A discussão, agora, centrar-se-á na questão da relação entre a liberdade de Deus e sua onipotência. Será que podemos dizer que a onipotência impõe a Deus a necessidade de usá-la sempre e totalmente a cada momento, como se Deus fosse uma máquina de poder programada para agir sempre com intensidade máxima e incessantemente? Ser onipotente significa usar sempre e completamente, a cada momento, seu poder inteiro? Se fosse assim, teríamos que admitir que tudo aquilo que Deus fez e fará na sua criação representa o limite do poder de Deus. A criação nos revelaria, portanto, que o limite do poder de Deus é fazer o que já fez. Se Deus fez o que fez, se criou todo o universo, se nos criou, neste universo (e cada um de nós) de certa forma manifesta a totalidade do poder de Deus. Se a onipotência sempre deve se manifestar integralmente em cada ato divino, então o que está feito representa o máximo da expressão do poder de Deus, e ele não somente não poderia ter deixado de fazer o que fez, como também não poderia ter feito nada diferente do que já fez. Ao fazer o que faz, ele já revelaria, simultaneamente, tudo o que pode fazer.
Em suma, Deus não seria livre perante o seu poder; deve usá-lo sempre, deve usá-lo no máximo e não pode fazer nada diferente do que já fez. A onipotência seria, então, o limite da vontade divina, e a sua liberdade não seria infinita, senão condicionada à capacidade do seu poder. Em suma, a hipótese controvertida, aqui, é a de que Deus simplesmente não conseguiria fazer nada diferente do que já foi feito, porque o que já foi feito é, a um só tempo, a expressão máxima do seu poder e o seu exercício necessário.
Em favor desta hipótese controvertida, São Tomás nos trará três argumentos objetores. O primeiro argumento parte da ideia de que Deus faz aquilo que prevê e predetermina; Deus nunca age de improviso. Daí o argumento prossegue para deduzir que Deus previu e predeterminou que as coisas sejam exatamente assim como são, ou seja, ele previu e predeterminou fazer exatamente as coisas que fez, e não outras. Logo, conclui o argumento, se a previsão e a predeterminação condicionam o próprio poder de Deus, então Deus só pode fazer aquilo que faz, e não outras coisas.
O segundo argumento parte da ideia de que Deus só pode fazer aquilo que deve fazer, e que é justo que faça. O que ele faz deve ter peso e medida, não é arbitrário nem casual. E disso o argumento prossegue para dizer que aquilo que Deus não faz é exatamente o que não tem medida, nem peso, nem ordem intrínseca, e portanto não seria justo que Deus as fizesse. Portanto, diz o argumento, Deus não poderia fazer nada diferente do que faz.
O terceiro argumento vai na mesma linha; Deus, diz o argumento, está adstrito à lógica interna das criaturas, e isto limitaria seu poder. De fato, ele não poderia agir de modo contraditório com a sua própria criação; deve fazer o que é bom e conveniente com a própria criação. Mas não seria bom e conveniente à criação se Deus mudasse sua forma de agir, e fizesse que as coisas fossem algo diverso daquilo que são agora. Portanto, a estrutura da criação, sua inteligibilidade interna, demonstram que Deus não pode fazer nada diferente do que aquilo que ele faz. Este argumento coloca, pois, a inteligibilidade da criação em oposição, ou como limitação, ao poder de Deus.
Como argumento sed contra, São Tomás traz um argumento bíblico, retirado da lição que Jesus dá a Pedro durante sua prisão no Horto das Oliveiras: “pensas tu que eu não poderia apelar para meu pai, a fim de que ele pusesse à minha disposição, agora mesmo, mais de doze legiões de anjos?”
Mas, diz o argumento, nem Jesus de fato apelou para o Pai, nem o Pai enviou seus anjos – embora pudessem ter feito isto. Assim, este versículo mostra que Deus sempre pode fazer algo diferente do que faz.
Veremos a resposta de São Tomás em nosso próximo texto.
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