Mais uma vez, São Tomás nos convida a um debate forte, que explora o significado de falar em “onipotência”. É necessário compreender que a onipotência divina, quando concebida em abstrato, leva-nos a enormes equívocos, com prejuízo inclusive ao anúncio da fé. Nada parece mais repugnante aos ouvidos contemporâneos do que a imagem de um Deus prepotente, e nada pode ser mais distante do Deus verdadeiro do que uma imagem assim. Por outro lado, a ideia de que Deus, na sua onipotência, possa, de alguma forma, permitir a imperfeição, ou conviver com o desamor, é muito difícil de compreender ou aceitar. O que está em jogo no presente debate, portanto, é a necessidade de que a onipotência (concebida abstratamente, ou “onipotência absoluta”, que é a expressão que São Tomás usa no artigo anterior) se encarne, ou seja, seja concretizada na forma de decisões concretas que a especifiquem, resultando “nesta” criação, e não em outra. O que não significa que esta criação em concreto fosse a única, e eventualmente que ela seja em tudo a melhor. A criação, esta criação, não esgota o poder maravilhoso e infinito de Deus, mas o poder maravilhoso e infinito de Deus só pode manifestar-se por meio da determinação de sua vontade. A pergunta é: estamos no melhor dos mundos, cercados pelas melhores das coisas? Tudo o que é, tem que necessariamente ser como é, ou eventualmente poderia ser melhor?
É interessante que haja, inclusive, uma abertura pare a discussão sobre a possibilidade de uma evolução, de uma transformação evolutiva dentro da criação. Se está dentro do poder de Deus fazer com que as coisas possam ser melhores do que são, então nada impediria que a nossa criação, sendo uma realidade aberta como é, pudesse eventualmente ser melhorada, quer com o trabalho humano, quer no próprio processo de reequilibrar sua dinâmica.
A hipótese controvertida, aqui, é de que Deus não poderia fazer as coisas melhores do que já são. Ou seja, estaríamos, caso a hipótese seja verdadeira, no melhor dos mundos possíveis, e enjaulados num mundo fixo e avesso à transformação. E São Tomás recolhe quatro argumentos objetores, no sentido desta proposição controvertida inicial.
O primeiro argumento diz que tudo o que Deus faz, ele faz com pleno poder e pleno conhecimento. E disto o argumento conclui: quanto mais poder e mais conhecimento alguém tem, melhor é sua obra, e conclui dizendo que uma obra feita com pleno poder e pleno conhecimento nunca poderia ser melhorada. Não haveria o que melhorar. Então, diz o argumento, Deus não poderia fazer nada melhor do que o que fez.
O segundo argumento parte de uma citação de Santo Agostinho. Segundo ele, o Filho é igual ao Pai por causa da absoluta bondade e da plenitude da doação dina na geração. “Se Deus pudesse gerar um filho igual a si, mas não o fizesse, então Deus teria sido invejoso”, (diríamos hoje: egoísta). Do mesmo modo, diz o argumento, se ele pudesse fazer coisas melhores do que as que efetivamente fez, mas preferiu não fazê-las, teria sido egoísta também. Mas em Deus, diz o argumento, não há espaço para invejas e egoísmos, e disto o argumento conclui que Deus já fez tudo o que veio a fazer da melhor forma possível, e, portanto, não é imaginável que ele pudesse fazê-las ainda melhor.
O terceiro argumento parte de um raciocínio semelhante, mas desta vez envolvendo a universalidade da criação. Além dos argumentos anteriores, que partem da ideia de que cada coisa em si já foi criada de maneira a exprimir o poder e a sabedoria de Deus em grau máximo, e por isto não poderia ser melhorada, o universo foi criado de modo a sintetizar em si o bem de todas as coisas e de qualquer delas. O universo, ou seja, o conjunto da criação, reunindo em si a perfeição de todas as coisas e o bem comum, ou seja, a perfeição do conjunto, é bom, segundo o argumento, em grau máximo, porque reuniria em si o bem particular e o bem universal em todas as suas dimensões. Se cada criatura é boa, diz o argumento, a universalidade das criaturas é a síntese de todo bem, portanto. Segundo o argumento, portanto, nem Deus poderia fazer a criação, como universalidade, ser melhor do que já é.
Por fim, o quarto argumento é cristológico. Jesus é homem, plenamente homem, além de plenamente Deus. Mesmo em sua dimensão humana, seria impossível melhorá-lo. Do mesmo modo, a felicidade eterna dos redimidos é um bem, um dom criado, mas é o sumo bem, diz o argumento; sendo sumo bem, seria impossível, até conceitualmente, melhorá-lo. Por fim, o argumento lembra da Virgem Maria, plena de graça, exaltada e coroada por sobre os próprios anjos; ou seja, de toda a criação nada pode ser melhor do que Maria. Logo, pelo menos estas três coisas revelam um limite do poder de Deus para melhorar as coisas, e, portanto, nem sempre Deus pode fazer melhor as coisas que fez.
Como argumento sed contra, São Tomás traz uma citação bíblica que nos impele para mais além do limite dos esforços da razão. Trata-se de Efésios (3, 20), que declara que Deus é “aquele, cujo poder, agindo em nós, é capaz de fazer muito além”, ou, na leitura da Vulgata, que São Tomás conheceu, “é capaz de fazer muito mais do que tudo o que pedimos ou concebemos”.
Mas, em contrário, o Apóstolo diz que Deus é poderoso para fazer todas as coisas mais abundantemente do que pedimos ou entendemos.
Tendo colocado assim o problema, São Tomás passa à sua resposta sintetizadora. Que veremos no próximo texto.
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