As questões anteriores, diz São Tomás, trataram da inteligência e da vontade de Deus. Agora, os debates tratarão do seu poder. Esta é, talvez, uma das questões mais agudas para a nossa contemporaneidade. De fato, talvez um dos grandes conflitos, hoje, ocorram entre a visão de um Deus cuja onipotência é o principal atributo que se exige a submissão incondicional. Por outro lado, a maior resistência entre os não-crentes é a um Deus assim, mais prepotente do que onipotente. Nenhum dos dois é o Deus que amamos, revelado em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não deixou de chamar minha atenção, há muito tempo, que o primeiro atributo de Deus, conforme o Credo cristão, seja o seu poder, a sua onipotência. “Creio em Deus Pai todo-poderoso”, diz o Credo. Lembro de ter questionado a um padre muito sábio sobre esta angústia. Ele me respondeu, muito justamente, que o primeiro atributo que o Credo imputa a Deus não é a onipotência. É a paternidade. É como pai que ele é onipotente. Esta descoberta tocou-me profundamente. E não é à toa, portanto, que São Tomás fez questão de estudar, aqui na Suma, a inteligência e a vontade de Deus antes de estudar o seu poder. Deus não é arbitrário em sua onipotência. Deus é amor (1Jo 4, 16), e no princípio de tudo está o seu verbo (Jo 1, 1). É em unidade indissolúvel com seu logos e com seu amor que ele exerce sua onipotência. Ou seja, não é porque Deus nos mandou amá-lo que devemos amá-lo. Ele nos manda amar porque ele é amável em si mesmo. A sua lei, a lei do amor, está em perfeita harmonia com o seu ser. E é nesta harmonia que ele exerce o seu maravilhoso poder.

E é este poder que São Tomás quer colocar em debate agora. O que significa falar da potência, ou melhor, da onipotência divina? Em função da ambiguidade técnica do termo “potência”, na filosofia aristotélico-tomista, esta é uma discussão muito rica. Como poderíamos falar em “potência” para Deus sem imaginar que estamos falando de uma capacidade para transformar-se, para vir a ser alguma coisa que ele já não é? Como um Deus perfeito, atual e completo poderia ser também potente? Penso, por exemplo, no caso daquelas células que podem vir a transformar-se em qualquer tecido humano, que são chamadas de “células-tronco”, e cujo atributo principal é a chamada “totipotência”. Elas são chamadas assim porque têm capacidade de vir a ser qualquer tipo de célula especializada no organismo humano. Mas será que um Deus que é descrito como pleno, total, perfeito e completamente atual não seria também rígido e imperturbável, alheio a qualquer relação ou interação? Como poderíamos harmonizar a perfeição, a completude absoluta de Deus, com a sua onipotência? Isto não implicaria admitir, em Deus, uma capacidade infinita de transformar-se, incompatível com a ideia de sua perfeição e imutabilidade?

É assim que a hipótese controvertida, aqui, para provocar o debate, é a de que parece que Deus não tem poder – não é potente, ou seja, não haveria, nele, nenhuma potência. É preciso compreender bem a dupla noção de ato e potência, em Aristóteles, para compreender a discussão. Ato é aquilo que já é, é pleno, perfeito e consumado. A potência é a capacidade de ser que ainda não encontrou sua perfeição, mas aponta para determinado ato e não para outro. Assim, por exemplo, uma semente de milho é um caroço em ato, mas é um pé de milho em potência. Jamais crescerá para transformar-se, digamos, num pé de feijão. Não tem potência para isto. O pé de milho, por outro lado, é uma planta em ato, mas tem potência para produzir muitos caroços de milho ao seu tempo. Neste sentido, a noção de potência tem uma ambiguidade, que será bastante explorada neste artigo.

São Tomás colecionará, aqui, quatro argumentos objetores, que buscam comprovar a hipótese controvertida inicial de que não se pode falar de “potência” com relação a Deus.

