No texto anterior, colocamos a hipótese controvertida proposta por São Tomás, de que Deus não teria poder para fazer nada diferente do que efetivamente fez, e os argumentos objetores, encerrados por um argumento sed contra em que Jesus expressamente afirma que poderia pedir a Deus para mudar o rumo da história, mas voluntariamente não o fará – de onde o argumento retira a conclusão de que Deus sempre poderia fazer as coisas de modo diferente do que efetivamente faz.
São Tomás começa sua resposta sintetizadora esclarecendo-nos de que, neste assunto, há duas posições equivocadas:
1) A primeira delas opõe o poder de Deus a uma espécie de “necessidade da natureza divina”, retirando dele a sua liberdade. Assim, como uma semente de milho jamais poderia engendrar qualquer outra planta que não fosse um pé de milho, ou um casal humano não poderia conceber outra coisa senão um bebê humano, assim Deus, por sua natureza, não poderia engendrar outra coisa senão esta criação que conhecemos. É uma posição, diríamos hoje, muito parecida com aquela da dialética hegeliana, na qual a criação surge como antítese da divindade a ser sintetizada posteriormente, numa síntese final na qual Deus e a criação se integrariam, unificando-se num todo mais elevado.
Não existe esta “necessidade da natureza divina” em criar as coisas assim como são, diz São Tomás. Deus não cria por necessidade, mas por um ato livre de vontade, no qual o seu amor infinito transborda superabundantemente. Em suma, Deus não precisa criar nada, e não precisa que a criação seja deste jeito que é. Ele a cria assim porque quer, porque ama, e porque quer que ela descubra o amor e o viva. Por isto, diz São Tomás, não há nenhum fundamento para dizer que as coisas criadas não poderiam ser de outro modo, que elas devem necessariamente ser como são, e que Deus não tem poder para fazê-las diferentes do que são. Elas poderiam ser de outro modo, elas não são como são por necessidade, mas por escolha amorosa de Deus, e ele tem poder para que as coisas fossem diferentes do que são. Não há, pois, nenhuma espécie de “necessidade intrínseca” em Deus que se opusesse à sua onipotência, limitando-a.
2) A segunda posição equivocada opõe o poder de Deus à sua inteligência e à sua justiça, como se a inteligência de Deus, ou mesmo a justiça divina, fosse nele uma espécie de “dimensão superior” alheia ao seu poder e capaz de fiscalizá-lo. Assim, os que adotam esta posição dizem que o poder de Deus está como que constrangido a criar as coisas assim como criou, porque esta ordem, atualmente existente, seria a única compatível com a sabedoria e a justiça de Deus. Assim, seria como se Deus primeiro pesasse as coisas com a sabedoria, em seguida verificasse que tudo estivesse de acordo com sua justiça e, por fim, constrangesse seu poder a obedecer à sabedoria e à justiça quando estivesse sendo utilizado.
Este é o equívoco: não há oposição, em Deus, entre sua sabedoria e sua justiça, por um lado, e o seu poder, por outro. A sua onipotência expressa exatamente a infinitude de sua sabedoria e a inesgotabilidade de sua justiça. Em deus, a sabedoria e a justiça não são limites de poder, mas são exatamente a estrutura, se podemos dizer assim, deste mesmo poder.
Por isto, diz São Tomás, não se pode dizer que o fato de que Deus fez tudo o que existe com sua sabedoria, e fundamentado na sua justiça perfeita, demonstraria que ele não poderia fazer nada de outro jeito. Se, por um lado, não se poderia pensar num “poder divino” que estivesse mais além da sabedoria e da justiça, uma espécie de “onipotência arbitrária” de Deus, por outro lado não há nenhum motivo para pensar que a ordem e a justiça intrínseca à criação esgotem toda a sabedoria e toda a justiça de Deus. E a prova disto está na ordem das causas finais, diz São Tomás.
De fato, diz ele, nós, seres humanos, esgotamos a nossa sabedoria em organizar alguma coisa com vistas ao seu respectivo fim. O fim do palito de fósforo, por exemplo, é gerar fogo, e toda a sua estrutura está organizada de modo sagaz para fazê-lo de modo seguro e humanamente possível: sua extensão é apropriada para não deixar queimar o dedo do operador, a caixa traz a lixa necessária à fricção, a cabeça tem a quantidade de produtos químicos justamente suficiente para produzir fogo, quando friccionado. Qualquer outro humano que se determinasse a produzir um artefato similar teria que levar em conta exatamente estas variáveis, para atingir a este mesmo fim a partir dos mesmos meios. Vale dizer, a caixa de fósforo (como qualquer outro artefato humano) tende a revelar o limite do poder do seu criador, a partir da adequação dos recursos materiais e formais pelas causas eficientes, de modo a atingir o fim específico a que se destina – no caso do palito de fósforo, é produzir fogo, e não, digamos, congelar água. O fim próprio especifica, pois, todas as outras causas, e as limita. E revela integralmente o poder, a inteligência e a justiça do artífice.
Mas qual é o fim próprio da criação? O fim da criação é participar da bondade divina. A bondade divina, em si mesma, é infinita, enquanto a criação é finita. Trata-se, pois, não de um fim que estabeleça um limite, mas, ao contrário, de um fim que supera, em todos os sentidos, a própria criação. É um fim desproporcionado à natureza da criação, no sentido de que ela, sendo em si mesmo finita, visa ao bem infinito como seu fim. Assim, aquilo que ordena a criação, que determina nela a sua justiça, não é algo que esteja diretamente proporcionado à sua natureza intrínseca, mas a supera infinitamente. Em suma, o fim da criação não a determina, antes a liberta e a torna misteriosa, aberta, surpreendente, inesgotável em seu devir.
Disto tudo, devemos concluir que a ordem da criação não pode esgotar a sabedoria de Deus, porque seu fim ultrapassa, sem proporção, a tudo o que é criatural. E, portanto, temos que reconhecer, com São Tomás, que não podemos admitir que o exame da ordem intrínseca da criação possa nos fazer concluir que ele esgota a sabedoria divina, e que, de algum modo, nos revela o limite de seu poder. Ao contrário, temos que concluir, necessariamente, que poderia haver muitas outras maneiras, inimagináveis por nós, pelas quais Deus poderia organizar sua criação de modo a fazê-la justa e também capaz de atingir ao seu maravilhoso fim. E disto podemos afirmar que Deus poderia, perfeitamente, fazer as coisas diferentes do que fez, sem ferir nem a sua própria natureza, nem a sua sabedoria, nem a justiça que inscreve em tudo aquilo que cria. A criação, tal como se nos apresenta, não esgota a onipotência de Deus. Nós é que temos a pretensão de aprisioná-lo em nossos próprios raciocínios vãos. Deus sempre pode nos surpreender sem se contradizer.
A partir deste ponto, São Tomás passará a responder aos argumentos objetores iniciais. Veremos as respostas no próximo texto.
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