Antes de entrar no texto, registro que mudei a forma de nomear nossos debates – pareceu-me que assim fica mais simples. Vamos ao artigo agora em exame.
Afinal de contas, o que é a felicidade? Para a nossa contemporaneidade, ela parece reduzida a um prazer sem fim e sem limites, o que é uma noção que soaria, aos ouvidos de São Tomás, muito tosca. Esta noção quase animalesca, hedonista, de que a felicidade é o gozo ilimitado e irrestrito do prazer, solapa, sem dúvida, o alicerce da própria ética cristã, que é eudemonista mas não hedonista nem utilitarista como as éticas modernas, e, mais ainda, torna a vida humana sem sentido. Quem sabe se não é por causa desta noção equivocada que estamos vivendo a era da depressão e da ansiedade?
Além disto, esta noção hedonista contradiz frontalmente o próprio discurso de Jesus no chamado Sermão da Montanha (Mt 5, 3-10), no qual Jesus descreve a felicidade de um modo profundamente paradoxal: felizes são aqueles que esperam nele, mesmo que, aos olhos dos outros, pareçam desgraçados, esfomeados, injustiçados, perseguidos e impotentes. A essência da felicidade, portanto, tal como descrita por Jesus (para não mencionar Aristóteles e sua ética eudemônica) e debatida por São Tomás parece estranha para nós. Em todo caso, a felicidade, compreendida como o gozo, o prazer irrestrito e ilimitado, parece ser um conceito inaplicável a Deus. Sendo incorpóreo, espiritual e transcendente, certamente teríamos dificuldade de associar a Deus aquilo que, entre nós, chamamos de felicidade. E é exatamente esta a hipótese controvertida de São Tomás, agora, para provocar o debate: “parece que a noção de felicidade é totalmente inaplicável a Deus”. E ele coleciona apenas dois argumentos objetores, neste artigo – relacionados com dois conceitos de “felicidade” que circulam nos tempos de São Tomás.
O primeiro argumento objetor toma o conceito de felicidade de Boécio. Para este nobre romano, filósofo tardio e cristão, a felicidade é definida como “o estado perfeito pela reunião de todos os bens”. Notemos, se me permitem uma digressão, que Boécio usa, aqui, a noção de “bem” como transcendental do ser, e não como “objeto de valor”, como se toma hoje em dia. É, pois, uma noção clássica, espiritual, não econômica, de bem. Mais especificamente, “bens”, aqui, seria a perfeição de cada potência de um ser, ou seja, o conjunto dos bens representa a atualização total do ser. Não se trata de ser rico, de colecionar bens no sentido burguês, mas de alcançar o máximo de perfeição no ser.
Mas, segue o argumento, é impensável imaginar que Deus, em sua perfeição simples e alheia a qualquer composição, viesse a alcançar em si a “reunião de todos os bens”, como se ele fosse composto da soma de todos os bens, e como se os alcançasse gradativamente. O argumento conclui, então, que esta noção de felicidade, tal como definida por Boécio, é completamente inaplicável a Deus.
O segundo argumento traz um outro conceito de “felicidade”, de Aristóteles. Para ele, a felicidade, ou eudemonia, é o prêmio da virtude. Também aqui é necessária uma pequena digressão, para esclarecer esta noção. Aos nossos ouvidos, pode parecer que a felicidade, descrita como “prêmio da virtude”, seja algo que é acrescentado à virtude desde fora, como uma remuneração aos virtuosos. Esta noção também é uma distorção contemporânea da noção aristotélica. Não se trata de premiar, adicionar externamente, um estado de felicidade às pessoas estoicamente virtuosas; esta é a visão que Kant tem da eudemonia aristotélica, e não é verdadeira. O que Aristóteles defendia é que a felicidade consistia exatamente na virtude, que leva à operação perfeita o virtuoso. Não é externa à virtude; é a própria virtude, com sua característica de tornar fácil, conatural, a operação virtuosa, que manifesta a perfeição da felicidade. Mas estamos nos adiantando ao próprio Tomás.
Por enquanto, o argumento toma a definição de Aristóteles por aquilo que ela parece ser: a felicidade definida como uma premiação externa adquirida pelo mérito de quem é virtuoso. E o argumento prossegue, dizendo que não se poderia imaginar que deus viesse a desenvolver virtudes e, com isto, adquirir méritos que seriam recompensados com a felicidade, como um prêmio. Logo, o argumento conclui que a ideia de felicidade é totalmente inadequada para Deus.
O argumento sed contra, mais uma vez, é bíblico, e revela a maneira pela qual Tomás leva a Revelação a interpelar o dado filosófico de que ele dispõe, fazendo-o crescer em extensão e compreensão. As Escrituras, para Tomás, não são a negação da razão, mas a interpelação generosa que Deus faz à razão humana, superando-a infinitamente sem violá-la, fazendo-a alcançar profundidades que, sem a Revelação, estariam fechados para ela. São Tomás, pois, lança o seu argumento sed contra bíblico como um desafio à razão, não como a negação dela. Aqui, ele nos traz uma citação de 1Tim 6, 15: “Nosso Senhor Jesus Cristo nos mostrará nos tempos estabelecidos o Bem-aventurado e único Soberano, o Rei dos reis, o Senhor dos senhores.” Se felicidade e beatitude são sinônimos, então a Palavra nos revela que Deus é feliz.
