Tendo colocado a hipótese controvertida e os argumentos iniciais, São Tomás deu sua resposta sintetizadora, que visitamos no último texto.
Agora, debateremos as respostas aos argumentos objetores iniciais, que são sempre muito enriquecedores para uma visão completa do artigo. O primeiro argumento objetor diz que Deus nada faz sem prever e predeterminar, ou seja, sem estabelecer de antemão a ordem inteligente e justa em tudo o que fará. Mas, diz o argumento, Deus só prevê e predetermina aquilo que efetivamente fará. E só faz o que previu e predeterminou. Assim, o seu poder somente se estende àquilo que ele efetivamente fez.
A resposta de São Tomás busca logo afastar um equívoco que perpassa todo este artigo, e que torna bastante errônea a nossa visão sobre o poder de Deus: trata-se da ideia de que, em Deus, haveria a possibilidade de uma cisão, de uma oposição mesmo, entre sua essência, sua potência, sua vontade e seu intelecto. Em nós, seres humanos, é claro que é assim: pode acontecer, em nós, de termos o poder de fazer, e mesmo querer fazer, algo que repugna a nossa própria inteligência, como no caso de pessoas adictas, que não conseguem abandonar a bebida, o fumo ou o jogo, embora reconheçam intelectualmente que aquilo lhes faz mal. Neste caso, há uma oposição real entre a nossa vontade e a nossa inteligência. O nosso poder de agir, portanto, pode estar em oposição a nós mesmos, a nossa essência, como no caso de um ser humano que elege o suicídio.
Em Deus não é assim. O seu poder é um com seu ser, e é um com sua inteligência e com sua vontade, e é justo por definição. Assim, não seria possível imaginar que algo estivesse em seu poder sem estar também em sua justa vontade e no seu intelecto sábio. Para nós, humanos, é muito difícil compreender como isto poderia ser assim; como Deus poderia ser tão completamente uno, tão perfeitamente integrado consigo mesmo, porque nós somos limitados, fragmentados e contraditórios.
No entanto, diz São Tomás, Deus não está compelido por nenhum fim em particular, a não ser pela sua própria essência perfeita, que ele não pode, por definição, deixar de amar e de querer (este é apenas um modo humano de falar – não se trata de “não poder deixar de amar sua própria essência”, senão de reconhecer que a unidade perfeita de Deus leva-o ao perfeito equilíbrio consigo mesmo – sendo o amor perfeito, e sendo o bem absoluto, amar-se é uma decorrência necessária, que só muito limitadamente conseguimos expressar em palavras humanas). Quanto aos bens criados, sempre limitados, precários e contingentes, eles não podem mover irresistivelmente a vontade de Deus, determinando-a. Assim, qualquer ordem criada revela a providência, o desígnio e a predeterminação de Deus, mas não esgota o seu poder – porque os fins das criaturas, e mesmo o fim da criação inteira, é Deus, e não o contrário. Assim, a ordem criatural não vincula nem limita Deus, de modo absoluto, porque ele sempre poderia – e sempre pode – fazer tudo e muito mais do que o que efetivamente faz. No entanto, faz o que faz porque é infinitamente livre. O que ele faz, ele o faz não porque as coisas tenham, por assim dizer, a capacidade de se impor à sua vontade, mas simplesmente porque ele quer que elas sejam assim. O que não significa que elas só possam ser assim.
