No texto anterior, tratamos da hipótese controvertida proposta por São Tomás, no sentido de negar que se pudesse atribuir poder a Deus. Ele juntou quatro argumentos objetores, que negam a conveniência entre Deus e a ideia de potência e, no argumento sed contra, mostrou como a Palavra revelada atribui potência, ou melhor, onipotência, a Deus. Agora, na sua síntese, São Tomás vai harmonizar os elementos filosóficos trazidos pelas objeções com a palavra clara da Revelação, numa síntese teológica admirável.
Na resposta de São Tomás, ele começa por uma distinção: há dois sentidos para a noção de “potência”. Há o sentido passivo, que expressa a capacidade de ser transformado, como o ovo pode virar galinha, ou a semente pode virar planta, ou mesmo a parede branca pode ganhar cor vermelha. Este sentido é inaplicável a Deus. Nada há, em Deus, que pudesse ser modificado, transformado, melhorado, aperfeiçoado. Tudo nele é já perfeito, pleno, acabado, completo. Deus não tem potências no sentido passivo desta noção. Não há “devir” em Deus; ele é puro ato. Neste sentido, São Tomás desautoriza radicalmente a noção hegeliana de que haja um processo dialético em Deus que o levará, de algum modo, a uma síntese final que o tornará mais divino do que é hoje. Deus, na sua transcendência, é aquele que era, que é e que vem (Ap 1, 8) e é o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13, 8).
Mas há outro sentido para a noção de “potência”. É a noção ativa. Trata-se da capacidade que têm as coisas em ato de transformar outras coisas que estão ainda em potência. Assim, uma abelha adulta, quando atinge a sua maturidade, é capaz de transformar pólen em mel. Esta transformação não aperfeiçoa em nada a própria abelha, que já está em sua plenitude existencial quando a realiza. Mas transforma o pólen, que em si mesmo ainda não é mel (mas pode vir a sê-lo) em mel. Ou a tinta vermelha, que, na sua vermelhidão atual e consumada, tem a capacidade de atualizar o muro outrora sem cor, fazendo-o ficar vermelho também. Para que um ser tenha, portanto, esta potência ativa de transformar outras coisas, de levar as outras coisas a desenvolver seus próprios potenciais passivos, é preciso que ele próprio esteja em ato, ou seja, que ele já tenha a perfeição que transmitirá para as outras coisas. Portanto, uma vez que possui em si todas as perfeições, todos os atos, e que é pleno e completo, Deus é o princípio ativo por excelência, e de nenhum modo pode ser princípio passivo. Em suma, Deus tem, em si, a capacidade de criar a transformar tudo, a plenitude da potência ativa. Mas de modo nenhum caba nele a ideia de potência passiva.
Se me permitem uma digressão, desta resposta de São Tomás pode-se vislumbrar a importância existencial da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo; aquele que, em si mesmo, não poderia sofrer nada, não poderia ter nenhuma passividade, escolhe sofrer tudo por nós. A Paixão de Cristo revela a misericórdia de Deus de um modo maravilhoso – o deus impassível faz-se compassivo e aceita a passividade para nos transformar, para nos transmitir, em sua imutabilidade, a felicidade eterna que reservou para nós, num convite de plena misericórdia. Ali mesmo, na sua paixão, paradoxalmente ele nos revela a plenitude de sua potência ativa, transformando-nos, por participação, naquilo que ele é por natureza. Voltemos ao nosso artigo.
São Tomás passará a responder às objeções iniciais. A primeira objeção opõe Deus, como agente primeiro e ato perfeito, à matéria-prima, pura potência e ente de razão. E diz que, se na matéria-prima não há nenhuma dimensão de ato, então em Deus não pode haver nenhuma dimensão de potência.