Neste ponto, São Tomás passa a responder. E começa logo afirmando que a felicidade cabe, em primeiro lugar e propriamente, a Deus; e nos dá sua própria definição de felicidade. Que não se define prioritariamente, para Tomás, nem pelos sentimentos de alegria e prazer, nem por uma vontade voraz que de repente fosse saciada de tudo o que ambiciona; para São Tomás, a felicidade é, primordialmente, um bem intelectual. De fato, desprovida da visão intelectual que é capaz de reconhecer o bem que se almeja e se conquista, a vontade não passaria de uma gula voraz e infinita, que, mesmo apossando-se de tudo dificilmente reconheceria que basta. De fato, nosso coração, como diz Santo Agostinho, foi feito para Deus, e por isto tem em si mesmo um buraco infinito – jamais será preenchido pelos bens finitos, mesmo que se aposse do universo inteiro, porque somente o infinito, para o qual fomos criados, pode nos saciar. Reconhecer isto, no entanto, é uma reflexão, portanto é um ato do intelecto.
Deus é o bem perfeito e infinito. Ele mesmo, portanto, por seu próprio ser, é a única coisa que pode atrair perfeitamente a vontade divina, sendo suficiente para torná-la plenificada. Assim, diz São Tomás, o ato de inteligência pelo qual Deus reconhece a si mesmo como o bem perfeito, e reconhece que a possessão plena de si mesmo é suficiente para saciar plenamente a própria vontade infinita, tornando-o plenamente livre e autodeterminado, é a própria definição de felicidade. Assim, ser feliz é compreender a suficiência do bem que possui e ser plenamente capaz de possuí-lo e determinar-se livremente e pessoalmente, no seu agir, em conformidade com ele. Ambas as coisas, possuir o bem em grau suficiente para saciar plenamente a vontade, e ser capaz de reconhecê-lo e dirigir-se livremente em conformidade com ele, cabem de modo perfeito e próprio a Deus. Assim, a felicidade, em Deus, é originária; e não somente isto. Se Deus encontra em si mesmo a felicidade plena, e neste sentido é o único ser originariamente feliz, ele mostra toda a sua bondade ao colocar-se disponível para ser a fonte de felicidade plena de todas as criaturas. Não só jamais seremos felizes sem Deus, como podemos ter a certeza de que ele está sempre lá disponível para nós. Em sua maravilhosa generosidade, criou-nos para participarmos da felicidade infinita que está nele.
Isto assentado, São Tomás passa a responder às objeções iniciais. A primeira objeção, como lembramos, toma a definição de Boécio de que a felicidade é o “estado perfeito pela reunião de todos os bens”, para afirmar que em Deus nada poderia ser reunido, como se estivesse disperso, ou ajuntado, como se acrescentasse alguma coisa, porque em Deus não pode haver pluralidade ou composição de partes. E disto o argumento conclui que a noção de felicidade, pressupondo acumulação de uma multiplicidade de bens, é inaplicável a Deus.
São Tomás vai responder que, em Deus, na sua simplicidade, preexistem todos os bens de modo simples e uno, não como uma coleção reunida, mas como perfeição essencial; a multiplicidade de bens que vemos nas criaturas é a expressão concreta e múltipla daquilo que nele é simples e uno. É uma visão muito bela, que tem uma raiz neoplatônica – mas nem por isto ultrapassada – e bíblica (Gn 1 – 2,4), quando nos lembramos que o primeiro relato da criação, na Bíblia, mostra-nos Deus contemplando as criaturas e atestando que tudo era “bom” e “muito bom”. Talvez recuperar esta ideia de que cada coisa criada revela uma fração, um pequeno raio da plenitude da bondade íntegra e perfeita de Deus nos permitisse uma saída desta cultura da depressão e da morte em que vivemos, deste pessimismo niilista a que o mundo chegou sem Deus.
O segundo argumento toma a definição de felicidade de Aristóteles, que a via como recompensa pelo mérito, ou “prêmio da virtude”, algo que se acrescenta de fora à pessoa virtuosa em razão do mérito de sua virtude. E por isto o argumento diz que a felicidade é uma noção inaplicável a Deus, porque não se pode imaginá-lo sendo “recompensado” por algum “mérito” de ser “virtuoso”.
São Tomás diz que não se pode simplesmente tomar um conceito forjado para as criaturas e aplicá-lo sem mais a Deus, e, percebendo sua inadequação, declarar que ele não cabe em Deus. De fato, diz ele, nas criaturas a perfeição de ser sempre decorre de um processo de passagem da potência ao ato; o ser, na criatura, é sempre o fim de um processo de geração ou de transformação. Neste caso, poderíamos dizer, de algum modo, que ser, para a criatura, é o “prêmio” pela consumação do processo geracional. Mas Deus não surge como uma consumação de um processo de geração ou de transformação, ele simplesmente é, e sempre foi. Assim, não poderíamos dizer que a noção de “ser”, que em nós, criaturas, designa a consumação da passagem de uma potência a um ato, é inaplicável a Deus porque nele não há geração, nem passagem de potência ao ato. Deus é o ser, sem ser gerado. Do mesmo modo, Deus é feliz por ser completo e saber-se pleno, sem ter passado pelo processo de desenvolver virtudes e adquirir méritos para ser premiado. Deus é sem ser gerado, e é feliz sem ter merecido, diz São Tomás. Simples assim.
Debater a felicidade de Deus, portanto, nos traz importantes pistas sobre como e onde buscar a nossa própria felicidade.
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