Será que Deus é a felicidade de todos os que são felizes?

Não há dúvida de que, se a felicidade consiste em atingir o estado de perfeição, a reunião de todo o bem, de modo a permitir, reflexivamente, o gozo do bem atingido, então a felicidade tem relação com Deus. Que São Tomás entende assim, já o sabemos desde a questão 2, quando ele chega a afirmar que uma das vias para chegarmos à evidência razoável da existência de Deus é exatamente o fato de que temos em nós esta inclinação à felicidade, na forma de um desejo aparentemente insaciável, que, na verdade, é uma inclinação a gozar do infinito – isto é, de Deus. De tal modo que Santo Agostinho, ainda no início de suas “Confissões”, chega a afirmar que fomos feitos para Deus, e nosso coração não tem sossego enquanto não repousa nele. Não é poesia, é psicologia da melhor qualidade. Corajosa e quase incompreensível para nós, hoje.

Será, então, que poderíamos simplesmente resolver o problema dizendo que Deus é a própria felicidade pela qual todos nós seremos felizes? Esta é a hipótese controvertida de São Tomás. Se é assim, então teríamos que dizer que, de fato, a felicidade é simplesmente divina, e que o máximo que poderíamos fazer seria parasitar, associando-nos à felicidade de Deus. Mas a felicidade, que está plenamente em Deus, tem que ser algo humano. Como resolver, como harmonizar estes dois dados, o dado revelado que coloca Deus como bem supremo e felicidade perfeita, por um lado, e o anseio humano infinito pela felicidade, do outro?

Seria simples juntar uma pletora de citações bíblicas para comprovar, fideisticamente, que Deus é a própria felicidade humana; mas não é assim que São Tomás procede. Ele não recebe as Escrituras como se fossem uma espécie de livro de auto-ajuda, ou um váde-mécum de legislação compilada em que os versículos fossem fundamento jurídico para responder, como artigos de lei são colecionados como fundamento para uma sentença judicial. São Tomás tem uma relação muito mais profunda, muito mais existencial, com a fé, que ele quer receber, levar a sério, integrar em sua vida. Muito mais do que um professor que quer ensinar uma matéria que ele recebe desde fora, São Tomás quer aprender, quer viver e quer compartilhar com razoabilidade o que vive. Por isto, ele vai colecionar dois argumentos objetores, em favor desta hipótese controvertida de que a felicidade é própria de Deus, e apenas dele, e nós somos, no máximo, algo como parasitas da felicidade divina.

O primeiro argumento lembra que a felicidade consiste em gozar do sumo bem. Mas Deus, e apenas Deus, lembra o argumento, é o sumo bem. E não podem existir vários sumos bens, porque assim nenhum deles seria realmente o sumo bem. Assim, diz o argumento, a felicidade é o próprio Deus e não há outra.

O segundo argumento, mais aristotélico, lembra que a felicidade é o fim último dos seres racionais. De fato, os seres irracionais jamais colocam-se o problema da felicidade, então bastam-se com a satisfação animal das próprias inclinações. Seres irracionais podem ser saciados e satisfeitos, em seus desejos sempre individualizados e concretos, mas deles jamais poder-se-ia dizer que poderiam ser felizes, exatamente porque lhes falta tanto a abertura ao infinito pela inteligência (com sua inclinação a assimilar tudo) quanto a capacidade reflexiva sobre as suas próprias inclinações, Mas para os seres racionais, a própria capacidade de reflexão, aliada à abertura espiritual para o conhecimento de tudo, determinam que somente o infinito, o bem infinito, poderia saciar suas inclinações. Assim, Deus é a felicidade única daqueles que são felizes.

Como argumento sed contra, São Tomás, surpreendentemente, nos trará uma citação bíblica. Trata-se de 1 Coríntios 15, 41: “até de estrela para estrela há diferença de brilho”. Ora, se a felicidade humana fosse simplesmente Deus, ela necessariamente teria que ser igual para todos, porque Deus é um só. Mas há diferentes graus de felicidade, como São Tomás parece deduzir desta passagem bíblica. Logo, não se pode simplesmente dizer que a felicidade humana consiste em Deus.

São Tomás passará a nos oferecer a sua própria resposta sintetizadora. E vai começar logo ensinando que, nos seres inteligentes, a felicidade consiste num ato de inteligência. De fato, a felicidade, para os seres inteligentes, é sempre reflexiva: não se trata, como temos repetido, de um estado animalesco de satisfação dos impulsos, mas de um desfrutar consciente do bem infinito; importante lembrar, que para a filosofia aristotélico-tomista, o conhecimento não é a mera posse da informação, mas a própria assimilação da coisa conhecida pelo conhecedor. Quer dizer, a felicidade, para os seres inteligentes, consiste no ato intelectual de assimilar Deus no próprio intelecto.