Mas a tudo isto que está dentro do poder absoluto de Deus (que, como vimos, não tem oposição real com sua vontade, com sua inteligência e com sua essência), mas não necessariamente é objeto de sua eleição para que efetivamente ganhe existência criatural, São Tomás chama de “onipotência absoluta”, ou seja, tudo o que pode ser concebido sem revelar contradição analítica interna, mas que não necessariamente foi dado a existir por Deus. Aquilo, no entanto, que foi eleito para existir, e que passou por sua previsão e provisão maravilhosa e imutável, São Tomás chama de “potência ordenada”, ou seja, aquilo que Deus efetivamente faz. De certa forma, toda a onipotência divina é ordenada, porque não é possível falar em desordem, quanto a Deus. O que se está dizendo, aqui, é que, em Deus, aquilo que está previsto, predeterminado e eleito não pode entrar em contradição consigo mesmo, e por isto de certa forma revela a congruência divina, não como uma espécie de limite autoimposto a uma onipotência completamente caótica em si mesma, mas como a perfeita harmonia de um ser que, sendo amor pleno, está em perfeita sintonia consigo mesmo e com aquilo que faz. A onipotência ordenada não é, portanto, um limite (no sentido que os nominalistas enxergam a “lei” como oposta à “liberdade”), mas, ao contrário, a própria expressão, a culminação da liberdade divina. É preciso, pois, ter muito cuidado com esta ideia de “potência ordenada”: ela não pode ser concebida como uma forma de “domesticar Deus”, de controlar seu agir, de impor a ele a nossa própria estreiteza e a nossa própria necessidade de estabilidade. A ideia de potência ordenada é simplesmente a constatação maravilhosa de que Deus é pessoa, e, como pessoa perfeita que é, é sempre um mistério para nós. E São Tomás acrescenta uma advertência final: Deus faz o que quer; mas o seu poder não é uma consequência de sua vontade, senão parte de sua essência mesma. Deus não é o poder incondicionado, ele não é uma potestade prepotente. Deus é amor, amor pessoal infinito.
O segundo argumento objetor diz que Deus é bondade e justiça infinitas. Logo, se ele não faz alguma coisa, é porque esta coisa (que ele não fez) ou não é justa, ou não é boa. Assim, o argumento diz que ele não pode fazer nada diferente do que faz.
São Tomás responde que não há ninguém acima de Deus, a quem ele devesse prestar contas do que faz, e averiguasse se Deus “deve” ou não fazer isto ou aquilo. Assim, diz Tomás, há duas maneiras de entender a afirmação de que Deus só pode fazer aquilo que é justo e conveniente que faça. A primeira maneira é entender que, de alguma forma, as coisas existentes formassem uma espécie de limite ao poder de Deus, de modo que ele devesse pautar seu poder por aquilo que é justo e conveniente frente ao estado atual da criação. Esta visão é falsa, diz São tomás, porque pressupõe que alguém possa julgar Deus ou impor-lhe limites no agir.
Mas se compreendermos a expressão “Deus só deve fazer o que é conveniente e justo” como descrevendo de algum modo aquilo que Deus é em si mesmo, ou seja, que ele, sendo em si mesmo bondade e justiça infinitas, exprime sempre e necessariamente, em tudo o que faz ou pode fazer, esta mesma bondade e esta mesma justiça, então, diz São Tomás, a expressão é verdadeira.
Por fim, a terceira objeção diz que Deus só faz o que é congruente com as coisas feitas, ou seja, ele não deve fazer o que não é bom e não é justo para com as coisas que ele fez. Assim, o argumento conclui que Deus não tem poder para fazer nada diferente do que faz.
A ideia errônea aqui, diz São Tomás, é imaginar que o fato de que a criação tem uma ordem interna seria um constrangimento à onipotência divina, porque de algum modo limitaria Deus a respeitar sempre esta mesma ordem, na expressão do seu poder. Se ele deu uma ordem à criação, pensam erradamente os defensores desta posição, então ele abdicou do poder de fazer qualquer coisa contra, sem ou além desta mesma ordem, e sua onipotência, a partir da criação, está limitada pela lógica interna da própria criação.
Mas isto não é verdade, diz São Tomás. Deus respeita a ordem que ele mesmo deu à criação, porque é a ordem mais conveniente às coisas criadas. Mas isto não significa, nem pode significar, que Deus não pudesse criar outras coisas, com uma ordem diferente da que atualmente existe. Deus é onipotente. Mas também é coerente.
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