros fins e sempre inadequados para exprimi-la. É por isto que qualquer esforço de compreensão da Revelação deve sempre guardar a consciência dos limites do pensamento analógico, como expresso no Catecismo da Igreja Católica, § 43: “falando de Deus, nossa linguagem se exprime de maneira humana, mas ela atinge realmente o próprio Deus, ainda que sem poder exprimi-lo em sua infinita simplicidade.”

2. Lembrar que, embora com esta miserável limitação, que somente será vencida na contemplação da glória, para os santos, a nossa linguagem não é desprezível. A Revelação é Deus que se faz carne, e o faz encarnando-se em nossas línguas humanas; é por isto que o Catecismo faz questão de reafirmar que nossa linguagem, mesmo exprimindo-se de modo humano (e não poderia ser de outro modo, já que Deus, em Jesus, está se revelando aos humanos e não, digamos, a extraterrestres ou a anjos), atinge realmente o próprio Deus. A linguagem da Revelação, como a agulha da bússola, aponta o norte infalivelmente, mas não se confunda com o norte. E ainda que a nossa razão possa nos preparar para Deus, pelas vias nas quais somos capazes e de intuir que ele é, embora somente possamos descobrir o que ele não é, a Revelação é, perante a própria razão, a maneira razoável de conhecer quem Deus é; de fato, se Deus é Deus, ele não poderia ser conhecido senão por concessão, por um ato positivo dele em vir dar-se a conhecer. Um Deus que pudesse ser alcançado pela razão, por iniciativa humana, já não seria Deus. Vale dizer, o fato de que a Trindade ultrapassa infinitamente tudo o que possamos dizer ou escutar sobre ela, mesmo que esta comunicação tenha por iniciativa o próprio Deus, não tira nem por um momento o valor desta bússola maravilhosa. Desde que tenhamos a consciência de que a bússola não é o norte, mas que o norte (magnético) não pode ser alcançado sem a bússola.

Por isto, podemos caminhar através deste segundo momento da primeira parte da Suma, em que São Tomás propõe dialogar sobre a Trindade. É preciso lembrar sempre que não se pode separar o estudo de Deus em sua unidade daquele estudo sobre Deus Trindade; Deus é trinitário na unidade, e uno na trindade. Não se trata, então, de dois tratados, mas de limite humano, quando o estudamos separadamente. Mas nesta segunda parte, debate será necessariamente mais teológico e menos filosófico, já que a Trindade, sendo um vislumbre da própria intimidade de Deus, não poderia ser deduzida ou alcançada de modo puramente racional, filosófico, contemplativo. Somente por revelação sabemos dela. Mas, depois que dela temos notícia, não podemos deixar de concluir, ao contemplá-la, que ela faz todo sentido. Não poderíamos dizer, com São João, que Deus é amor, ou que Jesus é Deus, ou que o Espírito Santo é Deus que não nos deixa sozinho, se Deus não fosse trinitário. Passemos ao debate do artigo 1 desta questão 27.