Após ter colocado a questão a respeito da possibilidade de que Deus, na sua onipotência, pudesse fazer as coisas melhores do que são, São Tomás passará a nos oferecer a sua resposta sintetizadora. Ele começa, como não é incomum em seus escritos, fazendo uma distinção.
Ele diz que há dois sentidos em que se pode falar de fazer as “coisas melhores”. O primeiro é o sentido essencial; um ser humano, por exemplo, é essencialmente um animal racional. Quanto, portanto, à própria essência da coisa, não há como fazer a coisa ser melhor do que é. Se Deus fizesse que um ser humano pudesse ser definido essencialmente como “melhor do que um animal racional”, ele há não seria humano. Ou seja, modificar uma essência para melhorá-la transforma a própria coisa em outra coisa. E ele dá um exemplo: imaginemos que alguém quisesse melhorar o número 4, acrescentando a ele mais uma unidade; neste caso, ele já não seria o número quatro; seria agora o número cinco. Assim, conceitualmente não é possível alterar a essência de alguma coisa a pretexto de melhorá-la sem transformá-la em alguma outra coisa que agora ela não é. A própria ideia de “melhorar essencialmente alguma coisa”, alterando sua própria essência sem que a coisa deixe de ser ela mesma é contraditória, e portanto está além da potência absoluta de Deus, por descrever uma impossibilidade conceitual – mudar algum elemento de uma essência e ao mesmo tempo imaginar que ela continue igual a si mesma.
Mas há um outro sentido para a expressão “fazer as coisas melhores”; trata-se da bondade acidental, exterior, portanto, à essência da coisa. Assim, um ser humano é, essencialmente, um animal racional; mas acidentalmente ele pode ser uma pessoa sábia ou um néscio. Se Deus, portanto, o torna sábio e prudente, torna-o melhor do que ele era. Neste sentido, Deus pode sempre fazer com que as coisas sejam melhores do que são agora.
E, para finalizar, São Tomás conclui que Deus sempre terá o poder de fazer outras coisas, diversas das que hoje existem, e que sejam melhores do que aquelas que hoje existem. Neste caso, não estamos falando nem de “melhorar a essência” de alguma coisa que está por aí (tornar um cão num animal racional, por exemplo, o que o faria simplesmente deixar de ser um cão e passar a ser uma outra coisa), nem de aperfeiçoar acidentalmente algo que hoje existe (infundir sabedoria num néscio, por exemplo). Estamos falando de criar coisas novas, com outras essências, que eventualmente sejam melhores do que tudo o que já foi criado antes. Isto é parte da onipotência absoluta de Deus sempre, diz São Tomás. A bondade de cada espécie de criatura não esgota jamais a onipotência absoluta de Deus.
Tendo sintetizado assim sua resposta, São Tomás passa a responder às objeções iniciais.
O primeiro argumento objetor dizia que Deus já faz cada coisa que faz usando o máximo do seu poder e de sua sabedoria, portanto seria impensável que ele pudesse fazer algo melhor do que já fez. São Tomás novamente vai responder fazendo distinções, com relação ao sentido da palavra “melhor”.
Se compreendermos a palavra “melhor” no sentido substantivo, diz São Tomás, ou seja, se ela descreve concretamente a possibilidade de fazer uma coisa nova, essencialmente diversa de tudo o que existe, e que possa ser melhor do que todas as outras coisas anteriormente criadas, então a resposta é positiva; Deus tem este poder sempre.
Também é verdadeiro que Deus sempre possa melhorar alguma coisa que já existe, se a palavra for usada para descrever o aperfeiçoamento de alguma coisa quanto aos seus acidentes, como no exemplo da sabedoria infusa que torna sábio um ser humano néscio.
