No artigo anterior, vimos como é preciso ter muito cuidado para falar da potência de Deus; ela é um princípio de ação de Deus, e não é de nenhum modo diverso da sua inteligência e de sua vontade, senão esta mesma inteligência e esta mesma vontade, que são unas na essência divina, vistas sob o enfoque da capacidade de agir. Com isto, creio, rompe-se qualquer possibilidade de conflito entre a potência, a inteligência e a vontade de Deus, do tipo que se instala quando se imagina que é possível opor a potência, de algum modo, à inteligência. E fato, há quem imagine que Deus só seria potente de fato se ele tivesse a capacidade de agir contra a inteligibilidade de suas ações anteriores; ou seja, o único traço real da potência infinita seria a sua arbitrariedade. Há quem diga, por exemplo, que devemos amar a Deus porque ele ordena que nós o amemos, e isto não tem nada a ver com o fato de que, em si mesmo, ele é o próprio amor, e portanto, a amabilidade por essência. Se Deus é onipotente, dizem, ele poderia mandar que nós o odiássemos e estaríamos obrigados a fazê-lo. Vale dizer, os que separam a onipotência da essência divina tendem a achar que Deus se define pela onipotência, porque não conseguem reconciliá-la com qualquer outro aspecto igualmente divino. São Tomás faz um esforço intelectual intenso, em sua teologia, e partindo da estrutura filosófica aristotélica, para demonstrar que é na inteligibilidade do seu amor que a onipotência se manifesta. Temos muito a aprender com ele.

A discussão, neste artigo, tem foco exatamente na dimensão da potência divina. Em que sentido podemos falar que ela é infinita? Notemos que, na filosofia grega clássica, a noção de infinito trazia em si a dimensão da imperfeição, da ininteligibilidade, daquilo que não foi fechado, que não está completo. Para nós, a noção de uma potência infinita pode remeter a uma ideia de potência incondicionada, e remeter a aporias e paradoxos como a noção de que, se Deus fosse realmente dotado de um poder infinito, ele poderia criar uma pedra que nem ele pudesse levantar, mas neste caso o fato de que ele não pudesse levantar a pedra que criou implicaria que seu poder, afinal, não é infinito, porque há algo que ele não pode. Estes paradoxos, que são muito mais linguísticos do que factuais (somente a pobreza da forma humana de pensar pode permitir conceber que a onipotência envolva poder fazer algo que implicaria contradição com a própria onipotência), mas decorrem exatamente da nossa incapacidade de pensar no poder divino não como um acidente de Deus, algo separado da sua própria essência, mas como sua própria essência ordenada à ação.

Para provocar o debate, São Tomás vai propor aqui sua hipótese controvertida: parece que o poder de Deus não é infinito. E traz logo três argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento parte logo da ideia de que o infinito é aquilo que não tem limites, ou seja, que não tem uma inteligibilidade interna, uma forma que lhe dê consistência. Assim, nesta linha de pensamento filosófico clássica, seguida por Aristóteles, o infinito seria, por definição, imperfeito. Infinitude implicaria, conceitualmente, imperfeição. E disto o argumento conclui: como não pode haver imperfeição em Deus, então não se poderia admitir que seu poder fosse infinito.

O segundo argumento parte da ideia de que toda potência existe para se manifestar integralmente em seu efeito. Assim, diz o argumento, se Deus tivesse poder infinito, ele causaria um efeito infinito; vale dizer, não haveria limites na criação. Mas não é isto que ocorre; logo, o argumento conclui que o poder de Deus não é infinito.

A terceira objeção lembra outro princípio da filosofia aristotélica; segundo Aristóteles, um ser com potência ativa infinita agiria modificando qualquer coisa de modo imediato e instantâneo. Mas o argumento lembra que as coisas criadas estão submetidas ao tempo e ao espaço, ou seja, sempre sofrem modificações graduais; as criaturas incorpóreas, que não têm extensão (e portanto não estão submetidas ao espaço) ainda assim estão sujeitas à sucessão temporal de eventos, em seu caminhar. As coisas materiais são transformadas através do tempo e do espaço. Portanto, se o poder de Deus não é capaz de transformá-las de modo instantâneo e imediato, mas está condicionado ao tempo e ao espaço, diz o argumento, então não pode ser infinito.

O argumento sed contra é teológico. Cita Santo Hilário, padre da igreja, que em seus escritos refere-se à potência de Deus como “imensurável”, ou seja, não sujeito a medida, além de chamar Deus de “o próprio poder vivo”. Ora, o argumento prossegue, tudo que não está sujeito a medida é infinito. Logo, o poder de Deus, conclui o argumento, é infinito.

Colocados os argumentos nos dois sentidos, São Tomás nos dará sua resposta sintetizadora.

Ele vai nos lembrar que a potência ativa de Deus é proporcional ao que nele está em ato. Ou seja, é aquilo que em Deus é perfeito que determina o tamanho do seu poder. Mas em Deus o seu próprio ser é puro ato, vale dizer, é perfeição plena. Mas, quando tratamos da essência divina, na questão 7, artigo 1, vimos como um ser imaterial, cuja essência fosse o próprio existir, não seria contraído por nada; a rigor, não seria um indivíduo, um particular, mas seria necessariamente a inteligibilidade, a existência infinita, puro ato de existir. Ora, sendo puro ato, é ato infinito, e portanto, potência ativa infinita. E São Tomás continua: se um ser tem uma potência ativa tão maior quanto mais perfeitamente participa, em ato, da forma que o faz agir (como um corpo quente aquece tão mais quanto mais participar da natureza do fogo), então um ser que seja essencialmente ato pleno de existir deve, por definição, possuir a plenitude da capacidade de agir. E é neste sentido que podemos falar da onipotência de Deus.

