No último artigo, discutimos a extensão, a quantidade do poder divino; é infinito. Agora a discussão é qualitativa. Que o poder infinito, naquilo a que ele se refere, é infinito, já o sabemos. Mas ele alcança tudo? Deus pode tudo? Em que sentido poderíamos dizer que ele é onipotente? Ele poderia se matar, ou mesmo criar alguma coisa que o superasse em divindade? Deus poderia criar uma pedra que nem ele pudesse levantar?

Há uma velha oposição ao Deus cristão, que se formula assim: Se Deus é onipotente e bom, por que não acaba com o mal? Se não pode, então não é onipotente. Se pode e não o faz, então não é bom.

Quanto a ser bom, já discutimos insto em debates anteriores, questões 5 e 6. Mas a questão dos limites da onipotência são exatamente o objeto de nossa discussão, agora. É possível defender que Deus é onipotente e ao mesmo temo reconhecer limites para a onipotência? Não seria uma contradição falar em “limites” para a onipotência?

É por isto que a hipótese controvertida, aqui, é a de que Deus não poderia ser onipotente. E o artigo colecionará logo quatro argumentos contra a noção de uma “onipotência” divina.

O primeiro argumento diz que a noção de potência, para ser completa, envolve também ser movido, ser transformado; todas as coisas têm esta capacidade passiva, menos Deus. Este, por definição, é imutável, como já se viu em debates anteriores. Disto, o argumento conclui que, uma vez que tem apenas a potência ativa, mas não tem nenhuma potência passiva, então Deus não possui todos os tipos de potência que existem; em suma, diz o argumento, ele não é onipotente, porque não possui a potência passiva, “potência de ser transformado”.

O segundo argumento objetor lembra que Deus não pode pecar. Mas o pecado pode dar-se também por um ato – ou, como dizemos na liturgia, peca-se “por pensamentos, palavras, atos e omissões”. Estas todas são, portanto, atitudes que Deus não pode adotar. Deus não pode renegar-se, que, no fundo, é o significado de “pecar”. Se ele não o pode, então, diz o argumento, há algo que Deus não pode. Então, conclui o argumento, Deus não é onipotente, porque existe algo que ele não pode fazer e nós podemos – pecar.

O terceiro argumento menciona que se costuma dizer que a manifestação mais elevada da onipotência divina são o perdão e a misericórdia. Mas, diz o argumento, há coisas muito maiores do que perdoar e ter misericórdia, como seriam, por exemplo, criar outro mundo ou mesmo outro universo. Se o perdão e a misericórdia representam a manifestação mais elevada do poder divino, conclui o argumento, então Deus está muito longe de ser onipotente.

O quarto argumento objetor parte de uma interpretação bastante forçada das Escrituras. Trata-se de 1 Cor 1, 20: “Deus não tornou louca a sabedoria deste mundo?”. O argumento recolhe o comentário da “glosa” corrente a este versículo, que dizia que Deus tornara louca a sabedoria deste mundo “mostrando possível o que esta sabedoria julgava impossível”. E o argumento prossegue, dizendo que, depois desta palavra revelada, temos que admitir que não podemos simplesmente julgar que algo é possível ou impossível somente a partir das causas naturais, segundas, inferiores, como fazemos a partir da sabedoria “deste mundo”. Teríamos que levar em conta, sempre, o poder divino, para quem aquilo que é impossível apenas às causas naturais seria perfeitamente possível, dada a sua onipotência.

E neste ponto o argumento faz uma observação: mas se o impossível ficou eliminado, então também está eliminado aquilo que é necessário, porque é impossível não existir aquilo que deve existir necessariamente. Com isto, toda a causalidade criada ruiria, perderia sua consistência, esse instalaria uma espécie de “ocasionalismo”, vale dizer, é Deus quem, no fundo, faz com que as coisas sejam causas, apensar da ilusão de que são elas mesmas que estão provocando seus efeitos. Se a gravidade atrai, não seria porque ela é capaz de atrair, mas porque naquele momento Deus permitiu que ela atraísse porque não quis usar a sua onipotência para revogá-la.

Como seria uma conclusão absurda imaginar que as causas segundas não provocam necessariamente seus respectivos efeitos, senão condicionadas, a cada momento, à decisão de deus de que elas os causem ou não, então o argumento conclui no sentido de negar que haja a onipotência divina.

Como argumento sed contra, São Tomás coleciona uma citação bíblica retirada de Lucas (1, 37), na qual o anjo Gabriel diz a Maria: “porque para Deus nada é impossível”.

Trata-se, agora, de estudar a resposta sintetizadora de São Tomás, que veremos no próximo texto.