O presente artigo demonstra, mais uma vez, que nos é muito difícil falar de Deus, que é uno e simples, através da nossa linguagem concebida para um mundo complexo e fragmentado. Este artigo revela, também, a aplicação da visão de São Tomás da felicidade como uma atividade de contemplação intelectual, e não como um mero saciar da vontade, como tendemos a achar hoje. A felicidade de hoje se assemelha mais à saciedade de um boi no pasto, com o estômago cheio e cercado pelas suas múltiplas vaquinhas, do que com o ato daquele que contempla em si mesmo a perfeição, a completude do se desenvolvimento e a plenitude de suas virtudes.
Para o debate que é proposto agora, portanto, é necessário lembrar que, em Deus, em sua unidade perfeita, não há distinção real entre a sua essência, o seu intelecto e a sua vontade, como há em nós. No entanto, devido à nossa forma fragmentária de conhecer e de falar, podemos distinguir, em Deus, aquilo que tem razão de entendimento, aquilo que tem razão de vontade e aquilo que tem razão de simplesmente ser, existência. Em qual destes aspectos poderia estar situada aquela atividade a que chamamos de felicidade?
Alguém já disse que é melhor ser um humano insatisfeito do que um porco perfeito e saciado. De fato, algo em nós indica que não nos satisfaríamos com uma vida animal, mesmo que fosse uma vida animal perfeita; talvez esteja aí a chave para compreender a insistência de São Tomás em debater se, em Deus, a felicidade é essencialmente intelectual. Ser feliz não é apenas alcançar o ato e estar satisfeito; é sabê-lo, reflexivamente. Este saber-se, portanto, perfeito e plenamente satisfeito, e não a satisfação e a perfeição em si, é que constituiriam a felicidade. Também é assim em Deus?
É esta a hipótese que São Tomás nos traz, agora, para debater. “Parece que a felicidade, em Deus, não é uma realidade de natureza intelectual”, ou “não é por seu entendimento que Deus é feliz”, diz a hipótese controvertida, para provocar o importante debate sobre a natureza da felicidade. E são dois os argumentos objetores no sentido da hipótese controvertida inicial. Vale dizer, ser feliz, em Deus, não é uma atividade, uma reflexão contemplativa, mas um estado de ser essencial. Vale dizer, se for verdadeira a hipótese, a felicidade, em Deus, pareceria mais com a plácida satisfação de um animal farto do que com a contemplação intelectual reflexiva dos humanos. Mas não é assim. Embora isto nos mostre a importância – que para nós já não parece tão clara quanto foi um dia para o próprio São Tomás – de insistir na distinção de que Deus é feliz pelo intelecto, e não simplesmente de modo automático pela essência.
O primeiro argumento lembra que, segundo Boécio, a felicidade é o sumo bem. E prossegue, lembrando que o bem é um transcendental do ser, e a essência de Deus é o seu ser; logo, o argumento conclui que em Deus a felicidade é um atributo da essência, não do intelecto.
O segundo argumento lembra (aristotelicamente) que, se a felicidade é o sumo bem, ela tem natureza de fim. Mas o fim, como o bem, diz o argumento, são objetos próprios da vontade; então a felicidade é, em Deus, relacionada com a vontade, conclui o argumento, e não com o intelecto.
O argumento sed contra é patrístico. São Gregório Magno, em sua oração, diz que Deus é glorioso porque, por desfrutar de si mesmo, não precisa do louvor alheio. O argumento explica que “glorioso”, aqui, é sinônimo de “feliz”. Ora, diz o argumento, nós, humanos, usufruímos de Deus pelo nosso entendimento, na contemplação. Então o argumento conclui que o ato contemplativo, em que a própria felicidade consiste, é um ato de entendimento, também em Deus.
São Tomás passará à sua própria resposta sintetizadora, e ele começa dizendo logo que, se alguma coisa tem uma natureza intelectual, então a sua felicidade consiste num ato de entendimento. Entendimento, para São Tomás, esclareçamos logo, não é uma palavra carregada com a nossa visão contemporânea, nominalista, que acredita na ciência como domínio e no conhecimento como poder. Inteligir, aqui, significa assimilar, como vimos quando acompanhamos o debate sobre a verdade. Conhecer é tornar-se um com a forma conhecida, trazê-la para dentro de si, de certa forma possuí-la do modo mais completo, refletido, intencional. Assim, dizer que a felicidade é um ato intelectual significa dizer que ser feliz é possuir, pelo entendimento, aquilo que se contempla. É por isto que a satisfação bovina jamais será a felicidade humana. E a felicidade humana, consistindo em inteligir Deus pela Graça, é apenas uma modesta participação na plena posse consciente de si que é a felicidade divina.