E São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento resgata a ideia grega de que a noção de infinito traz em si a noção do imperfeito, do aberto, indeterminado, e portanto não se aplica a Deus. São Tomás responde simplesmente que esta noção de “infinito” grega aplica-se apenas às coisas materiais; de fato, aquilo que é material, mas é infinito, ainda não está determinado adequadamente pela forma, e neste sentido é incompleto, ininteligível. Imaginemos um escultor que começou a fazer uma estátua a partir de uma porção de barro ainda não separada da jazida. É claro que, enquanto não for destacada e terminada, a estátua é, de certo modo, “infinita”, porque inclui em si toda a jazida de barro, e não sabemos qual o limite da intencionalidade do autor, para julgar a qualidade do seu trabalho artístico. Assim, nas coisas materiais, pode-se equiparar “infinitude” com incompletude e imperfeição. Mas Deus não é material, e sua essência é infinita porque, uma vez que consiste no próprio existir, não está contraída por nada. Neste sentido, a infinitude, em Deus, tem o sentido de plenitude, não de incompletude.

A segunda objeção diz que uma potência infinita deveria manifestar-se num efeito infinito. Mas como a criação tem limites, ela não revela um Deus com poder infinito. São Tomás responderá que há duas maneiras de ser causa, ou seja, de exercer seu próprio poder de agir: o agente pode ser unívoco ou equívoco. Unívoco é o agente capaz de gerar um efeito igual a ele mesmo. Neste sentido, um homem e uma mulher podem gerar univocamente um outro ser humano. Neste caso, diz São Tomás, a potência geradora se manifesta inteira no seu efeito: o casal humano tem o poder de gerar outro ser humano, e é este o efeito próprio e pleno da sua união sexual. Não há a possibilidade de que a geração unívoca de dois seres humanos resulte, digamos, num cão ou numa planta.

Mas há outra forma de manifestar as próprias capacidades, é a causalidade equívoca. Ser um agente equívoco, diz São Tomás, é ter a capacidade de produzir efeitos diversos, em natureza, de si mesmo. Neste caso, diz São Tomás, o efeito não precisa ter proporção com o ser da causa. Alguém pode pintar um quadro com a figura de um homem, mas este quadro é, indiscutivelmente, menos do que um homem. (É certo que São Tomás dá um exemplo da biologia do seu tempo, hoje ultrapassada; ele cita as larvas que resultariam dos corpos em putrefação ao sol. Mas o fato de que o exemplo foi cientificamente ultrapassado não diminui o valor filosófico ou teológico da sua argumentação). Ora, na criação Deus é um agente equívoco, porque a criação não tem a mesma natureza que o próprio Deus. Assim, o fato de que a criação não é infinita não implica nenhuma objeção válida contra a onipotência divina.

E mais, diz São Tomás. Nem sequer pode-se dizer que admitir a onipotência divina seria admitir que ela fica frustrada quando não produz algum efeito infinito. Para isto, diz São Tomás, seria preciso admitir que ela tivesse, de algum modo, o fim de produzir efeitos infinitos mas de algum modo não o conseguisse na prática. Mas as coisas não são assim: o poder de Deus não está ordenado a algum fim que não ele próprio, como capacidade de agir da essência plenamente inteligente e inteiramente livre que ele é.

O terceiro argumento diz que um agente com potência infinita provocaria transformações instantâneas e imediatas em todas as coisas com que se relacionasse; ou seja, um motor (no sentido filosófico da palavra “motor”) com poder infinito transmitiria de modo imediato e instantâneo o movimento às coisas por ele movidas. Um motor infinito, segundo este argumento, não estaria sujeito, nos efeitos que provoca, aos limites de tempo e de espaço. Mas a criação está sujeita ao tempo e ao espaço nas transformações que experimenta, e disto o argumento conclui que Deus não é um agente com poder infinito.

São Tomás dá a resposta, aqui, em várias partes.

Ele começa logo explicando que é preciso compreender bem a lição de Aristóteles quanto à capacidade de um motor com potência infinita. De fato, lembra São Tomás, Aristóteles admite que o suposto “motor que move o céu”, na sua concepção cosmológica, é incorpóreo, e é capaz de mover o céu por um tempo infinito; ou seja, um motor com potência infinita, mas incorpóreo, pode, mesmo na estrutura aristotélica de pensar, produzir um efeito submetido ao tempo, ainda que a um tempo que se estenda infinitamente.

Portanto, o suposto “motor de potência infinita” que necessariamente produziria sempre seus efeitos de modo instantâneo e imediato teria que ser material; um motor material, que movesse algo material, seria, diz São Tomás, um agente unívoco, e portanto teria que produzir de uma vez e sempre todo o efeito de que é capaz. Imaginemos, por exemplo, um carro de fórmula 1 com um motor infinitamente potente funcionando plenamente; este carro já não estaria submetido a tempo e espaço.

Mas não assim um motor imaterial. Quando um motor imaterial produz efeitos no mundo criado, ele sempre é um agente equívoco, porque ele próprio, sendo imaterial, não está sujeito ao movimento que produz. Assim, não necessariamente ele deve produzir instantânea e imediatamente um efeito infinito, já que seu efeito não é unívoco com sua própria natureza. Por isto, não é uma refutação válida dizer que, se Deus fosse onipotente, sua criação não estaria sujeita ao tempo e ao espaço. Ao criar e reger a criação, como vimos, Deus não é um agente unívoco, mas equívoco.

E São Tomás acrescenta outra consideração: Deus não é um agente impessoal, que agisse mecanicamente produzindo os efeitos proporcionais à sua capacidade causal, como fazem as forças naturais como a gravidade ou a eletricidade. Deus age por vontade. Com pleno controle do seu poder. E sua vontade é libérrima.