Sobre a felicidade, como dirá o próprio São Tomás no começo da segunda parte desta primeira parte da Suma, e como dizia também Aristóteles na sua “Ética a Nicômaco”, há quase tantas opiniões quantas são as pessoas. E certamente estas opiniões, principalmente em nosso tempo, não envolvem qualquer ideia de que a felicidade seja o próprio Deus, ou a nossa relação com ele. Em tempos de desenvolvimento tecnológico, de consumismo, de revolução sexual e mesmo de globalização, é difícil imaginar a felicidade como envolvendo Deus de algum modo. De fato, são tantas as ofertas de prazeres, satisfações, requintes e consumo, que muita gente passa a vida toda sem sequer se colocar o problema de Deus.

Mas será que é assim? Será mesmo possível achar felicidade verdadeira fora de Deus? Ou, por outra, será que a felicidade que Deus nos oferece implica um ascetismo, uma renúncia a todas as outras dimensões da felicidade? Será mesmo verdade o que dizia Bento XVI, que “Deus não nos tolhe de nada, e nos oferece tudo”? Ou será que buscar a felicidade em Deus implica renunciar a buscar dimensões da felicidade que estariam em outras partes? Será que tudo aquilo que a vida mundana nos oferece (riquezas materiais, prazeres sensuais, comidas e bebidas, luxúria, conforto, consumismo) é realmente perdido para quem busca a felicidade em Deus? Não teria Deus tudo isto para nos dar e muito mais, de algum modo purificado pelo seu amor infinito?

Esta é a hipótese problemática introduzida agora por São Tomás, para provocar o debate: parece que a felicidade que se encontra em Deus não inclui toda e qualquer felicidade. E ele traz dois argumentos objetores em apoio a esta ideia.

O primeiro argumento objetor lembra que há falsas ofertas de felicidade. Mas nada em Deus pode ser falso. Logo, nem toda felicidade está incluída na felicidade oferecida por Deus.

O segundo argumento lembra que há muitas concepções de felicidade que incluem prazeres sensórios, relacionados a coisas materiais, como riquezas, luxo, prazeres corporais e coisas do gênero. Mas estas coisas não são relacionadas com Deus, que é transcendente e incorpóreo. Assim, o argumento conclui que a felicidade em Deus não inclui todas as outras. É uma objeção, portanto, com forte sabor gnóstico, que coloca uma estranheza entre Deus e a matéria.

O argumento sed contra simplesmente lembra que a felicidade, seja como for vista, é uma perfeição; ora, prossegue o argumento, todas as perfeições estão em Deus, de modo próprio e em primeiro lugar. Logo, não existe felicidade, diz este argumento contrário, que não esteja incluída de modo mais completo e perfeito em Deus.

São Tomás passa a nos oferecer a sua resposta sintetizadora. Que inclui uma dose de boa psicologia: tudo aquilo que pode se apresentar a nós como caminho de felicidade, mesmo quando é um falso caminho, deve incluir algum bem que nos atrai, haja vista o fato de que o mal, em si mesmo, não pode ser atrativo. Assim, tudo aquilo que estes caminhos de felicidade, verdadeiros ou falsos, têm de atrativos ou desejáveis deve preexistir em Deus de modo excelente, perfeito e total. Mesmo aquilo mais abjeto, como o vício em drogas, a devassidão sexual, a pornografia, a vida dissoluta no esbanjamento e nas festas mais vazias, tudo isto só pode atrair de algum modo o ser humano porque esconde, na falsidade de seus apelos, algum bem falseado, estragado, mas ainda presente e forte, capaz de atrair e perder o ser humano. Reconhecer isto pode ser de imenso valor antropológico, porque pode nos permitir sair do moralismo e encontrar os irmãos ali onde estão, atraindo-os, propondo a eles o verdadeiro bem, que em nada é menor do que o bem aparente dos caminhos estragados – ao contrário. O bem em Deus inclui tudo, inclui de modo real aquilo que, nos caminhos fora de Deus, é apenas aparência de bem e engodo.

Classicamente, desde pelo menos a “Ética a Nicômaco” de Aristóteles, os caminhos de felicidade são classificados em “contemplativo” e “ativo”. E é a partir desta noção que São Tomás vai prosseguir em sua resposta.

Tome-se a felicidade da contemplação. É certo que contemplar uma bela paisagem, um lugar especial ou turístico, ou mesmo a beleza de uma flor ou de um animal exótico, ou, mais ainda, a perfeição do universo que remete à imensidão do criador, ou, mais ainda, contemplar a luz revelada de Deus naquilo que ele nos dá a conhecer são, todos, caminhos de felicidade. Mas é preciso lembrar, diz São Tomás, que Deus vê todas as coisas de modo completo e claríssimo, tendo sido seu autor; e que contempla a si mesmo de modo integral e perfeito; portanto, não há contemplação que não tenha, em Deus, não somente seu pressuposto, mas sua consumação e sua perfeição. Deus contempla e se contempla perfeitamente; por isto, contemplar a criação em Deus, e, mais ainda, contemplar o próprio Deus a partir do que ele nos permite participar de sua própria contemplação, eis a felicidade mais perfeita, porque mais completa sob todos os aspectos.

