No texto anterior, apresentamos a hipótese controvertida de que Deus não é onipotente, e os quatro argumentos objetores que sustentariam esta afirmação. Vimos também o argumento bíblico que a contraria. Examinaremos, agora, a resposta sintetizadora de São Tomás.

A primeira coisa que São Tomás afirma de modo categórico é que todos os crentes costumam afirmar sem hesitações a onipotência divina, mas dificilmente conseguem explicá-la razoavelmente. De fato, diz São Tomás, existe ambiguidade na simples afirmação “Deus pode tudo”; devemos compreendê-la bem, porque a noção de “potência” está, antes de mais nada, relacionada “àquilo que é possível”. Assim, afirmar que “Deus é onipotente porque pode tudo” poderia significar, simplesmente, dizer que ele pode tudo o que é possível. Mas a noção de possível também não é unívoca, lembra o Filósofo, porque ela tem, pelo menos, dois sentidos, como São Tomás passará a explicar.

O primeiro sentido é o sentido relativo. De fato, a noção de possível se relaciona sempre com alguma potência, como podemos dizer que aos pássaros é possível voar, ou ao ser humano é possível escrever. Poderíamos dizer simplesmente que toda potência, na criatura, aponta para uma possibilidade. Ao ser humano não é possível, por suas forças naturais, voar; poderíamos dizer que ele não tem potência para voar. Mas ele tem potência para escrever, o que não é possível aos animais irracionais.

Poderíamos dizer, então, que a onipotência de Deus consiste em poder fazer tudo aquilo que é possível a alguma criatura? Não, diz São Tomás. Ou melhor, não é só isto. A onipotência divina ultrapassa infinitamente o conjunto das potências ativas criaturais, diz São Tomás. Mas necessariamente as inclui, já que ele detém em si todas as perfeições.

São Tomás, então, prossegue no seu raciocínio; se o “possível” se define como tudo aquilo que é objeto de alguma potência, poderíamos dizer que a onipotência divina consiste em poder tudo o que é possível a Deus? Esta definição pode até ser tentadora, mas é circular; é uma petição de princípio. Define “possível” como “aquilo que é objeto da potência”, e, a partir daí, define “onipotência” como “o poder de fazer tudo o que lhe é possível”; São Tomás diz que, neste caso, seria o mesmo que dizer que a onipotência consistiria em que “Deus pode fazer tudo o que pode”. Eu acrescentaria que, por tal definição, todas as coisas seriam, de algum modo, onipotentes…

Assim, São Tomás conclui dizendo que a melhor definição seria dizer que se deve partir do conceito absoluto de possível, não mais do seu conceito relativo. O conceito relativo é aquele que relaciona o possível a uma potência, e define o possível como “aquilo que é objeto de alguma potência”. Este seria, diríamos hoje, um conceito “sintético” de potência, porque dependeria de uma verificação empírica: há algum ser que tenha potência para realizar isto ou aquilo? Então isto ou aquilo é possível. Mas o conceito absoluto de “possível” não relaciona esta noção com uma potência empiricamente verificável; seria, diríamos hoje, um conceito analítico de “possível”. Possível, aqui, é definido como “tudo o que não implique contradição interna” na proposição proposta. Ou, como diz São Tomás, tudo aquilo que, numa proposição, “não repugna o sujeito”. Assim, a proposição “Sócrates está sentado” descreve uma situação possível, porque não é contraditório que um ser humano esteja sentado. Mas a proposição “este ser humano é um asno”, tomada no seu sentido literal (fora das hipóteses de metáforas ou mesmo de ofensas), é contraditória, porque nada pode pertencer à espécie humana e à espécie asinina ao mesmo tempo; pertencer a uma exclui a possibilidade de pertencer à outra. A proposição, portanto, é analiticamente contraditória, e não descreve algo possível, de modo absoluto.

Assim, diríamos que, com relação às potências ativas das criaturas, elas ficam limitadas pela própria natureza criatural – a natureza criatural, sendo composta, é limitada no ser. Assim, aquilo que é quente tem a potência ativa de transmitir calor, e quanto mais perfeita for em seu calor, mais calor transmitirá. Mas não tem, em si mesma, a potência, digamos, de levar diretamente uma outra coisa a congelar-se até o Zero absoluto.

O ser de Deus não envolve nenhuma composição, e por isto não conhece contração, especificação, nem mesmo a classificação em algum gênero do ser. A essência de Deus é existir, em si mesmo e por si mesmo. Assim, ele encerra em si mesmo toda a perfeição do ser, e neste sentido sua onipotência se estende a todo o campo do ser. E aqui chegamos ao campo da noção absoluta de “possível”.

De fato, como dizia o velho Parmênides, “o ser é, e o não-ser não é”. Assim, o que implica contradição com o ser é aquilo que não é, e isto está mais além da onipotência. Quando, numa proposição, afirmamos que algo é e não é ao mesmo tempo, a nossa contradição estabelece imediatamente algo que está fora da noção absoluta de possível. Não é, pois, que a onipotência divina não alcance aquilo que é absolutamente impossível, e com isto estabeleçamos um limite para aquilo que Deus pode fazer; é que a contradição, por limite linguístico, expressa uma irrazoabilidade, ou seja, analiticamente cria uma proposição vazia de sentido. Está fora, portanto, do limite do absolutamente possível, por ser apenas uma aberração linguística, e não a expressão de uma realidade. Assim, diz São Tomás, negar o poder de Deus propondo que ele não se estende até uma proposição contraditória, que expressa um não-ser, uma impossibilidade analítica absoluta, não contraria a noção de onipotência divina, porque a rigor não expressa nada. Deus não pode criar um triângulo de quatro lado não por que não seja onipotente, mas porque a própria noção de um triângulo de quatro lados é absurda.

E São Tomás passa a responder às objeções iniciais. É o que veremos no próximo texto.