Nos textos anteriores, São Tomás colocou a hipótese controvertida de que Deus não é onipotente, e trouxe os argumentos que suportariam esta hipótese. Em seguida, trouxe o argumento sed contra e deu sua própria resposta sintetizadora.

Agora, São Tomás passa a responder às quatro objeções iniciais.

A primeira objeção diz que Deus não poderia ser chamado de “onipotente” porque há duas espécies de potência, a ativa e a passiva, e Deus não tem potências passivas, só ativas; e que, portanto, faltando-lhe uma das modalidades de potência, ele não poderia ser considerado “onipotente”.

São Tomás responde (de modo quase seco) que o que importa, quando falamos da potência divina, são as potências ativas, e não as passivas. Assim, não é uma objeção válida, para negar a onipotência, que Deus não tenha potencialidades no sentido passivo da palavra. O que está em jogo aqui é o poder de Deus. Potencialidades não são poder, mas apenas promessas de perfeição.

A segunda objeção quer argumentar que seria inconveniente atribuir onipotência a Deus porque haveria uma coisa que Deus jamais poderia fazer: pecar. Uma vez, diz o argumento, que Deus é incapaz de pecar, não poderíamos dizer que ele é onipotente – já que há alguma coisa de que ele não é capaz.

São Tomás responde lembrando do próprio conceito de pecado. O que é pecar? É deixar de realizar uma ação perfeita. Afastar-se de Deus. Como poderia, então, um ser onipotente, com poder infinito, jamais realizar uma ação imperfeita, ou mesmo, como poderia Deus afastar-se de si mesmo? É óbvio, pois, que a própria noção de pecado é contraditória com a própria condição divina.

Em seguida, São Tomás lembra que Aristóteles chegou a mencionar que “Deus, como os homens virtuosos, pode fazer o mal”. São Tomás diz que esta frase pode ser compreendida, mesmo nos limites da Revelação, de duas formas:

1. Trata-se de uma afirmação condicional: assim como um homem virtuoso, que tem pleno domínio de suas ações e poderia pecar, se quisesse, mas não o faz porque não quer, já que sabe e está convicto de que o pecado é desinteressante, Deus, sendo onipotente, poderia, se quisesse, fazer o mal, mas não tem nenhum motivo para fazê-lo. Se esta é uma proposição condicional, nada impede que ela utilize antecedente e consequente impossíveis, diz São Tomás; como seria verdadeira a condicional “Se o ser humano é um asno, então ele tem quatro patas”, embora, dada a realidade fática, saibamos que o ser humano não é um asno.

2. Outra forma de compreender a afirmação seria a de admitir que, embora alguma coisa que Deus faz possa ser julgada como “mal” por critérios humanos, não seriam más se ele as fizesse. Como, por exemplo, permitir a morte de uma criança, ou permitir um grande terremoto com muitas vítimas. Há, nestes casos, um bem maior envolvido nesta permissão que, embora não seja evidente aos nossos olhos, é evidente aos olhos de Deus.

Para terminar sua resposta, São Tomás menciona a relevante circunstância de que Aristóteles não conheceu a revelação judaico-cristã, e que, portanto, sua noção de Deus é muito limitada,

A terceira objeção diz que, se a expressão mais alta do poder divino são a misericórdia e o perdão, então é um poder muito fraquinho para ser designado como “onipotência”; o argumento chega a dizer que a verdadeira onipotência se manifestaria, por exemplo, se Deus fizesse coisas assombrosas como criar outros universos, reconfigurasse inteiramente a terra, e não simplesmente exercesse perdão e misericórdia.

São Tomás vai nos explicar que o perdão e a misericórdia são a expressão mais elevada de poder, por três motivos:

1. Perdoar livre e soberanamente os pecados é prova do mais alto poder; de fato, quem é subordinado, diz São Tomás, não tem poder para perdoar sem autorização de um superior. Mas quem não tem superior é absolutamente livre para dispor do seu perdão à vontade.

2. Quando Deus é misericordioso e perdoa, ele permite aos seres humanos a participação no mais alto bem, que é a vida eterna, ou seja, ele mesmo.

3. Deus não precisa de nada nem de ninguém, porque é absolutamente perfeito e completo em si mesmo. Toda a criação, portanto, é fruto da sua misericórdia infinita, que o leva a chamar tudo do nada e destinar todas as coisas a si mesmo, ou seja, à felicidade plena. Vale dizer, todas as obras da criação, o próprio mundo, o universo inteiro, existem apenas porque a bondade infinita de Deus se manifestou em sua misericórdia. Assim, de fato, São Tomás nos prova que o perdão e a misericórdia são as expressões mais altas da onipotência divina.

A quarta objeção parte de uma interpretação tendenciosa de 1 Cor 1, 20 (“Deus não tornou louca a sabedoria deste mundo?”) para dizer que, se admitíssemos que há uma onipotência divina, teríamos que negar consistência à causalidade natural, já que aquilo que parece ser necessário ou impossível já não o seria, se tudo dependesse unicamente da vontade onipotente de Deus.

São Tomás vai responder com mais uma de suas lições magistrais.

Ele começa lembrando a lição que deu, no curso de sua resposta sintetizadora, sobre os dois sentidos da palavra “possível”. Há o sentido absoluto, aquele que se relaciona apenas com o fato de que uma proposição não apresenta nenhuma contradição que a torne analiticamente impossível. Assim, um triângulo de quatro lados seria absolutamente impossível, e um unicórnio seria absolutamente possível, ainda que faticamente nunca venha a existir.

Há, no entanto, o sentido relativo, ou seja, aquele sentido que relaciona a noção de “possível” com alguma potência, como escrever é possível aos seres humanos, mas não aos golfinhos. Neste caso, a potência causadora qualifica o resultado. Quer dizer, aquilo que é próprio da potência divina, como criar, justificar, salvar, não é próprio das causas simplesmente naturais. Estas causas naturais têm resultados necessários ou contingentes, conforme sua própria natureza intrínseca. Assim, é necessário, por natureza, que dois corpos se atraiam, porque há a gravidade. Mas não é necessário, digamos, que alguém case com esta ou aquela pessoa especificamente; esta situação é contingente.

Por isto, como são as causas próximas que qualificam os respectivos efeitos, e como a causa divina, primeira e origem de todas as outras, não está em concorrência com todas as causas naturais que ela mesmo criou, o fato de que a onipotência divina se estenda até o absolutamente possível não retira a consistência das causas naturais, nem sua ordenação aos efeitos necessários ou contingentes. São duas ordens de causalidade, portanto, diferentes e não concorrentes. A consistência da inferior decorre, inclusive, da onipotência da superior, e portanto uma não ameaça a outra.