Vale lembrar que a contemplação sempre foi considerada a forma mais elevada, mais perfeita, de felicidade. Mas esta é uma noção que, em grande medida, perdemos hoje. Vivemos numa sociedade que desconhece a contemplação e valoriza apenas a ação ou, quando nada, a autocontemplação narcisista e egoísta. Para que a contemplação seja resgatada, seria preciso resgatar urgentemente as nossas vias de acesso a Deus, que São Tomás magistralmente apresentou e debateu na questão 2 desta parte da Suma, que já tivemos oportunidade de estudar. Só pode contemplar de verdade quem fez as pazes com Deus.

Quanto aos caminhos da vida ativa, São Tomás nos lembra que o governo de toda a criação é de Deus. Eis outra noção que precisamos resgatar: Deus está no comando, e tudo lhe pertence. Devolver tudo a Deus é receber de volta de modo verdadeiro, pleno e eterno. Se a plenitude da vida ativa seria ter o governo de todas as coisas, isto só é possível ao ser humano quando ele reata sua amizade com Deus e se entrega a ele. Só então ele pode dizer aquilo que a sabedoria dos caminhoneiros escreveu num para-choque: “não sou dono do mundo… mas sou filho do dono!

E a felicidade terrena? Ela incluiria, diz São Tomás, lembrando as lições de Boécio, os prazeres, as riquezas, o poder, a fama e o prestígio; mas, diz ele, quanto aos prazeres, Deus tem a perfeita alegria da posse de si mesmo e de todas as coisas; quanto às riquezas, ele tem a total suficiência, a bonança completa que quaisquer riquezas terrenas podem apenas prometer. Quanto a poder, prestígio e fama, Deus tem o governo de toda a criação e a admiração de toda criatura, mesmo daquelas que, corrompidas pelo pecado, elegem-no como inimigo, sem conseguir fugir de sua ordem completa e amorosa. Nada há como promessa de felicidade para as criaturas, portanto, que não esteja em Deus como realidade. E é somente tentando apropriar-se do que por natureza é divino, como um ladrão que quer alguma coisa do outro sem o seu dono, que qualquer criatura busca qualquer felicidade fora de Deus. E é somente aceitando o convite de restabelecer a amizade com ele que toda a felicidade nos é franqueada de graça. E por graça.

A resposta parece, talvez, incompleta, porque não inclui o claro fato de que a vida humana, mesmo a vida do crente, é repleta de dor e de sofrimento; eis o mistério da cruz, que iremos desvendando com São Tomás na nossa caminhada. A cruz já foi assumida por Deus e ressignificada; e é nela que se esconde a felicidade, como demonstra o discurso paradoxal das bem-aventuranças no chamado Sermão da Montanha. Mas estamos nos adiantando a São Tomás mais uma vez. Por enquanto, para os ansiosos e apressados como eu, recomendo a leitura da carta “Gaudete et Exsultate”, do Papa Francisco.

Passamos então às respostas que São Tomás dá aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor lembra que há falsas ofertas de felicidade, que desencaminham e fazem perder, e que portanto não podem estar em Deus. São Tomás vai responder com simplicidade que toda falsa oferta de felicidade, exatamente por ser falsa, não pode estar em Deus, que é a verdade por definição. Mas toda falsa oferta de felicidade sempre pressupõe e se apresenta como algum bem, ainda que desordenado e aparente. Então pode-se dizer que os falsos caminhos de felicidade têm sempre algo de bom, ainda que na forma de isca ou armadilha; em Deus, aquilo que estes falsos caminhos apresentam de modo desordenado e desencaminhador, preexiste de modo ordenado e completo, perfeito e eterno, e portanto verdadeiro e seguro para nós. Quem renuncia aos falsos caminhos de felicidade apenas renuncia, portanto, ao que neles é falso e conduz à perdição, mas recebe de volta, na salvação, tudo aquilo que eles têm de bom e verdadeiro.

O segundo argumento objetor diz que há muitas concepções de felicidade que envolvem os prazeres sensoriais, corpóreos, mundanos, que, portanto, não podem estar em Deus. São Tomás vai nos lembrar que toda a felicidade prometida pelo desfrute material não está propriamente nas coisas materiais desfrutadas; mas no que elas significam para nós, na sua relação conosco, e tudo que elas nos podem oferecer de bom, ou seja, tudo o que nelas representa um bem, está nelas por participação, e preexiste em Deus de modo completo, eminente e perfeito. Assim, a posse e o desfrute das coisas materiais, embora algumas vezes levem-nos à ilusão de que não precisamos de Deus, não pode representar um fim em si mesmo, mas apenas meios para alcançar a verdadeira felicidade; ou, como nos lembra a bela oração litúrgica da coleta: “Ó Deus, Sois o amparo dos que em Vós esperam e, sem vosso auxílio, ninguém é forte, ninguém é santo; redobrai de amor para conosco, para que, conduzidos por Vós, usemos de tal modo os bens que passam, que possamos abraçar os que não passam”. Todo o que pode existir de verdadeiramente bom nos bens materiais, portanto, existe em Deus ao modo divino, e deve ser usado de modo que nos remeta e nos conduza a ele.

E São Tomás conclui, dizendo que, quanto ao nosso estudo a respeito da unidade divina, nossos debates já foram suficientes. A partir da próxima questão, ele passará ao debate da Trindade santa. Devemos lembrar que não tratamos de coisas diferentes, quando estudamos a unidade de Deus e a Trindade santa. Deus é triuno. Não podemos confundir a pedagogia teológica de São Tomás, válida para que nossa inteligência criada possa entrar em contato com o mistério, com a própria intimidade de Deus. Os limites, a aparente separação, dá-se apenas em razão da nossa limitada capacidade de aprender e de falar sobre Deus.