Neste ato, diz São Tomás, temos que distinguir entre o próprio ato de conhecer (a intelecção) e o objeto do conhecimento (o que é inteligido). O objeto do conhecimento que traz a felicidade é o próprio Deus. É por isto, diz São Tomás, que Santo Agostinho diz que é feliz quem conhece a Deus, mesmo que ignore tudo o mais.

Se a estrutura do ato cognitivo é constituída da própria cognição e de seu objeto, diz São Tomás, não há dúvida de que o objeto de cognição que determina a felicidade é o próprio Deus. Mas a cognição de Deus se dá no ser humano, e portanto é algo criado. Assim, a felicidade humana, sendo um ato de cognição, é incriada quanto ao objeto, mas criada quanto ao próprio ato. Por isto, não se pode dizer simplesmente que Deus é a felicidade de todo ser que é feliz; a felicidade está em conhecer Deus, mas este conhecimento está na própria criatura, e portanto a felicidade das criaturas é algo criado. É por isto que, embora toda a felicidade criatural tenha o mesmo objeto – Deus – ela pode variar em profundidade, conforme o grau pelo qual a criatura venha a assimilar Deus em si como objeto de conhecimento. Deste conhecimento maravilhoso, que não é mera posse e domínio de informações (noção contemporânea de conhecimento), mas habitação de Deus em nós.

São Tomás fará aqui, uma última observação: em nós, o conhecimento de Deus é algo criado. Mas no próprio Deus não é assim; tanto o objeto de conhecimento (ele mesmo) quanto o ato de inteligir-se são essenciais, unos e incriados, em Deus.

Trata-se, portanto, de uma resposta sutil e interessante, que mantém, por um lado, a posição de Deus como única felicidade, harmonizando-a inteiramente com o fato de que a felicidade humana, embora consista inteiramente em Deus, é, afinal, humana.

São Tomás passa a responder às objeções iniciais.

O primeiro argumento objetor, como lembramos, afirma que, se Deus é o bem supremo, a felicidade nada mais seria do que o próprio Deus. São Tomás vai responder com a distinção que ele ensinou na sua resposta sintetizadora: a felicidade humana consiste no ato de inteligir a Deus. Portanto, de fato, quanto ao objeto, a felicidade humana não pode ser outra coisa senão o próprio Deus. Mas é claro que Deus, como objeto do ato de intelecção caracterizador da felicidade, é assimilado pela criatura de modo criatural, e esta assimilação, este conhecimento de Deus, é, do lado da criatura, uma participação na vida divina, ao modo criatural; ou seja, a felicidade da criatura inteligente, quanto ao ato de intelecção, é algo humano, participado, criado.

A segunda objeção dizia que, uma vez que o fim último da criatura inteligente só pode ser a felicidade, e que ser o fim último de uma criatura intelectualmente insaciável é algo que só pode convir a Deus, então somente Deus seria a felicidade dos que são felizes.

São Tomás fará mais uma distinção; segundo Aristóteles, a felicidade tem um duplo fim, que a escolástica chamava de “finis cuius” e “finis quo”; expliquemos. Na felicidade, conforme a visão aristotélica, existe aquela coisa que é buscada como fim único, e existe o ato que relaciona esta coisa com aquele que a busca. Assim, por exemplo, para quem acredita que a felicidade consiste em ser rico, o dinheiro é o “finis cuius”, ou seja, é a coisa buscada. Mas o finis quo, ou seja, o que realmente o ambicioso quer do dinheiro é possuí-lo. Há, portanto, para o avaro, um duplo fim: o dinheiro, fim objetivo, e a posse do dinheiro, fim subjetivo.

Assim, como fim último das criaturas inteligentes, Deus é a própria coisa buscada (finis cuius), e o que se quer (finis quo) é conhecê-lo, assimilá-lo, para possuí-lo e satisfazer-se dele. Assim, Deus é o fim último dos seres intelectuais, como coisa; e conhecê-lo, entrar na felicidade criada, possuindo-o, é o finis quo.

O próximo artigo marca o fim desta etapa, em que estudamos Deus quanto à sua unidade. Belo fechamento, coroado pelo debate sobre a felicidade. E, surpreendentemente, aproximando radicalmente o aparente intelectualismo tomasiano da mística profunda de santos como Santa Teresa de Ávila. A santidade é a felicidade, nos lembrou o Papa Francisco na recente carta “Gaudete et Exsultate”. Se a santidade é toda de Deus, a felicidade é, objetivamente, a mesma; mas cada santo aproxima-se dela de um modo muito profundamente pessoal.