O primeiro argumento é bem filosófico. Parte da noção de “matéria-prima”, central para o sistema aristotélico. A matéria-prima é um ente de razão, isto é, não existe como tal no mundo das coisas, mas apenas como concepção em nossas mentes. De fato, tudo o que vemos no mundo das coisas é matéria já de algum modo especificada pela forma; mesmo aquilo que muitas vezes chamamos de matéria-prima (por exemplo, quando dizemos que o cimento é matéria-prima para o concreto, ou que o plástico é matéria-prima para a indústria automotora) já está de algum modo especificado pela forma; o cimento já tem sua forma de pó, e sua composição de argila e calcário, e o plástico, em sua estrutura, leva o carbono em forma de nafta, capaz de assumir as formas acidentais mais diversas. A matéria-prima, em seu conceito filosófica, porém, é pura potência, no sentido de que nada a especifica; ela não é “feita” de alguma outra coisa, embora possa vir a ser qualquer coisa. Assim, ela simplesmente não existe como tal fora da esfera da razão.

O argumento diz, em seguida, que a matéria-prima, por sua própria definição, está para a realidade concreta das coisas, como pura potência, ou seja, como “ingrediente” primeiro, ou paciente primeiro, como Deus está para as coisas como agente primeiro por excelência, como puro ato. E o argumento prossegue: se a matéria-prima, conceitualmente,. É pura potência sem mistura de nenhum ato, então Deus necessariamente seria puro ato, sem mistura de nenhuma potência, conclui. E disto o argumento afirma que Deus não tem, nem pode ter, potência alguma.

O segundo argumento também é filosófico. Também parte da relação entre ato e potência. Como vimos no argumento anterior, a potência, no sistema aristotélico, está para o ato como a semente está para a planta; mas, diz o argumento, a planta é superior, metafisicamente, do que a semente, porque a planta é o que identifica, especifica, determina a semente. Cada semente é semente de alguma planta, e tende a ser aquela planta um dia. Ainda que se diga que a planta tem a potência ativa de produzir sementes, diz o argumento, a própria semente produzida é melhor do que a capacidade da planta para produzi-la (é só perguntar ao fazendeiro se ele prefere um pé de milho que “prometa” produzir milho ou um pé de milho que já o esteja produzindo). Neste sentido, uma planta adulta, que já tenha a capacidade ativa (potência ativa) de produzir novas sementes, é melhor do que uma planta jovem que ainda não as esteja produzindo, embora já tenha a pot~encia ativa para tanto.

Então o argumento diz que o ato (que consuma a potência) é indiscutivelmente melhor do que a potência (como a planta é melhor que a semente), ainda que estejamos falando de uma potência ativa (capacidade de produzir outras coisas, em função da própria perfeição já alcançada, como a planta fecundada é melhor do que a que ainda não produz). Assim, o argumento diz que, em Deus, há sempre o melhor. Assim, não poderia haver potência, no sentido passivo, porque Deus é puro ato;. Nem potência, no sentido ativo, porque em Deus tudo é ação, não haveria promessa de ação. Logo, não haveria, segundo o argumento, como falar de potência em Deus.

O terceiro argumento continua com a ideia de potência como “princípio de ação”. De fato, a potência, mesmo quando se fala em potência ativa – ou seja, na capacidade de modificar outras coisas em função da própria perfeição – é sempre um princípio de ação. A vaca adulta tem a potência ativa de produzir leite, a árvore adulta, de produzir sementes. Mas esta capacidade, nestes seres, é acidental: uma vaca sem úbere, ou seja, que não produz leite, ainda é uma vaca, e uma árvore estéril continua sendo uma árvore. Mas, em Deus, a capacidade de agir não é acidental, ou seja, não é alguma coisa que, se não existir, ele continua sendo Deus. É própria da essência de Deus a capacidade de ação, em razão mesmo da sua natureza divina. Assim, o argumento conclui que não é necessário, e mesmo é inconveniente, falar de um “poder de Deus” como uma noção autônoma.

É a mesma linha do quarto argumento objetor. O argumento começa lembrando que, em debates anteriores, ficou bem estabelecido que a inteligência e a vontade divina são a causa das coisas. Assim, diz o argumento, não é necessário admitir que haja algo como um “poder divino”, que seja causa das coisas, porque seria redundante.

Como argumento sed contra, São Tomás coleciona o Salmo 89 (88), 9: Senhor, Deus dos Exércitos, quem é como tu? És poderoso, Senhor, e tua verdade te envolve”. Há, portanto, segundo o argumento contrário, uma palavra revelada que garante, para além de qualquer limite filosófico, que Deus é poderoso.

Veremos a resposta sintetizadora de São Tomás no próximo texto.