É interessante que, desde a questão 2, São Tomás tenha apontado, ainda que de passagem, que o desejo natural de ser feliz que nós, seres intelectuais, temos, é uma via para a existência de Deus; é a intuição e a marca de que Deus existe. Este desejo de felicidade está naturalmente em todas as criaturas inteligentes, e se manifesta como abertura para conhecer tudo, assimilar tudo. Tornar-se um com todas as coisas que se dão ao nosso conhecimento. Já Aristóteles dizia que “a alma é, de certo modo, todas as coisas”. E o fato de que temos um desejo insaciável de conhecer é um indicativo de que fomos feitos para conhecer o infinito, (embora nosso “equipamento cognitivo” seja naturalmente calibrado para aquilo que é finito e contingente) e não nos satisfazemos nunca quanto ao conhecer; porque fomos feitos para Deus, e nosso coração não repousa enquanto não chegamos a conhecê-lo. E, uma vez que não somos naturalmente capazes de conhecê-lo com nossas forças criaturais (como Deus, ele nos supera infinitamente), é necessário não somente que ele se revele, mas que ele nos conceda a graça de acolher a revelação. Mas, se Deus é amor e nos criou para ele, é de se esperar que ele se revele, e que ele nos conceda a graça de receber sua revelação.
E quanto à felicidade divina? É claro que, se em nós, criaturas, uma coisa é o que somos, outra o que sabemos, em Deus não existe esta distinção. Ele é uno e simples em si mesmo; ele é o que sabe e o que quer, não há acidentes nele. Tudo nele é essencial. Mas é possível distinguir, em Deus, seu ser, suas operações intelectivas e suas operações volitivas, e é neste sentido que São Tomás diz que o intelecto de Deus se diferencia da sua essência não realmente, mas segundo a razão de compreendê-lo. Assim, podemos atribuir a Deus a felicidade pelo fato de conhecer-se plenamente, ou seja, de contemplar-se e possuir-se perfeita e inteiramente. E assim a felicidade dele consiste neste ato de contemplar e possuir o que ele mesmo é. E é na participação deste ato que nós, criaturas com entendimento, alcançamos a nossa própria felicidade. Não é contemplando o próprio umbigo que seremos felizes; mas somente abrindo-nos à graça de receber o conhecimento unitivo com aquele que é completamente outro.
Após esta resposta de altíssimo teor contemplativo, São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor toma Boécio para afirmar que, se a felicidade é o sumo bem, e o bem é um transcendental do ser, e se a essência de Deus é ser, então em Deus a felicidade é um atributo essencial, e não um atributo do intelecto.
São Tomás vai dizer que concorda, de certa forma, com o argumento; não há como negar que Deus é essencialmente feliz. Mas ele não é feliz como uma simples decorrência da sua essência; sua felicidade, ensina São Tomás, é um ato de entendimento; é um entender-se, possuir-se, contemplar-se. É neste sentido que São Tomás diz que a felicidade cabe a Deus como um ato do entendimento.
O segundo argumento diz que a felicidade, sendo um bem, tem razão de fim. Ora, diz o argumento, o fim é sempre o objeto da vontade, não do entendimento. Assim, Deus seria feliz, diz o entendimento, em razão da sua vontade (ele quer ser feliz, e é feliz porque quer), e não do seu entendimento.
São Tomás vai responder com muita riqueza e com muita sutileza, e devemos prestar atenção, porque sua resposta é quase ininteligível para nós. Ele começa logo afirmando que a felicidade é, inegavelmente, um bem. Se é um bem, não há dúvida de que a felicidade é objeto da vontade (um bem é, como São Tomás já conceituou na questão 6, algo que atrai a vontade como um fim). Mas para que alguma coisa se apresente como objeto da vontade, ela precisa, primeiro, ser conhecida – como podemos querer alguma coisa sem primeiro conhecê-la? Se o objeto do ato de querer tem que ser conhecido para que a potência de querer se transforme em ato, diz São Tomás, resta claro que a felicidade divina é, antes de mais nada, uma realidade que Deus conhece antes de querer. (vale lembrar que falamos de “antes”, aqui, não no sentido cronológico, porque não há tempo em Deus, mas no sentido lógico, ou seja, daquilo que precede outra coisa para que a outra coisa tenha sentido). E disto São Tomás conclui que é preciso que a felicidade esteja primeiro no entendimento de Deus, para que a sua vontade se incline e repouse nela. Então a felicidade divina consiste, ente de mais nada, num ato do entendimento divino.
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