Esta é uma visão tipicamente grega, já que os gregos clássicos não chegaram a ter uma noção de criação ex nihilo (do nada) como aquela trazida pela visão judaico-cristã. Vale dizer, a matéria-prima, na visão platônica, é apenas moldada pelo demiurgo, mas não é criada por ele. Neste sentido, como total ininteligibilidade, ela se opõe, para Aristóteles, à forma, que é inteligibilidade total, e se opõe a Deus.
Mas, na visão judaico-cristã, a matéria-prima é também parte da criação, concriada com as coisas materiais. De fato, Deus não “criou” matéria-prima em seu estado puro, porque isto seria inconcebível. Sendo pura potência, ela é pura promessa de existir, mas não é existência. Ao criar, portanto, Deus gera este princípio de concretude com as coisas que chama do nada para a existência.
São Tomás responderá, pois, que temos que ter cuidado aqui, com a ambiguidade da noção de potência, lembrando mais uma vez do sentido ativo e passivo desta noção. A filosofia não opõe o ato à potência ativa. De fato, para ser princípio de transformação, o ser tem que estar em ato. A potência ativa pressupõe, portanto, o ato. E se Deus é o ato por excelência, ele é ativamente potente por definição.
No entanto, São Tomás nos lembra que a noção de potência passiva se opõe ao ato. De fato, o que está em potência, no sentido passivo da palavra, ainda não está em ato. O ovo ainda não é galinha, a semente ainda não é uma planta. Eles terão que sofrer profundas transformações antes de atingir estas perfeições. Assim, São Tomás conclui que o argumento objetor está correto, se ele quer excluir de Deus o sentido passivo da noção de potência, que de fato é incompatível com a sua divindade. Mas o argumento falha quando não percebe esta sutileza: o sentido ativo da noção de potência não somente é adequado a ele; pode-se dizer que é próprio dele. Somente em Deus a noção de potência ativa encontra seu sentido pleno.
A segunda objeção parte da noção de que a Deus sempre cabe o melhor, o mais perfeito. Assim, Deus é puro ato, porque o ato é melhor do que a potência passiva – o ato é o fim da potência passiva. Assim, como o agir é o fim da potência ativa, agir, segundo o argumento, é melhor do que simplesmente ter o poder de agir. Assim, o argumento conclui que devemos afirmar que Deus é plena ação, e não simplesmente onipotente.
São Tomás vai responder dizendo que em Deus não há diferença entre ter potência para agir, por um lado, e o seu próprio agir, do outro. Ambos são aspectos da própria essência de Deus, que nós distinguimos por causa do nosso próprio modo limitado de pensar e conceber os atributos divinos. Em nós, o agir é diferente da capacidade de agir; mas não em Deus. Nele, agir e poder agir são a mesma coisa, e portanto não há distinção de nobreza entre as duas coisas. Mas isto não significa, acrescento, que Deus seja uma “máquina de agir”, um agitar-se frenético que realiza efetivamente tudo o que pode realizar. Ele é, em perfeita harmonia, inteligência, vontade e capacidade em essência. Assim, o seu agir é sempre inteligente e volitivo, ou seja, pessoal, e manifesta sempre a sua capacidade, ou melhor, a sua onipotência em tudo o que faz. E mesmo no que deixa de fazer. Não há oposição, em Deus, entre o poder fazer, por um lado, e o fazer ou deixar de fazer, por outro. Cada agir de Deus é expressão plena da sua onipotência. É por isto que, nele, não se pode dizer que o agir seja melhor do que o poder agir. Não há. Nele, nenhuma oposição real entre agir e poder agir. E assim a objeção cai por terra.
A terceira objeção trouxe a noção de que a potência ativa é um princípio de ação. Nas criaturas, podemos imaginar algo que pode agir, mas não o faz, sem deixar de ser o que é. Por exemplo, uma abelha que, parada, não faz mel (e não deixa de ser abelha por isto). Assim, o princípio de ação, nas criaturas, é um acidente com relação à sua própria essência. Mas em Deus não há acidentes, diz o argumento. Assim, uma vez que a potência ativa é definida como “princípio de ação”, o argumento afirma que, se admitisse que em Deus há potência, então teríamos que admitir que há, na essência de Deus, algo que é princípio. Mas Deus, por definição, não tem princípio. Logo, não se poderia, diz o argumento, admitir que haja potência, mesmo ativa, em Deus.