Por fim, há um terceiro sentido em que a palavra “melhor” se refere ao modo pelo qual Deus faz as coisas, (como uma criança que faz sua lição de casa desatento, e a mãe, ralhando, lhe diz: “faça esta tarefa de um modo melhor, meu filho”) então ele descreve uma impossibilidade; não há como imaginar que Deus pudesse agir com mais sabedoria, com mais discernimento, com mais cuidado do que age sempre. Deus não precisa se corrigir ou se revisar; ele acerta tudo na primeira vez, sua onipotência envolve total autodomínio e maestria. Assim, Deus não pode, neste sentido, “fazer algo de um modo melhor” do que sempre faz. Se ele tivesse que se aperfeiçoar, que se dominar, que se corrigir, ele já não seria Deus. Esta hipótese está, portanto, para além da noção de onipotência absoluta, porque descreve algo conceitualmente contraditório.
O segundo argumento objetor cita Santo Agostinho, que afirma (num contexto completamente diverso do presente) que, se Deus podia fazer algo melhor e não o fez, ele estaria sendo egoísta ou invejoso; então não haveria como Deus fazer algo melhor do que o que já fez, sem admitir que ele teve motivos desprezíveis para não fazer o melhor que podia.
São Tomás vai usar, aqui, sem o dizer explicitamente, a diferença entre “gerar” e “criar”. Quando, na Trindade Santa, falamos que o pai gera o filho, estamos falando de uma univocidade; é da natureza daquele que é gerado igualar-se ao que gera. É por isto que, mesmo entre as criaturas, o filho terá a mesma natureza do pai. Mas quando falamos da criação, em relação com Deus, estamos falando de algo que vem de uma causalidade equívoca: a criação não tem a mesma natureza que Deus, é apenas um produto de seu trabalho, é uma obra sua (se podemos dizer assim, usando de uma linguagem analógica). Neste caso, ela não pode trazer em si a mesma perfeição do criador; portanto, diz Tomás, a comparação que o argumento faz é inadequada.
O terceiro argumento objetor diz que o universo, o conjunto da criação, reúne em si as perfeições de cada coisa e a perfeição do conjunto, ou seja, os bens particulares e o bem comum, então não pode ser superado no bem; não poderia haver nada melhor do que o bem representado pelo conjunto da criação. E disto o argumento conclui que nem sempre está no poder de Deus melhorar o que fez.
São Tomás mais uma vez faz uma distinção maravilhosa. De fato, diz Tomás, suposta a ordem da criação, tal como existe, não se poderia imaginar que ela pudesse ser melhorada. Como as cordas de um violão, que devem apresentar a tensão adequada para soar bem, o universo, em seu conjunto, tem o equilíbrio perfeito para ser o que é. Mas isto não significa, diz São Tomás, que Deus não pudesse criar um universo diferente, com outro equilíbrio, ou de algum modo reequilibrar o nosso, se quisesse criar outras coisas melhores do que as que já existem. Portanto, o argumento não é capaz de provar sua hipótese.
Por fim, o quarto argumento traz três exemplos de realidades que nem Deus poderia melhorar: a humanidade de Cristo, a felicidade eterna dos santos e a integridade de Maria, para concluir que o poder de Deus nem sempre inclui melhorar as coisas criadas.
São Tomás dirá, no entanto, que estas três coisas não são, realmente, passíveis de nenhuma superação, porque sua bondade insuperável está em relação com a própria essência divina; a humanidade de Jesus está unida inseparavelmente, sem confusão nem mistura, mas também sem divisão ou separação, sendo uma só pessoa em duas naturezas. Daí vem sua bondade insuperável. Quanto à felicidade eterna, ela consiste em fruir do próprio Deus; ou seja, fruir do insuperável bem. Por fim, Maria é a mãe de Deus, diz São Tomás, e por isto guarda dignidade infinita, insuperável. Ou seja, estas três coisas são de fato insuperáveis pelo que têm de divino, não pelo que têm de criatural.
Chegaremos, no próximo texto, à última questão deste primeiro tratado da Suma, sobre Deus visto em sua unidade. Para retomar aquela imagem da visita a uma antiga e maravilhosa catedral, encerraremos o primeiro conjunto de salas. Um passeio profundamente enriquecedor!
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