São Tomás vai lembrar que, quando nos referimos a Deus, e para isto utilizamos noções próprias da estrutura da criação, não usamos estas noções de modo unívoco. não no referimos de modo unívoco a Deus, quando as utilizamos para falar dele. Assim, diz São Tomás, nas criaturas utilizamos a noção de “potência ativa” para significar “princípio de ação” e “princípio de efeito”; assim, quando dizemos que a abelha faz o mel, tanto dizemos que ela tem poder para realizar o processo do qual resulta o mel, quanto dizemos que ela é causa eficiente do próprio mel. Quando falamos de Deus, não utilizamos a noção de “potência” com o mesmo sentido. De fato, Deus não tem um “princípio de ação”, além de sua essência divina mesmo, porque não há acidentes em Deus. Mas podemos falar perfeitamente de uma “potência ativa” divina com relação aos seus efeitos, já que Deus é causa eficiente primeira da criação. É assim que, embora Deus não seja, a rigor, um indivíduo (ou uma substância primeira, um “suposto”, para usar a terminologia aristotélica), nós usamos para ele a noção de “suposto”, e, embora ele não tenha uma “natureza”, no sentido de uma “physis” que o determina a ser de um determinado modo, também falamos, com muita liberdade analógica, de uma “natureza” divina. Por isto, uma vez que a essência divina encerra em si mesma todas as perfeições criaturais, e as causa pela criação, é que lhe atribuímos o agir e o poder.
O quarto argumento lembra que, nos debates anteriores, ficou definido que a inteligência e a vontade divinas são causas das coisas. Assim, diz o argumento, uma vez que a “potência ativa” é definida como “princípio da ação”, na verdade ela é um sinônimo de “causa”. Mas se em Deus o conhecimento e a vontade são causais, então não há sentido em se falar de uma outra realidade, a “potência ativa”, como causa das coisas.
São Tomás vai responder que, em Deus, na própria essência divina, não há distinção real entre a inteligência, a vontade e a potência. Mas estas diferenças são diferenças de razão, ou seja, verdadeiramente são apenas limites na nossa forma de nos expressar sobre realidades divinas, que nos superam infinitamente. Este modo de falar não é falso, mas é limitadíssimo, como já vimos tanto no estudo da questão 1, quanto no estudo da questão 13. Assim, a inteligência de Deus, ou a sua vontade, quando são vistos por nós sob o enfoque do seu poder causal, são mencionados como “potência”, sempre que as estamos vendo sob o enfoque da sua capacidade de efetivar o que é conhecido e querido. Assim, a inteligência e a vontade de Deus, em si mesmas, são consideradas por nós como a causa que precede ao efeito, e chamamos de “potência” a esta causalidade, sob o ângulo de sua efetividade. Por isto, por causa da nossa capacidade limitadíssima de falar sobre Deus é que estudamos a sua inteligência e a sua vontade como se fossem algo em si mesmos e a sua potência como se fosse o princípio da causalidade eficiente de Deus. Mas em Deus mesmo tudo isto é uma coisa só. Não podemos confundir, pois, aquilo que é o limite da nossa inteligência e da nossa linguagem para nos referir a Deus (limites que não nos impede de fazer afirmações verdadeiras, embora analógicas e limitadíssimas, sobre ele), por um lado, e Deus mesmo, como ele é – superando-nos infinitamente – por outro. É neste sentido que São Tomás diz que estas distinções que fazemos, para falar sobre Deus, são distinções de razão, mas não são distinções reais.
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